Sonia Gomes e a sinfonia das múltiplas materialidades
Sonia nos apresenta uma nova revolução de conceitos, particularmente do barroco, cujas delimitações são nebulosas, as definições são as mais variadas possíveis, e suas vertentes e subestilos também o são. Em exposição no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, até 8 de fevereiro de 2026
“Por rebeldia”
Foi assim que Sonia definiu, com suas próprias palavras, suas primeiras incursões no universo da criação artística. Com o desejo de usar peças únicas, que refletissem seu estado de espírito e não pudessem ser encontradas em nenhuma loja, começou a fazer combinações, arranjos e misturas de tecidos e bijuterias para ostentar no corpo. Então, a arte veio como uma torrente de água inesperada, sem uma determinação específica do tipo prêt-à-porter.
Se o próprio corpo já não abarcava toda a criatividade dessa mineira de Caetanópolis, as galerias do Brasil e do mundo acolheriam, com grande reconhecimento, a obra que utiliza materiais do cotidiano. E não é por acaso que essa escolha recai sobre aquilo que levamos sobre a pele: tecidos, rendas, lantejoulas, linhas e uma infinidade de elementos que se fundem com a nossa identidade individual e coletiva.

Nesse contexto, o universo de tantas imagens simbólicas criadas por Sonia não mobiliza, no espectador, uma única figura, mas uma pluralidade de manifestações que remetem ao passado brasileiro, ao feminino e às heranças ancestrais, especialmente africanas. O componente material dos símbolos e signos em cada uma das esculturas e estruturas da artista obriga a consciência a se colocar em movimento e a articular-se com os conteúdos inconscientes contidos em cada detalhe que compõe as peças.
Sonia cria e recria arquétipos que reivindicam, por si mesmos, sua existência e legitimidade. A fragmentação arquetípica na obra desta artista, se usarmos os termos de Erich Neumann, resulta na geração de uma miríade de imagens que abarcam opostos sem sua exclusão mútua: passado e presente, feminino e masculino, liberdade e cárcere, sonho e realidade.
Ela nos leva a percorrer as linhas e as torções de tecido com os olhos, o consciente e o inconsciente, como na Bienal de Veneza de 2024, onde a antiga prisão feminina de Giudecca abrigou sua Sinfonia das Cores suspensa, provocando diálogo entre imagens, poesia e cores para uma transformação dos sentidos e do sentido.
Aliás, essa mesma orquestração artística já havia sido “desafiada” no octógono da Pinacoteca de São Paulo no ano anterior. As 34 esculturas suspensas se aliaram a sons, iluminação e a uma experimentação sensorial inovadora, marcando os 20 anos desse espaço reservado da Pina e apresentando uma forma criadora inédita da artista para o público.
Atualmente, Sonia nos apresenta uma nova revolução de conceitos, particularmente do barroco, cujas delimitações são nebulosas, as definições são as mais variadas possíveis, e suas vertentes e subestilos também o são. Em exposição no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, até 8 de fevereiro de 2026, por meio de uma parceria com o Museu da Inconfidência (MG) e o Museu de Arte Contemporânea da Bahia, o barroco desta artista não é unicamente antropofágico no sentido de recriar o que já se disse, já se fez ou se buscou estabelecer sobre essa corrente artística. Ela amplia o repertório, remetendo a um barroco que revela a complexidade das raízes brasileiras e o acúmulo de vivências individuais e coletivas, muitas delas atravessadas pela violência colonial e contemporânea, que traz as marcas da anterior.

Em Barroco, mesmo – com curadoria de Paulo Miyada – bolsas carregam identidades não identificáveis com precisão, enquanto atuam como um campo magnético para o qual somos atraídos, a fim de repensar o que transportamos da própria história e o que poderia conter de autoimagem cada compartimento daqueles acessórios. Gavetas guardam tesouras cortadoras de vivências em forma de cordas, linhas e rendas, refeitas e reelaboradas para serem resgatadas em sua origem. Rendas de bilros remetem a essa herança presente em diferentes pontos do Brasil, conectando cada um deles para compor uma peça original e singular, um retrato irrepetível do país. Estruturas naturais se cobrem parcialmente para nos recordar que somos mundos diversos, concedidos ou confeccionados por instintos e racionalidades.
Na galeria de fotos, vê-se a mão de Sonia que torce fibras, malhas e texturas para envolver o metal frio, dando-lhe uma nova carga energética e de significação, que não exige mais do que o entendimento de que tudo é plural e vasto.
Em suma, esse barroco não traz o exagero ou o drama do que é corriqueiramente e equivocadamente atribuído ao feminino. A anima na obra de Sonia Gomes convoca a um sutil despertar sensorial e emocional que, paulatinamente, impele à reavaliação do que se compreende por “peças do cotidiano”, estimulando à ação e à recriação dos mundos interno e externo. Essa transformação não aniquila as sombras do passado; porém, as conduz a uma busca por uma reescritura, para que não corramos o risco de retornar a um caráter elementar, em que violências e repressões rasgaram, sem dimensão estética, tramas alinhavadas pelo tempo e pela natureza.
Finalmente, Sonia, além de todas as suas elaborações estéticas, nos oferece a oportunidade de confrontar nossa própria imagem em um espelho emoldurado por uma imensa variedade de retalhos de histórias e vidas. É ali que o espectador pode olhar para si próprio e, ao mesmo tempo, ver refletida atrás de si, no espelho, uma das obras suspensas, como um recordatório do passado. Ao vislumbrar simultaneamente passado, presente e futuro em uma composição quase estereoscópica, somos levados a reavaliar a relação entre subjetividade e coletividade, bem como nossas projeções nesse espelhamento.
Ali mesmo, diante de nossos olhos.
Fedra Rodríguez é Nascida em Curitiba, em 7 de março de 1978, Fedra Rodríguez é tradutora, crítica de arte e escritora. Possui doutorado em Estudos da Tradução e atua no campo da literatura e da cultura desde 2006, com mais de 30 obras traduzidas, além de livros e artigos publicados em diversos veículos e países. Entre suas conquistas, destaca-se o 65º Prêmio Jabuti de Melhor Tradução (2023), obtido junto ao Coletivo Finnegans (Editora Iluminuras), pela tradução de Finnegans Wake, de James Joyce. Atualmente, é colunista da Revista Cult.

