Como o rótulo de “Estado falido” obscurece a história haitiana?
Problematizar o uso do termo “Estado falido” é mais do que uma disputa semântica. Trata-se de uma batalha por narrativas que envolve reconhecimento político
Em 6 de janeiro de 2025, os jornalistas David Adams e Frances Robles publicaram no New York Times a reportagem Massacre Após Massacre: A Sombria Espiral do Haiti em Direção a um Estado Falido (Massacre Upon Massacre: Haiti’s Bleak Spiral Into a Failed State). A matéria trazia à tona o colapso da segurança pública no país, escancarando a fragilidade institucional haitiana diante do avanço das gangues e a incapacidade do governo local de responder à crise. Meses depois, em 25 de junho, Robles voltou ao tema em “Um Ano Após a Chegada de uma Força Internacional, o Haiti Não Está Mais Perto da Paz” (A Year After an International Force Landed, Haiti Is No Closer to Peace), defendendo uma atuação mais incisiva da comunidade internacional no país, especialmente por parte dos Estados Unidos – que foi o principal financiador da recente missão das Nações Unidas no Haiti.
Reportagens e análises recentes continuam a recorrer ao discurso de um Haiti como “failed state” ou “weak/fragile state”. Uma coluna no The Washington Post de janeiro de 2026 caracteriza que, assim como a Venezuela, o Haiti seria um Estado falido em crise profunda, ressaltando as limitações das respostas institucionais e humanitárias ante a escalada de violência e instabilidade política. Da mesma forma, um estudo recente do think tank Chatham House (janeiro de 2026) descreve o Haiti como um Estado fraco cuja fragilidade estrutural contribui para a persistência da crise de segurança e dificulta a provisão de serviços básicos.
Com o encerramento formal do mandato da (Multinational Security Support (MSS) em outubro de 2025, a presença internacional no Haiti não foi descontinuada, mas reconfigurada. Em seu lugar, o Conselho de Segurança das Nações Unidas autorizou a criação de uma nova força internacional, a chamada Gang Suppression Force (GSF), dotada de um mandato mais robusto e orientado explicitamente para operações de neutralização de grupos armados. Embora apresentada como uma resposta à suposta insuficiência da MSS, essa substituição não representa uma ruptura com a lógica anterior, mas sim sua intensificação, ao reafirmar a centralidade da abordagem militarizada como eixo estruturante da política internacional para o Haiti.
Nesse período, o cenário humanitário e de segurança se agravou. Estimativas recentes divulgadas pela International Rescue Committee1 indicam que mais de 1,4 milhão de haitianos foram forçados a deixar suas casas em razão da violência armada, muitos deles vivendo em condições precárias em abrigos improvisados, com acesso extremamente limitado a água potável, alimentação e serviços básicos. Esse deslocamento em massa, concentrado sobretudo na região metropolitana de Porto Príncipe, evidencia não apenas a violência do conflito urbano em curso, mas também a incapacidade das respostas centradas exclusivamente na lógica securitária.
Para além dos dados e análises sobre a violência que assola a população haitiana, uma expressão recorrente chama a atenção: ‘Estado falido’. Mais do que um diagnóstico técnico, o termo carrega uma carga política, simbólica e histórica significativa. Esta expressão tem sido amplamente empregada por autoridades, acadêmicos e veículos de mídia dos Estados Unidos (e de outros países) para descrever a situação no Haiti. Seu uso frequente contribui para consolidar uma visão específica do Haiti como incapaz de se autogovernar, o que, por sua vez, legitima ações externas com pretensa justificativa humanitária.
A ex-embaixadora dos Estados Unidos no Haiti, Pamela White, declarou em 2022, durante audiência no Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, que “o Haiti é um Estado falido” e defendeu uma intervenção militar imediata: “O que é necessário AGORA não é um plano complicado de cinco anos, mas tropas em solo, AGORA”.
Essa lógica também está presente em recentes publicações vinculadas a universidades, como o artigo “O Haiti está perto de se tornar um Estado falido” (Haiti is close to becoming a failed state), publicado no News@TheU, da Universidade de Miami (2024), assim como em importantes centros de pesquisa, incluindo os textos “O Haiti é um Estado em falência?” (Is Haiti a Failing State?), do Center for Strategic and International Studies (2019), e “Pergunte aos Especialistas: O que impulsiona a fragilidade do Haiti?” (Ask the Experts: What Drives Haiti’s Fragility?), do United States Institute of Peace (2022).
Esses exemplos demonstram que estamos diante de uma narrativa estruturada, não de exceções. Apesar das críticas constantes ao uso do termo “Estado falido” após os efeitos da Guerra ao Terror – que motivaram, por exemplo, a mudança de nome do questionável índice elaborado pelo Fund for Peace, que passou de Failed States Index para Fragile States Index em 2014 – a expressão continua sendo empregada em discursos políticos, acadêmicos e midiáticos.

