A autora Vitória Gomes reflete sobre relações entre gênero, memória e colonialidade
Em entrevista, pesquisadora mostra como a exclusão das mulheres na história é uma política de dominação antiga e sistemática
Resultado da tese de doutorado e com atualizações de pesquisas feitas nos últimos três anos, Vitória Gomes acaba de lançar Por que nos querem esquecidas? Patrimônios, matrimônios e a descolonização da memória (Editora da Universidade Estadual do Ceará, 2025, 290 págs.), obra que mergulha nas relações entre gênero, memória e colonialidade, propondo uma reflexão urgente sobre como as estruturas de poder têm perpetuado esquecimentos sistemáticos das mulheres, especialmente negras, indígenas, periféricas, LGBTQIA+ e com deficiências. O livro integra a Coleção Territórios de Criação, fruto do edital da Secretaria da Cultura do Ceará realizado via Lei Paulo Gustavo.
Vitória Gomes é professora, pesquisadora e brincante. Integra o grupo de Coco São Francisco do Mestre Dodô e Mestre Joãozinho. Coordena na Universidade Federal do Cariri (UFCA) o grupo de pesquisa SABERES. É doutora em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Iniciou, em 2025, pós-doutorado em Comunicação Social na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com foco no Programa de Saberes Tradicionais da referida instituição, onde investiga memórias e saberes de mulheres. Gosta de bordar, dançar (principalmente Coco e Reisado) e expandir a palavra através da escrita poética.
A trajetória pessoal de Vitória é um fio condutor fundamental na narrativa. Nascida em Brasília (DF) e criada entre Valparaíso de Goiás e Juazeiro do Norte, no Ceará, ela encontrou na história de sua própria família experiências geradoras para suas reflexões.
Confira na íntegra a entrevista com a autora:
Como surgiu o interesse em pesquisar sobre os principais temas abordados em seu livro, como o patrimônio cultural e os esquecimentos sistemáticos sobre memórias e protagonismos de determinados grupos?
Minha primeira leitura de um texto acadêmico sobre patrimônio ocorreu em uma disciplina da graduação em Biblioteconomia na Universidade Federal do Cariri (UFCA), cujo trecho ficou decorado tanto pela impressão que me causou, quanto por ser uma leitura frequentemente citada em outros trabalhos.
Nessa leitura se menciona as origens do termo, na qual “patrimonium” palavra em latim, tem sua etimologia ligada à sociedade romana antiga, que significava aquilo que pertencia ao pai (“pater” ou “pater familias” – pai de família), e que poderia ser transmitido para geração masculina seguinte como herança: bens móveis e imóveis, animais, e até mesmo pessoas escravizadas e mulheres.
Por mais que o significado tenha se alterado ao longo dos tempos, me inquietou o uso de uma palavra com essa etimologia para designar hoje, aquilo que é relevante para a cultura e identidade das pessoas.
Cresci rodeada por mulheres, sobretudo minha mãe e uma tia, cujas histórias envolviam pouca escolarização, exploração ao serem empregadas domésticas nordestinas em Brasília, e, no caso da minha mãe, preconceitos por ser mãe solo. Ao mesmo tempo, via como elas se constituíam enquanto mulheres de personalidade forte, independentes e feministas aos seus modos, o uso de uma palavra que omite já na forma de nomeação a atuação de qualquer pessoa que não seja homem, fez com que eu chegasse no doutorado querendo pensar sobre as relações de gênero no campo da memória e dos patrimônios.
Questões pessoais sobre as memórias de mulheres da minha família me fizeram pensar sobre a memória das mulheres num âmbito mais coletivo a partir do tema do patrimônio: como o esquecimento dos saberes das mulheres da minha família pode ser um reflexo do esquecimento que acontece com as mulheres nas sociedades? Por que não valorizamos os saberes e fazeres das mulheres? Onde estão as mulheres nos patrimônios? Os patrimônios podem ser utilizados para pensar as memórias das mulheres considerando sua etimologia, ontologia e epistemologia androcêntrica?
Sua pesquisa parte também de vivências pessoais. De que maneira as histórias das mulheres da sua família influenciaram a construção da obra e o modo como você pensa a memória coletiva?
