QUEM FOI NIETZSCHE?

“A vida presta”, segundo Friedrich Nietzsche

Na perspectiva de Nietzsche, a arte e a dança são essenciais para se viver plenamente, representando uma afirmação da própria vida, a alegria dionisíaca, a harmonia do corpo e espírito

A frase popularizada pela vencedora do Globo de Ouro de 2025, Fernanda Torres, pode “transvalorar” o que em primeiro momento expressa. Se a gênese do sentido recai sobre o otimismo e a perseverança diante das dificuldades, além da própria valorização da arte e da cultura do encontro, apesar das incertezas e instabilidades do cotidiano, observamos movimento similar proposto pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que buscava, com seus escritos, alertar o risco do aprisionamento das ideias e das crenças.

Quem foi Nietzsche?

Em sua autobiografia intitulada “Ecce homo” (“Eis o Homem!”, que faz alusão a frase dita por Pilatus no pretório, apresentando Jesus Cristo ao povo que pedia sua crucifixão, após ter passado pelo flagelum, Nietzsche se apresenta: “eu sou dinamite!”. De fato, a dinamite representa a explosão de ideias e mudança de perspectivas e valores que o autor desenvolveu, destinada a mexer os alicerces da sociedade, pautados nas ideias platônicas e nas raízes teológicas e morais judaico-cristãs.

Nascido em Röcken, na Alemanha, no dia 15 de outubro de 1844, primeiro de três filhos, viveu inserido numa família luterana. Seu pai, Carl Nietzsche, era pastor luterano. Com pouca idade, o menino Friedrich viu seu pai falecer e, seis meses depois, viu seu irmão mais novo falecer. Pensou, em primeiro momento, seguir os passos de sua família como pastor luterano, inclusive inscrevendo-se no curso de Teologia na Universidade de Bonn. Depois de concluir o curso, foi convidado a lecionar filologia na Universidade de Basileia, com apenas 24 anos. Por um acaso, conhece as obras do filósofo Arthur Schopenhauer, que fora professor da Universidade de Berlim, do qual foi um dia chamado por Nietzsche de “o cavaleiro solitário”. Nietzsche foi influenciado pela filosofia de Schopenhauer, do qual viria a romper futuramente, e pelo amigo pessoal Richard Wagner, exímio musicista, que também teve contato rompido pelo filósofo posteriormente. Com 37 anos, após pedir desligamento da Universidade de Basiléia conheceu a jovem russa Lou Salomé, que por três vezes negou o pedido de casamento de Nietzsche, desilusão que teve grande impacto na vida do filósofo. Aos 44 anos, em Turim, viveu seus últimos momentos de lucidez.

O episódio marcante em Turim.

Em 3 de Janeiro de 1889, já em Turim, um fato que marcaria definitivamente sua vida acontece: ao ver um cocheiro chicotear um cavalo exausto, em praça pública, correu para abraçá-lo pelo pescoço e chorou, por um ato de compaixão que marcou o início de seu colapso mental, que desencadeou a demência e o silêncio final. Por conta da demência, Nietzsche foi diagnosticado com neurossífilis pelo médico Paul Möbius, e internado no asilo na Basiléia e, em seguida, em Jena. Provavelmente o filósofo contraiu sífilis durante seu serviço militar, em 1867, nas suas idas ao bordel, hipótese reforçada por seu hábito de frequentar tais locais e relatórios médicos que mencionavam alguns sintomas similares – o Dr. Otto Eiser relatou tê-lo tratado por inflamação ocular e notou lesões penianas. As cartas de Nietzsche, de 1867 até seu colapso, revelam queixas de dores, feridas de pele, fraqueza e perda de visão, características de um quadro secundário da doença. Assim, observador que o estopim se deu naquele fatídico momento em Turim, diante do ato de crueldade contra um animal cansado.

O grito contra a crueldade e a fragilidade da vida foi, portanto, o último momento de lucidez do filósofo do niilismo.

Aprendendo com Nietzsche.

Crédito: Vitor Osório/Wikimedia

O autor alemão abalou as estruturas da religiosidade e da moral tradicional quando reflete uma nova forma de conceber a vida e tudo que a envolve. Como mencionado, nasceu num lar cristão luterano e experimentou desde cedo o luto e o vazio. Alguns biógrafos frisam que Nietzsche, ainda criança, pedia a Deus que pudesse curar seu pai ou até mesmo “devolvê-lo”. Sua família, inclusive, passou grandes dificuldades após o falecimento de seu pai.  Foi ensinado ao jovem a nutrir esperança e confiar em Deus. Todavia, diante da inércia de toda esperança construída, sobrou a Nietzsche confiar na realidade dos fatos.

