CINEMA NACIONAL NA COP30

Pasárgada no igarapé: “Eu sou tropical”

O filme Pasárgada encontrou o destino curioso e talvez inevitável de voltar à floresta. Na noite de 15 de novembro, durante a COP30, a ilha do Combú — um território vivo onde o rio dita o ritmo dos dias — recebeu uma exibição especial da obra com a presença de Dira Paes, atriz, escritora e diretora. Foi o momento íntimo e simbólico de apresentar para visitantes e para a comunidade local um filme que fala sobre o seu próprio mundo, filmado em homenagem àquela mata e àqueles rios.

Dira Paes, de Abaetetuba, no Pará, é uma das atrizes mais respeitadas do cinema brasileiro e é também uma das fundadoras da ONG Movimento Humanos Direitos (MHuD), que luta por causas como direitos indígenas, quilombolas e preservação ambiental.

No filme Pasárgada, ela não é apenas protagonista e diretora. Ela é roteirista, coprodutora e força criativa por trás do filme, exercendo uma presença multifuncional. Sua atuação é delicada e intensa, refletindo sua profunda familiaridade com a Amazônia e seu compromisso com a arte como forma de resistência e cuidado.

Durante a exibição na ilha do Combú, Dira subiu ao deck antigo de madeira na margem de um igarapé, em frente ao telão, para falar com os espectadores. Ela compartilhou que em um ano que ela participou de seis filmes, muitas pessoas dali não sabiam que ela estava trabalhando. Isso foi uma constatação sobre a invisibilidade do cinema amazônico dentro da própria Amazônia. No Pará, há poucas mostras de cinema, poucos festivais locais, e muitas vezes as produções feitas por e para amazônidas só circulam fora da região. A mostra no Combú foi um gesto de devolução.

As vozes da floresta ecoavam ao fundo, se misturando aos sons minuciosos do filme, especialmente os cantos dos pássaros, que foram protagonistas também. A projeção se tornou uma espécie de diálogo entre a floresta real e a floresta cinematográfica, como se os sons da mata estivessem respondendo ao que se via na tela, estrela-cadente em plano de fundo.

Pasárgada é um filme conceitual, quase meditativo em seu início. A câmera se move com calma, com mistério, refletindo a vida na floresta; lenta, profunda e cheia de segredos. Esse ritmo contemplativo é deliberado, uma estratégia artística que convida o espectador a desacelerar, a ouvir, a observar, mas nunca a baixar a guarda. O contraste com a vibração frenética e desconcentrada da vida urbana é nítido.

Crédito: Peter Wery/Divulgação

A trama se intensifica de forma súbita. Surge um caos, um momento de tensão que altera tudo. É um clímax de suspense, cuidadosamente construído sem choque visual fácil. A violência é sugerida, insinuada, ganha força na montagem, nos cortes e no som. É ao mesmo tempo thriller e fábula, evidenciando uma das estratégias mais poderosas do filme, de fazer o público sentir antes de entender.

Depois desse momento de explosão, a narrativa avança para outro ápice emocional. Esse segundo clímax é menos visceral e mais simbólico, quase ritualístico. Ele fecha o arco de Dira em tela sem resolver a dimensão social do filme, uma crítica a indústria ilegal de animais silvestres que aterroriza a Amazônia. Especialmente o tráfico de pássaros, que compõem “80% dos animais traficados no Brasil.

Essa escolha temática torna Pasárgada muito mais do que arte contemplativa. É uma denúncia urgente. Qualquer pessoa comprometida com a proteção da floresta e da vida silvestre deveria assistir. E para os amantes de ornitologia, observadores de pássaros, e fãs de tramas de suspense, o filme é ainda mais especial.

A exibição na ilha do Combú consolidou esse sentido de pertencimento. A maneira como a natureza ao redor dialogou com a projeção reforçou a ideia de que Pasárgada pertence àquela floresta. Não era apenas cinema; era ritual, celebração e resistência.

Dira, com sua delicadeza, seu humor gentil, sua beleza e presença calorosa, conversou com o público antes e depois do filme. Riu, ouviu, abraçou. O encontro foi espontâneo e sincero, como parte artista e parte irmã da floresta. A generosidade dela criou laços.

O evento mostrou uma arte que se reinventa fora dos centros convencionais. Apresentar um filme auteur amazônico para pessoas na Amazônia é mais do que simbólico. É uma estratégia de reapropriação cultural e de afirmação de identidade.

Pasárgada não é para todos apenas porque é belo ou ambiental. É importante para quem ama a Amazônia, para quem teme que sua fauna seja saqueada, quem teme a violência criminosa em suas terras, e quem acredita que o cinema pode transformar por demonstrar complexidade. E para os observadores de pássaros que gostam de suspense é imperdível.

Ver Pasárgada no Combú, no rio sob as estrelas, foi um ato de resistência estética. Dira Paes, com toda sua vivência paraense, talento e engajamento, transformou a mostra em um momento de encontro entre a arte e o lugar que a inspirou.

Mirna Wabi-Sabi é escritora, editora da Sul Books e fundadora da Plataforma9. Ela é autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos pela editora P9

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