Várias dimensões motivaram. Primeiramente, a pessoal: Os ditos e não ditos sobre as mulheres da minha família. Os saberes que elas guardaram/guardam e as interrupções e continuidades no compartilhamento dos seus saberes e fazeres (Bisavó parteira e meizinheira; avó rezadeira; mãe artesã). Destaco também a minha consciência de privilégio que possuo em comparação a elas, já que sou a primeira doutora da família. A legitimidade do meu saber que vem dos títulos da academia, pode ser usada para abordar a deslegitimação e desvalorização dos saberes delas.
Há também a motivação teórica-conceitual, pois essa é uma discussão ainda emergente no campo do patrimônio, com muitas lacunas, mostrando ser um campo amplo e necessário para construção de reflexões que pensem a memória em outras perspectivas. Acredito numa abordagem que fortaleça as perspectivas de gênero nos estudos da memória para fazer avançar os debates sobre representatividade, memória e a invisibilização que certos grupos têm sofrido no âmbito dos patrimônios legitimados: mulheres especialmente negras, indígenas, periféricas, LGBTQIA+ e com deficiências.
Por fim, há a motivação social, a partir da percepção de apagamentos e ausências de mulheres nas memórias presentes em diversos âmbitos como espaços públicos, heroínas nacionais, protagonistas de marcos e movimentos (que se agrava quando se pensa a intersecção de marcadores sociais).
Sou muito provocada pelo território que habito – Juazeiro do Norte, conhecida como a terra “do Padre Cícero” – que é um território de muitos silenciamentos quanto à memória de povos originários e afrodescendentes. No Capítulo “Esquecimento tem gênero e característica étnico-racial” eu trago como a memória da Beata Maria de Araújo (protagonista do milagre da hóstia que dá início ao fenômeno das romarias na cidade) raras representações no espaço público, enquanto a de Padre Cícero está em todo lugar.
O livro nasceu da sua tese de doutorado, mas você revisitou o texto e o transformou completamente. Como foi esse processo de reescrita, de uma tese acadêmica para uma obra que fala de modo mais acessível sobre memória e poder?
Posso dizer que foram dois momentos – tese e livro. O processo de escrita da tese começou de forma mais consistente entre 2020 e 2021. Na época eu estava afastada das atividades docentes da UFCA e pude me dedicar à pesquisa. O processo foi difícil por se tratar da pandemia e todos os desafios que vivenciamos coletivamente naquele período: medo de uma doença na época sem vacinas / tratamentos específicos, incertezas de quanto tempo duraria e as ansiedades que decorriam da pandemia e de realizar um doutorado. Na época foi preciso alterar a execução da pesquisa, que inicialmente previa vivências com mulheres detentoras de saberes populares e tradicionais. Mas devido à pandemia, a tese se concentrou em discutir teoricamente sobre os conceitos, políticas e ações relativas ao patrimônio e memória em suas disputas. A tese foi defendida dia 09/12/2021 de forma online.
Já o processo de escrita do livro aconteceu no segundo semestre de 2024, após aprovação no edital Territórios de Criação da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará. O objetivo principal nesse processo, foi atualizar algumas informações, rever conceitos, repensar a estrutura de organização dos capítulos e sobretudo a linguagem – de um formato mais acadêmico para uma obra que derivava de pesquisa científica, mas que não precisasse mais ter o mesmo rigor que uma tese requer.
Nessa nova fase foi possível falar inteiramente na primeira pessoa, inserir fotografias de família e inserir novas informações e reflexões advindas dos anos que haviam se passado desde o doutorado e que me fizeram estar mais madura sobre alguns tópicos.
O título do livro, Por que nos querem esquecidas?, é uma pergunta contundente. Em que momento da pesquisa você percebeu que o esquecimento das mulheres não era acidental, mas fazia parte de uma política de dominação?