Sua filosofia não difere muito disso. Se antes, confiava-se cegamente numa perspectiva metafísica, alicerçada na confiança de um mundo pós-vida, justificando atitudes de piedade e compromissos estabelecidos aqui na terra, agora muda-se o paradigma: nasce o movimento de “transvalorar”, ou seja, inverter e questionar valores pré-estabelecidos, propondo ir além dos valores tradicionais de “bem” e “mal ou “certo” e “errado”. Na perspectiva de Nietzsche, esse novo modo de ação humana impulsiona o crescimento e a plenitude da vida, investigando a gênese desses valores e por quais interesses foram estabelecidos. Alguns questionamentos são observados através da leitura nietzscheana: Por que creio em Deus? Ama-se a Deus de verdade ou apenas “amam” por medo de uma punição eterna? Os homens fazem o bem pelo bem em si ou por conta de uma recompensa futura prometida pelo cristianismo?

Assim, por conta do vazio dessas promessas, sem um fundamento real, a não ser alicerçado numa perspectiva metafísica, o niilismo é a via mais propícia: o questionamento dos sentidos pré-estabelecidos, do propósito da vida, da moral e da própria existência, defendendo a criação de novos valores e a negação de verdades absolutas.

Simultaneamente, o filósofo alemão observa atentamente a humanidade, defendendo uma valorização da vida enquanto residente na própria existência, no aqui e agora, uma “afirmação do devir” e o caos (o chamado apolíneo e dionisíaco). A humanidade, portanto, é o sujeito e protagonista na criação de seus próprios valores e sentidos, uma perspectiva antagônica dos ideais metafísicos trazidos por Platão e sustentados pelo Cristianismo. Valorizar a vida totalmente significa aceitar o sofrimento da mesma forma como se abraça a alegria; experimentar a dor da mesma forma como se degusta o êxito. Agir dessa forma possibilita que o indivíduo ame a vida em todas as circunstâncias e infinitamente, testando-a pelo critério do Eterno Retorno e superando o niilismo através da Vontade de Potência – uma força impulsionadora à expansão, autoafirmação, criação de novos valores e superação de si mesmo. A partir disso nasceria uma nova humanidade ou um novo sujeito, dominado de Übermensch, ou um “super-homem” (não o hollywoodiano, mas uma manifestação “superada” do antigo sujeito), que transcende a moralidade tradicional para dar sentido à própria vida.

Da mesma forma, a criação de novos valores é interligada ao processo ativo de procurar por novas referências, que valorizem a existência e não deem chance ao ressentimento. Uma vida ressentida, portanto, é aquela que responsabiliza o outro pelo seu próprio fracasso, pelo seu moralismo, pelo seu autoritarismo, visto que todo excesso esconde, em si mesmo, uma falta. Pessoas, grupos, movimentos, que propagam ideologias agressivas, que ferem ou exclui camadas da sociedade em prol da busca doentia por hegemonia – seja ela política, religiosa ou ideológica, se escondem com máscaras muito frágeis, impossibilitando viver plenamente e autenticamente o que a vida oferece. Se por acaso acham que passam despercebidos, estão enganados.

No dia 11 de janeiro, Wagner Moura e o filme O Agente Secreto venceram duas das três indicações ao Globo de Ouro. O Brasil, quem diria, exporta sua arte e história para que o mundo contemple nossos valores. Na perspectiva de Nietzsche, a arte e a dança são essenciais para se viver plenamente, representando uma afirmação da própria vida, a alegria dionisíaca, a harmonia do corpo e espírito. Afirmava o filósofo: “a arte existe para que a verdade não nos destrua”. Completo: a arte existe para que a dura realidade do cotidiano não nos faça perder a sensibilidade de contemplar a beleza e viver com leveza.

“Aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”, afirmou o filósofo alemão. Só vive plenamente quem encontra sentido no próprio ato de viver.

Railson Barboza é Doutor em Política Social (UFF) e Bacharel em Filosofia (PUC-Rio). Imortal da Academia Fluminense de Letras.

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