Essa narrativa atua em múltiplas frentes: simplifica a crise haitiana, obscurece suas raízes históricas e promove soluções externas como as únicas viáveis. Longe de ser neutra ou meramente descritiva, ela se apoia em uma hierarquia epistêmica global que privilegia modelos ocidentais de Estado, deslegitimando formas locais de organização e resistência. Assim, constrói-se uma imagem racializada, retratando o país como ingovernável, violento e dependente – reforçando, dessa forma, a lógica da intervenção e do controle externo.
Esse enquadramento discursivo ganha força em um momento de profunda instabilidade política. Em 2025, o Conselho Presidencial Transitório enfrentou sucessivas crises internas, incluindo tentativas de destituição do primeiro-ministro e disputas abertas entre seus membros, comprometendo ainda mais a capacidade do Estado de formular respostas políticas legítimas. Longe de ser interpretada como produto de um arranjo transitório frágil e imposto sob forte tutela externa, essa instabilidade é frequentemente mobilizada como prova adicional da suposta falência estrutural do país.
É fundamental lembrar que o Haiti não é um país qualquer. Foi a primeira república negra do mundo, forjada por uma revolução antiescravista vitoriosa em 1804, que derrotou o exército de Napoleão e desafiou o sistema colonial vigente. Desde então, a história haitiana tem sido marcada não apenas por instabilidade interna, mas por interferências internacionais recorrentes, punições econômicas, ocupações militares e imposições de modelos de governança incompatíveis com sua realidade.
Ignorar esse contexto histórico é parte do problema. Ao insistir na categoria de “Estado falido”, o discurso internacional desconsidera as causas estruturais da crise haitiana – como a exploração econômica prolongada, o peso da dívida histórica, as sanções comerciais, a fragilização deliberada das instituições nacionais e os repetidos fracassos de intervenções estrangeiras. Pior ainda, esse discurso justifica a repetição das mesmas soluções que já se mostraram ineficazes, ao apresentar a falência como uma característica intrínseca do Haiti, e não como um produto de processos históricos e políticos amplos.
A dimensão humanitária da crise reforça esse paradoxo. Relatórios recentes, como da Integrated Food Security Phase Classification (IPC), apontam que milhões de haitianos enfrentam níveis críticos de insegurança alimentar, com parte significativa da população em situação de fome aguda. Ainda assim, a resposta internacional continua priorizando estratégias militarizadas, enquanto políticas de reconstrução econômica, fortalecimento institucional endógeno e reparação histórica permanecem secundarizadas ou inviabilizadas.
Essa retórica ainda funciona como instrumento de invisibilização de formas alternativas de organização política no país. Iniciativas locais de autogestão, resistência comunitária e soberania popular são frequentemente apagadas ou deslegitimadas, pois não se enquadram nos moldes liberais ocidentais. Com isso, reforça-se a ideia de que os haitianos são incapazes de se autogovernar, reeditando discursos civilizatórios do século XIX sob uma roupagem supostamente técnica.
A seletividade desse discurso também é gritante. Países do Norte Global que enfrentam crises institucionais graves, erosão democrática ou colapsos sociais raramente são rotulados como “Estados falidos”. O uso do termo se concentra de forma desproporcional em países do Sul Global, especialmente na África e no Caribe, revelando seu caráter racializado e geopolítico.
O encerramento do mandato da Multinational Security Support (MSS) e a autorização da Gang Suppression Force (GSF) pelas Nações Unidas reforça a necessidade de refletir sobre os discursos mobilizados para legitimar não apenas a continuidade, mas a intensificação das intervenções externas no país. Em vez de aprofundar a escuta sobre soluções lideradas pelos próprios haitianos, renova-se a retórica da incapacidade estatal como estratégia central de legitimação da ingerência internacional, apresentando a tutela externa como resposta inevitável a uma crise historicamente produzida.
Problematizar o uso do termo “Estado falido” é, portanto, mais do que uma disputa semântica. Trata-se de uma batalha por narrativas que envolve reconhecimento político. Questionar esse enquadramento abre espaço para análises mais justas, informadas e sensíveis à complexidade do contexto haitiano. Significa também desafiar as suposições universalizantes sobre o que é um Estado funcional, quem define isso e com base em quais interesses.
Essa mudança de perspectiva exige coragem política e responsabilidade intelectual, tanto da comunidade política internacional quanto da academia. É preciso reconhecer o papel que esses atores desempenham na reprodução de desigualdades globais e na manutenção de sistemas que silenciam vozes periféricas.
Só assim será possível caminhar rumo a formas mais respeitosas e horizontais de engajamento com o Haiti, que reconheçam sua história de luta, suas formas próprias de organização e sua capacidade de protagonismo político. O futuro do país não será construído com base em estigmas e intervenções impostas, mas sim com diálogo, justiça histórica e soberania respeitada.
Tadeu Morato Maciel é professor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor colaborador da Pós-graduação em Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense. Coordenador do laboratório de pesquisa Nexus: segurança e desenvolvimento na política global contemporânea e membro da Comissão de Equidade Étnico-Racial da Associação Brasileira de Relações Internacionais.

