A ARQUITETURA DA OPERAÇÃO PERFEITA

Como os EUA fizeram para bombardear a Venezuela e sequestrar Maduro em menos de 5 horas antes da primeira segunda-feira do ano?

Em janeiro de 2026, os Estados Unidos inauguraram um novo patamar de intervenção ao bombardear a Venezuela e capturar seu chefe de Estado em uma operação relâmpago, sem declaração formal de guerra e com mínima fricção institucional. Mais do que um episódio excepcional, a Operação Absolute Resolve revela a consolidação de um modelo contemporâneo de conflito baseado na integração entre ação militar, controle informacional e gestão jurídica da violência

2026 começou com os EUA bombardeando um país latino-americano e sequestrando seu presidente – algo até então sem precedentes. As principais manchetes detalham o interesse de Trump no petróleo, que a China e a Rússia repudiam na ONU a ação dos States que Maduro está sendo julgado em Nova York e está detido no mesmo centro que Luigi Mangioni e Diddy. No entanto, poucos falam sobre como a Operação Absolute Revolve inaugurou uma forma até agora sem precedentes de se fazer guerra e como ela foi perfeitamente executada.

Ano passado, escrevi neste periódico que o genocídio em Gaza era ensaio militar, e agora com a situação na Venezuela fica claro que o modelo foi aperfeiçoado e reproduzido para a América Latina. Neste artigo, explico a arquitetura da Operation Absolute Resolve e por qual motivo ela representa o novo Estado-da-Arte em estratégia militar baseada em dados.

Fase pré-cinética: preparando os territórios para o ataque

Um dos motivos para o contínuo sucesso da operação se deu na completa integração entre as cadeias decisórias, sejam elas políticas, militares, de policiamento, diplomáticas ou informacionais.  A preparação, no entanto, começou bem antes da primeira bomba ser lançada.

Ao longo do segundo semestre de 2025, o Caribe foi gradualmente convertido em zona de exceção operacional sob o vocabulário banalizado do combate ao narcotráfico. Exercícios conjuntos, missões de vigilância aérea, patrulhas navais e operações “antidrogas” ampliaram de forma contínua a presença militar norte-americana na região, sem acionar alarmes diplomáticos proporcionais. Esse foi um dos elementos mais importantes da operação: o controle informacional e a percepção internacional do conflito.

O que em outro contexto soaria como escalada, foi apresentado como rotina sustentada pela fabricação de um consenso. Por exemplo, o abate e a interdição de embarcações foram tratados como desdobramento técnico de operações de policiamento marítimo, diluindo deliberadamente a fronteira entre fiscalização e ato de guerra. Na mídia, esses navios venezuelanos abatidos deixaram de ser símbolos de soberania e passaram a ser enquadrados como “alvos logísticos” de uma operação não contra um país soberano, e sim sobre o Cartel de los Soles, que Trump já admitiu não existir. Através do domínio da narrativa midiática internacional, mediada por grandes oligopólios informacionais localizados no Norte, os ataques foram enquadrados de forma repetitiva, tecnicista e despolitizada – transformando a violência em procedimento e dessensibilizando a comunidade internacional.

Quando a parte cinética da operação se iniciou, o público internacional já havia sido treinado a reconhecer o ataque como rotina administrável.

Concomitantemente, os EUA já estavam trabalhando na erosão institucional dos mecanismos internacionais de mediação e contenção do uso da força – como nossa agora não-tão-querida ONU, entidade máxima de mediação internacional. Esses organismos foram progressivamente deslocados para uma posição reativa e simbólica, incapazes de intervir de forma eficaz diante de ações rápidas, fragmentadas e juridicamente ambíguas. O Conselho de Segurança, por exemplo, paralisado por vetos cruzados e por disputas procedimentais, deixou de funcionar como instância de contenção e passou a operar como palco posterior de legitimação retórica.

Essa dinâmica contribuiu para a desativação prática do multilateralismo como freio à coerção. Quando os pronunciamentos oficiais chegaram, o evento já havia ocorrido, os alvos já haviam sido removidos e a narrativa dominante já estava estabilizada, ou seja, a temporalidade da ação superou a temporalidade da diplomacia.