Creio que o livro chama atenção para o fato de existirem muitos jeitos no mundo de pensar, se relacionar, valorizar, compartilhar e nomear a memória. Acredito que faz uma crítica bem ampla aos patrimônios e os modos com que tem sido pensado e utilizado sob a forma de políticas para a legitimação e valorização de determinados grupos. O livro não defende que seja abandonada a política patrimonial ou que descredibilize as instituições que o promovem como o IPHAN por exemplo. Se trata de apontar fragilidades e trazer para o debate, algumas questões que façam a gente avançar em termos de equidade e representatividade da memória. Acho que o principal ponto é como precisamos debater coletivamente que tipo de memória e identidade queremos. E quando falo querer no plural, quero dizer dos diferentes grupos que compõe o que chamamos de Brasil, mas que historicamente foram desconsiderados ou apagados do processo.
A missão é complexa, já que pessoas não brancas, trabalhadores(as), pessoas com deficiência, mulheres, LGBTQIAPN+, povos originários se enquadram nessa categoria de exclusão.
No livro abordo como há muito a ser feito para que desigualdades na representação e valorização de determinados grupos, seja de fato equitativa e não desigual, sobretudo do ponto de vista do Estado e suas políticas.
Como são muitos grupos e possíveis abordagens de reflexão, fiz o trabalho com o tema das mulheres, e chamo atenção no livro que existe uma relação entre feminicídios e memoricídios, argumentando que o esquecimento das mulheres é uma política do patriarcado, na medida em que ambas geram dominação e extermínio. Desenvolvo sobre essa ideia na página 208 e 209: o feminicídio, o extremo da violência, atenta contra a vida das mulheres. Já o memoricídio é uma forma de extermínio das mulheres ao retirar seus lugares como sujeitas da história, silenciando suas contribuições para o desenvolvimento das sociedades em diferentes âmbitos. A obliteração desse lugar de liderança e de contribuição social é fundamental para a esfera de dominação, que impede sua valoração e reconhecimento, o que por consequência diminui seu prestígio e status na sociedade.
Preciso dizer, que a relação entre essas duas violências, são influenciadas pelas questões familiares (que abordei em outras respostas aqui) quanto pelo território que habito onde feminicídios são recorrentes e tristemente marcam as estatísticas de violência contra as mulheres. O apagamento na memória das mulheres é forte. Sendo um local de forte religiosidade, mulheres martirizadas que subvertem esse esquecimento às vezes se tornam alvo de devoção (Benigna, Maria Filomena de Lacerda, Francisca do Socorro), e me fazem questionar se para serem lembradas mulheres precisam passar por violências.
Você mora e pesquisa no Cariri cearense, território marcado por fortes silenciamentos e também por intensas resistências. Como essa vivência no território atravessa a sua escrita e sua visão sobre memória?
Convivo há muitos anos com mestres e mestras (sobretudo do Cariri cearense) e tendo desenvolvido pesquisas sobre o que se chama de saberes tradicionais e populares, tenho escutado sobre diferentes formas de opressão, violência e saberes diversos sobre a forma de entender a memória, as políticas públicas e como as condições de vida determinam suas configurações. Creio que tudo isso afeta muito meu modo de pensar e entender os conceitos e ideias que trabalho no livro.

O livro foi aprovado no edital Territórios de Criação, que selecionou 20 teses e/ou dissertações de pesquisadores(as) cearenses e/ou residentes no Ceará, para publicação em formato físico e digital. Que significado teve para você essa publicação num projeto que propõe justamente descolonizar saberes e democratizar vozes?
Foi uma realização do Governo do Ceará, por meio da Secretaria da Cultura (Secult-CE), e do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura (MinC), via Lei Paulo Gustavo. A realização do edital ocorreu através da Mercúrio – Gestão, Produção e Ações Colaborativas, e a produção foi da Casa das POC Produções Criativas. Para publicar, fizeram parceria da EdUECE, a Editora da Universidade Estadual do Ceará.
A EdUECE, já tinha parceria com a Secult, através do selo Arte, Cultura e Conhecimento, que já publicou diversas obras. Os livros da Coleção Territórios de Criação, da qual meu livro faz parte, vêm se somar a esse conjunto de publicações.
