ARQUITETURA E PODER

Vivenciando a arquitetura da Fundação Louis Vuitton (FLV)

A arquitetura contemporânea, especialmente aquela alçada à condição de ícone global, raramente se limita à função de abrigar usos: ela comunica, disputa sentidos, reorganiza fluxos urbanos e produz imagens que circulam muito além do lugar onde se insere. Entre a obra construída e a experiência vivida, estabelece-se um campo de tensões que envolve estética, mercado, turismo, poder e cidade

Como as cidades, a arquitetura deve ser vivenciada, não só observada.

Dito isso, durante minha recente viagem à Europa, não poderia deixar de visitar a tão falada Fundação Louis Vuitton, projeto de 2014 do arquiteto Frank Gehry (1929–2025). Recém-falecido, Gehry nasceu no Canadá e naturalizou-se estadunidense. Superpremiado, é conhecido por seus inovadores projetos desconstrutivistas, como o Museu Guggenheim, em Bilbao, na Espanha; o Walt Disney Concert Hall, em Los Angeles, nos Estados Unidos; o Vitra Design Museum, em Weil am Rhein, na Alemanha; e o impressionante edifício da Fundação Louis Vuitton, na região do Bois de Boulogne, em Paris, França.

Crédito: Anita Di Marco (Proibida a reprodução)

Sem dúvida, seus projetos chamam a atenção, instigam o pensamento, questionam o olhar tradicional, desafiam a gravidade e rompem paradigmas e normas consolidadas. Mais do que edifícios, são verdadeiras esculturas urbanas. O Guggenheim de Bilbao, talvez o mais emblemático deles, foi fundamental para a recuperação do turismo e de uma área urbana então em decadência da cidade basca. Da mesma forma, o edifício da Fundação Louis Vuitton – vitrine e estratégia de marketing da famosa marca – destaca-se na paisagem verde do Bois de Boulogne e já se consolidou como ponto turístico de Paris. Pode-se dizer que seus projetos tinham um propósito e um alcance urbanos que iam muito além do estritamente arquitetônico.

Sempre trabalhando com diferentes propostas e materiais – como titânio, aço, vidro, pedra e madeira laminada –, o arquiteto Gehry criou estruturas complexas, esculturais e potentes, para dizer o mínimo. Foi um dos chamados starchitects, ou arquitetos-estrela, que se tornaram marca registrada no mundo da arquitetura contemporânea. Cada projeto assinado por esses starchitects era sinônimo de visibilidade, atração de público e incremento do turismo. Como em outros lugares que abrigam obras com sua assinatura, é evidente que, em Paris, houve uma conjunção de fatores: provavelmente, o presidente da Fundação Louis Vuitton encantou-se com as criações desse arquiteto-estrela e desejou um projeto de Gehry para chamar de seu. Afinal, a arquitetura nunca é neutra.

Crédito: Anita Di Marco (Proibida a reprodução)

O programa da Fundação pode ser interessante e tão ambicioso quanto o próprio edifício; os artistas que lá expõem podem ter um currículo artístico considerável, mas o protagonista é o próprio edifício. Disso não há dúvidas. Inaugurado em 2014, sua estrutura é em madeira engenheirada (produto inovador que transforma madeira de reflorestamento em material de alta performance, obtido a partir de processos industriais como laminação, colagem e participação de peças metálicas) e cobertura de vidro e aço. Inspirada na imagem de velas infladas, a obra é, segundo o arquiteto, uma alegoria, um tributo à ousadia, às viagens e às navegações. Por isso, o volume remete à imagem de um barco a vela. Ou um iceberg com suas inúmeras pontas. De qualquer forma, concorde-se ou não com essa explicação, mais que abrir um novo espaço para a arte contemporânea, o edifício parisiense foi pensado como uma obra de arte em si.

Se gostei? Não sei dizer. Sem dúvida, apreciei os terraços, os pequenos detalhes e as vistas que se abrem por trás, entre as vigas e os trechos da cobertura; a fina lâmina d’água sobre a escadaria, que conduz o olhar do visitante da rua até o acesso ao edifício; e a possibilidade de pensar na precisão exigida para a montagem das peças. O fato é que, imponente já à distância, a Fundação – instalada em meio ao verde do Jardin d’Acclimatation – atrai o olhar e uma infinidade de turistas, que saem do circuito central da capital francesa para dar uma passadinha e conhecer o projeto. E, verdade seja dita, fiquei especialmente admirada com o grande número de idosos visitando a Fundação e as exposições ali montadas.