Politicamente, as ameaças constantes de Trump afirmaram a posição reativa do resto do mundo – e especialmente de governos como o brasileiro – diante da escalada no Caribe. Trump impôs tarifas sobre países que comercializassem petróleo venezuelano no início de 2025, numa medida que pressionou governos sul-americanos a recuarem em eventuais apoios mais contundentes à Venezuela; e essa retórica tarifária, conectada à denúncia de Caracas como “narcoestado”, situou a política de energia venezuelana sob uma ameaça econômica articulada diretamente pela Casa Branca.

No plano regional, a relação entre Brasil e Estados Unidos foi de atrito ao longo de 2025, principalmente diante de choques comerciais, acusações e a retórica agressiva pautada por Washington. Se estabeleceu um ambiente em que qualquer movimento diplomático que não atendesse diretamente aos interesses norte-americanos era tido de maneira antagônica, como a ideia de acolher a entrada da Venezuela nos BRICS. Isso, por exemplo, foi interpretado por Trump e seu gabinete como desfavorável aos seus interesses, pois, de fato, era, e não como o desenrolar diplomático de uma outra região, e um outro bloco, minando a autonomia diplomática do país e da região.

Essa tensão externa teve reverberações internas para Brasília, alimentando receios de que o Brasil pudesse ser isolado ou punido, e contribuindo para decisões tímidas em fóruns multilaterais como os BRICS. Numa região já pressionada por campanhas narrativas sobre “narco-terrorismo” a escalada retórica de Trump, tanto no discurso quanto nas medidas concretas, acabou por enfraquecer iniciativas independentes de mediação ou de solidariedade regional. O Brasil seguiu acuado, com suas instituições incapazes de responder de maneira estratégica no meio de tantos ataques.

Ao longo de 2025, os discursos vindos de Brasília e de outras capitais latino-americanas clamavam por contenção e respeito à soberania eram eclipsados pela agenda traçada em Washington e pela velocidade com que os fatos consumados eram instalados em um novo tipo de política externa baseada no medo da reação ao invés da negociação e do debate escalonado.

Como resultado, nem a Venezuela, nem o Brasil, nem nenhum país da América Latina estava pronto para responder à fase seguinte da Operation Absolute Resolve.

Fase cinética: uma blitzkriegor an american lightning war

Chegamos, então, na parte verdadeiramente impressionante do ataque americano à Venezuela: algo que gostaria de chamar de blitzkrieg, (estratégia militar nazista baseada em operações-relâmpago que deixavam o inimigo sem tempo de reação) mas que não devo por respeito conceitual. Talvez, adotando o idioma do invasor uma lightning war seja mais apropriado. Em suma, a operação pode ser definida pela compressão extrema do tempo decisório, em que planejamento, execução e controle narrativo se sucedem sem fricção perceptível.

A fase cinética da operação durou menos de cinco horas. Nesse intervalo, os Estados Unidos obtiveram supremacia aérea e marítima imediata, neutralizaram sistemas de defesa, degradaram comunicações estratégicas, conduziram uma incursão urbana de alta precisão e extraíram o chefe de Estado venezuelano com vida. Não houve escalada descontrolada, improviso visível ou ruído entre os níveis de comando: algo extremamente raro mesmo em operações militares de menor complexidade.

Crédito: Reprodução/X

O uso coordenado das forças navais e aéreas foi central. A partir de um eixo marítimo já previamente saturado por meios norte-americanos, plataformas navais funcionaram como bases móveis de projeção de poder, garantindo controle do espaço aéreo, reabastecimento, vigilância contínua e capacidade de ataque de precisão. No ar, aeronaves de quinta geração, bombardeiros estratégicos, meios de guerra eletrônica e plataformas de alerta antecipado operaram de forma integrada, produzindo um ambiente de negação total ao Estado venezuelano desde o primeiro minuto.

Essa superioridade impediu qualquer possibilidade de reação organizada já que o ataque funcionalmente paralisou os sistemas de Defesa Venezuelanos: radares silenciados, comunicações interrompidas e cadeias de comando desarticuladas produziram um curto-circuito sistêmico em que o Estado deixou de operar como ator estratégico real.