Suas referências transitam entre pesquisadoras e artistas que pensam o corpo, a ancestralidade e as interdições da memória. Que mulheres – na teoria e na arte – te ajudam a pensar e a sentir o mundo?
Entre pesquisadoras, admiro muito Leda Maria Martins, que tem uma vivência e produção que é profunda, singular e poética. Ela é uma grande inspiração e influência. Há outras mulheres, que também admiro, como Dia Nobre, Geni Núñez e Débora Diniz. Todas possuem trajetórias e pesquisas bem distintas, mas cada uma em seu lugar de vivências e produção, possuem obras que discutem seus temas com abordagens que trazem grandes contribuições para pautas contemporâneas. Elas são algumas das pesquisadoras citadas no livro, e, portanto, influenciam minhas reflexões.
Com relação à artistas cito algumas como Jéssica Teixeira que é atriz, produtora, dramaturga e diretora. Jessica possui trabalhos fantásticos como E.L.A e Monga. Seus trabalhos que lutam contra o capacitismo, trazem muito a discussão sobre as violências e apagamento que pessoas com deficiência sofrem histórica e cotidianamente.
A Mayara Ferrão e o trabalho Álbuns de Desesquecimentos é algo que me afetou muito. Ela usa IA em fotografia e vídeo para imaginar e construir narrativas de afeto protagonizadas, sobretudo, por pessoas negras e indígenas, tensionando narrativas de opressão, silenciamentos e invisibilização que essas mulheres estiveram (e ainda estão) sujeitas devido a colonização e escravização.
Também acompanho e admiro os trabalhos da Yasmin Formiga, Amara Moira, Massuelen Cristina, Aline Motta, Auritha Tabajara. Do Cariri, Joaquina Carlos, Jarid Arraes, Nívia Uchôa (filme Verbo Ser), Indja e Maria Macedo são algumas pessoas que posso citar.
Você é também poeta, dramaturga e brincante. Como essas linguagens se misturam na sua forma de pensar e escrever? Há um diálogo entre a pesquisadora e a artista quando você trata de memória e esquecimento?
A escrita sempre me acompanhou. Além dos trabalhos acadêmicos a poesia era algo que fazia espontaneamente quando criança por exemplo, e depois como válvula de escape das emoções na adolescência. Agora adulta, tenho buscado formações de escrita tanto na poesia quanto na dramaturgia.
A dramaturgia chega depois que finalizei o doutorado e digamos que encerrei uma parte mais rigorosa da vida acadêmica que envolve pelo menos 10 anos de dedicação (graduação, mestrado e doutorado). A partir daí pude me dedicar a outras atividades como teatro e a dança que sempre foram de grande interesse. Também entrei no Reisado e Coco São Francisco do Mestre Dodô e Joãozinho e pude experimentar no corpo, coisas que antes assistia e refletia sobre. Tudo isso vem somando e afetando não somente o que penso, mas a forma que escrevo.
No pós-doutorado, você tem mergulhado nos saberes tradicionais de mulheres em Minas Gerais. Que experiências desse novo ciclo já estão ecoando no que você pretende escrever a seguir?
Atualmente, estou no pós-doutorado na UFMG. Vim para Belo Horizonte, para cursar as disciplinas da Formação Transversal em Saberes Tradicionais e poder fazer a vivência de campo que não foi possível durante o doutorado, já que foi no período da pandemia.
Aqui, tenho tido contato com mulheres detentoras de saberes tradicionais das quais tenho aprendido sobre cuidado, ativismo, ancestralidade, luta pelo território, educação, fé só para citar alguns exemplos. A vivência e os aprendizados aqui, estarão no meu próximo livro que pretendo falar de memória das mulheres a partir dessas e outras experiências que tenho tido e que me ajudarão a delinear melhor o que chamo de matrimônios.
Marcela Güther é jornalista, gestora de comunicação e especialista em relacionamento com a mídia e influência na editora orlando e na com.tato, empresa especializada em comunicação para editoras e autores independentes. Com mais de 10 anos de experiência no setor de comunicação, atua também como mediadora de clubes e mesas literárias, combinando paixão por leitura com expertise em comunicação e curadoria de conteúdo literário.