Mas voltando à arquitetura do edifício: seus quatro andares (um subsolo, o térreo e mais dois superiores), a cobertura, os terraços, os recortes, as galerias para mostras de arte contemporânea, o auditório, a biblioteca, o restaurante e as luminárias suspensas em formato de peixe, o ateliê infantil, as escadas rolantes, a loja, os espaços quebrados, desconstruídos, os acessos interrompidos, as escadas, as maquetes expostas, os vídeos e a documentação da história do projeto no ateliê do arquiteto no próprio edifício… e a escassa sinalização indicativa… Confesso que fiquei confusa ao percorrê-lo e, pelo que vi, não fui a única. Ademais, as imensas estruturas metálicas acomodando as placas de vidro das “velas”, a dimensão das vigas de madeira laminada e a fixação de enormes cabos e parafusos me deixaram com a sensação de algo excessivo, desmedido, de certo desperdício de espaços e materiais num mundo que fala de sustentabilidade e eficiência, apesar dos processos modernos de fabricação, por exemplo, da madeira engenheirada.

Crédito: Anita Di Marco (Proibida a reprodução)

Um pouco, talvez, do que eu e minha saudosa amiga, a arquiteta Ruth Verde Zein (1955-2025), falávamos, já há um bom tempo, quando trocávamos figurinhas a respeito dos caminhos da arquitetura e dos arquitetos: os edifícios construídos para abrigarem museus acabaram se tornando mais protagonistas do que as próprias obras de arte que se propuseram a abrigar. Não que isso seja de todo ruim, o conceito de museu apenas como depósito e repositório de coisas antigas já mudou e é bom a arquitetura se envolver com criatividade em usos menos habituais. Os museus de hoje não dão mais respostas prontas; eles procuram instigar o pensamento, propor perguntas, dúvidas e questionamentos. Além disso, nunca é demais lembrar que cada edifício é uma parte da cidade que vai sendo construída, daí a importância de um bom projeto arquitetônico que dialogue com o entorno.

Enfim, aqui e acolá, quando cliente e arquiteto se entendem, a obra acontece. No caso, Paris ganhou um novo ponto turístico em pleno século XXI e, pela trajetória de Gehry, já sabemos que, em 2026, teremos – se tudo der certo – no Guggenheim de Abu Dhabi, em construção há mais de 15 anos, um edifício tão ou mais icônico quanto o da Fundação Louis Vuitton.

Obs: Todas as fotos são de novembro de 2025 e de autoria da arquiteta, tradutora e escritora Anita Di Marco.

 

Anita Di Marco é articulista, tradutora, professora, curadora e arquiteta pela FAU-USP. Tem especialização em Preservação do Patrimônio Histórico pelo ICCROM (Roma) e em Tradução (DBB-RJ). Foi indicada ao Prêmio Jabuti (2022), categoria tradução, finalista do Prêmio Somos Cidade com seu blog Anita Plural, ganhadora do Prêmio Gentileza Urbana 2011 do IAB-MG, menção honrosa na Bienal Internacional de Arquitetura e Engenharia do Chile com seu livro Sala São Paulo de Concertos: A Revitalização da Estação Júlio Prestes, em coautoria, (2002) e fez parte de grupos premiados em concursos de tradução literária.

 

Referências

https://www.ebiografia.com/frank_gehry/

https://planner5d.com/blog/pt/frank-gehry/

https://www.fondationlouisvuitton.fr/en/visit

https://www.archdaily.com.br/br/756545/fundacao-louis-vuitton-de-gehry-em-paris-os-criticos-respondem

https://www.conexaoparis.com.br/fundacao-louis-vuitton/

https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/16.099/5862

https://www.yankodesign.com/2025/12/05/10-iconic-frank-gehry-buildings-that-celebrate-the-late-starchitects-legacy/

 

 

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