É nesse contexto que a captura de Nicolás Maduro (e não sua eliminação) ganha centralidade, e o sequestro, realizado por forças especiais em incursão urbana de curtíssima duração, revela que a operação foi concebida desde o início com a fase pós-cinética em mente. Eliminar o alvo encerraria o evento, no entanto, capturá-lo permite prolongar o processo. O corpo vivo é instrumento jurídico, político e narrativo. O cadáver, não.

E aqui, a extração de Maduro, realizada com precisão sem precedentes, evidencia um dado raramente alcançado em operações dessa escala: continuidade absoluta da linha de comando. Do núcleo decisório em Washington às unidades de ação direta em solo, passando por inteligência, guerra eletrônica, aviação e forças navais, não houve quebra de coordenação nem conflito de autoridade. A decisão política, o comando militar e a execução tática operaram como um único circuito fechado.

Em outros contextos, operações complexas fracassam justamente nas transições: entre inteligência e ação, entre decisão e execução, entre o plano e o imprevisto. Aqui, o imprevisto foi minimizado por meses de preparação e por uma arquitetura decisória altamente centralizada, capaz de comprimir tempos e suprimir fricções institucionais.

Navio usado no sequestro de Maduro
Crédito: Reprodução/US Navy

A operação agora: a pós-violência como continuação da política por novos meios

A Guerra, nada mais é, senão a continuação da política sob meios violentos, já dizia Clausewitz. O que a Operation Absolute Resolve nos revela, assim, é que a política continua pela administração da violência já exercida, por meios jurídicos, informacionais e institucionais que dispensam novos bombardeios pelo menos por enquanto.

Com a captura de Maduro, a fase pós-cinética consiste na gestão do fato consumado. O centro de gravidade desloca-se do campo de batalha para os tribunais, para os fluxos de informação e para o reconhecimento seletivo internacional.

Maduro vivo torna-se peça central desse novo arranjo: ele sustenta acusações, produz imagens, legitima sanções e ancora uma narrativa que transforma intervenção armada em processo legal contínuo. E aqui o controle narrativo assume papel ainda mais decisivo já que a linguagem da guerra desaparece, substituída pelo vocabulário da justiça, da segurança e da governança. Desde sua captura em Caracas durante a operação em 3 de janeiro de 2026, Nicolás Maduro foi transportado em uma sequência de movimentos cuidadosamente expostos ao público: do helicóptero ao convés do USS Iwo Jima até sua chegada no solo norte-americano o público assiste um trajeto divulgado com imagens escolhidas estrategicamente para marcar a narrativa de legalidade e controle.

Uma vez em solo americano, Maduro foi conduzido ao Centro de Detenção Metropolitano de Brooklyn, uma penitenciária federal em Nova York conhecida por abrigar grandes casos criminais, e passou sua primeira noite sob custódia antes de ser apresentado a um juiz federal. Em audiência na Corte Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Sul de Nova York, ele e sua esposa, Cilia Flores, pleitearam inocência perante acusações que incluem narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína e posse de armas de guerra, sem recorrer à farsa retórica da guerra, mas à gramática institucional do sistema penal estadunidense.

Parte desse processo legal é tratada publicamente como extensão de um caso que o Departamento de Justiça vinha construindo desde 2020, em uma acusação originalmente apresentada na Corte do Distrito Sul de Nova York contra Maduro e altos funcionários venezuelanos por suposta conspiração com grupos narcotraficantes – evidenciando, novamente, como a Operação Absolute Resolve foi a culminação de uma agenda estratégica de anos.

Ainda não há ocupação formal, não há administração direta do território, não há declaração de tutela; mas há condicionamento político permanente. E esse é o melhor cenário para os EUA, a conclusão do objetivo construído desde 2024.

Sem ocupação, Washington evita o custo clássico das guerras longas: não há necessidade de manter tropas em solo estrangeiro, administrar populações hostis, reconstruir infraestrutura ou sustentar financeiramente um Estado colapsado. O peso orçamentário, político e simbólico da ocupação é simplesmente descartado e a coerção funciona sem presença. Ao mesmo tempo, a ausência de administração direta reduz a exposição internacional já que não há imagens diárias de violência, não há corpos de soldados retornando, não há crises humanitárias atribuídas formalmente ao ocupante. O controle opera à distância, por meio de sanções, processos judiciais, reconhecimento seletivo e pressão econômica calibrada.

Esse arranjo também oferece flexibilidade estratégica. A pressão pode ser intensificada ou afrouxada conforme o contexto político interno norte-americano, o humor do mercado internacional ou rearranjos regionais. Diferente de uma ocupação tradicional, que cria compromissos rígidos e difíceis de desfazer, a coerção pós-cinética permite ajustes finos, reversíveis e assimétricos.

Há ainda um ganho narrativo central, pois, ao manter a violência confinada a um episódio breve e concentrado, os Estados Unidos preservam a capacidade de se apresentar como ator racional e legalista com a transição do discurso do militar para o jurídico-administrativo, deslocando o debate da soberania para a governança.

Os custos ficam para o Estado-alvo e a região: a Venezuela e a América Latina. A instabilidade prolongada, a fragmentação institucional e a incerteza política passam a ser problemas internos, enquanto o centro decisório externo conserva capacidade de veto, influência e punição sem assumir responsabilidades diretas. É coerção sem compromisso, poder sem ocupação, intervenção sem reconstrução.

A guerra perfeita

É precisamente essa combinação – brevidade extrema da violência, continuidade política prolongada e ausência quase total de fricção institucional – que recoloca a Operation Absolute Resolve no centro da discussão estratégica contemporânea: uma operação executada no limite superior do que hoje é possível fazer em termos de guerra integrada, orientada por dados e decisão centralizada.

O que torna a operação perfeita não é a força empregada, mas o controle absoluto das transições. Transição entre paz e guerra, sem declaração formal. Transição entre policiamento e ataque militar. Transição entre combate e processo judicial. Transição entre exceção e normalidade. Em cada uma dessas passagens, onde operações costumam falhar, não houve quebra de comando, disputa de autoridade ou ruído público relevante. Tudo ocorreu como parte de um único encadeamento lógico.

Esse grau de precisão só é possível quando inteligência, capacidade militar, aparato jurídico e domínio informacional deixam de operar como esferas distintas e passam a funcionar como um mesmo sistema contínuo. Assim, a decisão política não precede a ação militar; ela já nasce integrada a ela. A narrativa não explica a violência depois, mas a antecede e a absorve. O direito não limita a guerra, ao contrário, ele a prolonga por outros meios.

É por isso que a Operation Absolute Resolve deve ser lida como estado da arte, pois demonstra maturidade plena na integração entre dados, vigilância persistente, comando centralizado e gestão narrativa global.

Ao final, a pergunta relevante já não é se a operação foi legal, moral ou aceitável; essas disputas ficam para depois, nos fóruns que já não conseguem interferir no curso dos acontecimentos. A pergunta que se impõe é outra: quem, hoje, consegue resistir a um arranjo desse tipo?

O que a Operation Absolute Resolve inaugura não é uma guerra nova no sentido absoluto, mas um novo modo de conduzir o conflito, integrando ação cinética com erosão da diplomacia, manejo da opinião pública e desgaste da governança dos países-alvo. Há, claro, continuidadtes com a forma que se costumava fazer guerra, mas o salto qualitativo está na integração entre decisão, execução e gestão posterior num modelo que dissolve fronteiras clássicas entre guerra, policiamento e governança.

Guerras desse tipo raramente recebem um nome no momento em que acontecem. Só mais tarde, quando seus efeitos se acumulam e se conectam, é que passam a ser reconhecidas como parte de um conflito maior, e se algum dia falarmos em uma Terceira Guerra Mundial, ela provavelmente será identificada retrospectivamente, daqui muitos anos quando olharmos para o passado com lamentação enquanto tentamos entender como deixamos tamanha barbárie acontecer, e como chegamos até aqui.

A Venezuela pode não ser o marco original da Terceira Guerra Mundial, mas, certamente, entrará nos livros de história como o momento em que a América Latina foi chamada diretamente para o conflito mundial.

Isabela Rocha é mestre e doutoranda em Ciência Política pelo Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (IPOL UnB), onde coordena o Grupo de Trabalho Estratégia, Dados e Soberania do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEPSI IREL UnB). Preside o Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+, visando o desenvolvimento de infraestrutura tecnológica íntegra e soberana no Brasil, no Sul Global, nos países BRICS+, e no mundo.

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