O que está em jogo quando asfaltamos o passado?
Reconhecer ruas de paralelepípedo como parte do patrimônio urbano significa admitir que o chão também conta histórias, e que essas histórias são dignas de resguardo institucional
Caminhar por uma cidade é também percorrer suas camadas de história. Em Bauru, trechos de paralelepípedos ainda resistem entre ruas asfaltadas, revelando não apenas sua função prática, mas também a memória urbana que carregam. Esses blocos antigos contrastam com a pressa contemporânea e ajudam a entender o processo de transformação registrado no próprio chão. Apesar de muitas vezes vistos como vestígios ultrapassados, o paralelepípedo permanece como parte viva do patrimônio urbano. Quando preservados com manutenção adequada e avaliados por estudos de impacto, oferecem valor histórico, identidade local e benefícios ambientais que o asfalto nem sempre entrega. Enquanto materiais como CBUQ (Concreto Betuminoso Usinado a Quente) e PMF (Pré-Misturado a Frio) se tornaram padrão no país, o uso das pedras naturais lembram a importância de integrar soluções tradicionais ao planejamento urbano contemporâneo.

Em Bauru, essa convivência entre o antigo e o novo é visível em ruas onde o paralelepípedo aparece mesclado com remendos de piche. A heterogeneidade do piso denuncia intervenções apressadas e soluções paliativas, frequentemente adotadas após obras subterrâneas. A aplicação de asfalto sobre o calçamento original, prática criticada por alguns, acaba por esconder o caráter histórico desses trechos, além de comprometer suas propriedades naturais de drenagem. A cidade, nesse processo, perde parte de sua identidade construída no cotidiano.
A situação não é exclusiva de Bauru; trata-se de uma dinâmica encontrada em inúmeras cidades brasileiras. A lógica de “entapetar” as ruas com asfalto, muitas vezes sem debate público, também apareceu em São Paulo, onde iniciativas recentes buscaram proteger oficialmente ruas de paralelepípedo contra coberturas indevidas em ruas do bairro de Pinheiros e na Vila Mariana. A discussão paulistana evidencia que a pavimentação é, antes de tudo, um tema urbano e cultural. Mais do que decidir entre pedra ou asfalto, trata-se de refletir sobre o tipo de cidade que se deseja construir e sobre quais camadas do passado se quer preservar.
Ao observar essas ruas, percebe-se que a escolha do pavimento não diz respeito apenas à engenharia, mas também à experiência urbana. O paralelepípedo, com sua superfície irregular, impõe um ritmo mais lento a quem passa. Motoristas reduzem a velocidade, ciclistas redobram a atenção e pedestres escutam o som característico das pedras sob os passos. É uma espécie de desaceleração involuntária que convida a olhar ao redor, como se a rua pedisse para ser percebida, não apenas atravessada. Essa relação sensorial se diferencia muito da fluidez silenciosa e alisada do asfalto.
A pavimentação em paralelepípedos apresenta desempenho hidrológico superior ao do asfalto convencional, sobretudo devido à permeabilidade relativa proporcionada pelas juntas entre as peças e pela estrutura granular de sua base. Enquanto o asfalto constitui uma superfície praticamente impermeável, convertendo quase todo o volume de chuva em escoamento superficial imediato, os blocos de pedra permitem infiltração estimada entre 10% e 30% da precipitação, a depender do grau de compactação, manutenção das juntas e características da sub-base. Essa capacidade de infiltração, somada à rugosidade natural do pavimento, reduz a velocidade do escoamento, atenua picos de vazão e diminui a sobrecarga sobre sistemas de micro drenagem urbana.
Curiosamente, enquanto algumas cidades substituem suas pedras, outras começam a reconhecê-las como herança cultural a ser preservada. Várias regiões demonstram que o paralelepípedo não é apenas um vestígio de um tempo ultrapassado, mas um elemento vivo capaz de dialogar com questões ambientais e identitárias. Em muitas cidades europeias, especialmente na Alemanha, na França e em Portugal, há políticas que valorizam o pavimento de pedra não apenas como solução técnica, mas como camada histórica preservada. Nessas localidades, o calçamento funciona como um lembrete coletivo de outras temporalidades, mostrando que a modernização não precisa significar supressão do passado, mas convivência entre camadas.
A comparação evidencia o quanto o Brasil ainda hesita entre preservar e substituir. Embora discutido na capital paulista recentemente, o projeto de lei que previa a proibição do asfaltamento de ruas compostas por paralelepípedos (em sua quase maioria, arruamentos estritamente residenciais, foi derrubado). Em São Paulo, onde ainda existem cerca de cinco mil ruas pavimentadas com esse material, a Câmara Municipal rejeitou recentemente o projeto de lei que buscava impedir o asfaltamento dessas vias. A proposta surgiu após diversos capeamentos controversos realizados pela prefeitura, mas acabou derrotada sob o argumento de que o asfalto traria mais segurança viária, maior uniformização do piso e melhor mobilidade.
Em Bauru, a observação atenta de pequenas travessas e ruas discretas revela que a resistência das pedras talvez se explique tanto por sua durabilidade quanto por permanecerem em áreas de menor tráfego. Nesses trechos, o paralelepípedo continua funcionando como moderador natural da velocidade e como indicador de cuidado necessário ao caminhar. Ao mesmo tempo, conserva seu papel simbólico: quem percorre essas vias percebe que ali existe algo que não se rendeu totalmente ao ritmo acelerado da cidade. É como se o espaço insistisse em lembrar que nem toda modernidade precisa vir acompanhada de asfaltos contínuos. É justamente nesses espaços menos perceptíveis que se encontra a força simbólica do paralelepípedo como elemento de memória urbana. Diferente do asfalto, que tende a uniformizar a paisagem e apagar irregularidades, a pedra evidencia o desgaste, as marcas do tempo e até o crescimento de plantas que brotam nos interstícios.
Entre outubro e novembro de 2025, percorrendo a pé as ruas do entorno da Praça Rui Barbosa e cruzando essas impressões com imagens de satélite, foi possível construir um retrato mais sensível do centro da cidade. Dentro de um raio de 1,5 km, percebe-se que apenas alguns trechos, como nas ruas Santo Antonio e Padre Nóbrega, no Jardim Bela Vista. Nas Ruas Batista de Carvalho, sentido bairro, a Travessa Boa Sorte no Centro, guardam o paralelepípedo como pavimento, assim como partes da Vila Falcão e o largo da antiga Estação da Cia. Paulista de Trens, ao final da Gustavo Maciel.

Na cidade bauruense, o que se observa com frequência é o uso de soluções paliativas que acabam criando pisos híbridos, parte pedra, parte piche, resultado de intervenções feitas sem a preocupação de recompor o material original. Esse tipo de reparo fragmentado compromete não apenas a funcionalidade, mas também a leitura histórica da rua. Cada camada adicionada de forma arbitrária interfere na narrativa urbana inscrita no chão, apagando pouco a pouco a coerência do conjunto. Assim, a paisagem se torna um mosaico involuntário de remendos que não dialogam entre si.
Seja pela estética, pela memória, ou mesmo pela sustentabilidade, como argumentam especialistas que destacam a drenagem natural e a redução da sensação térmica nas áreas com pedras o paralelepípedo demonstra qualidades que vão além da nostalgia. Em um momento em que enchentes e ilhas de calor se intensificam nas cidades brasileiras, repensar esses materiais pode ser essencial. Talvez o futuro urbano dependa justamente da revalorização de técnicas antigas que, revisadas e mantidas com rigor técnico, podem oferecer respostas mais equilibradas aos desafios contemporâneos.
Nesse sentido, as iniciativas de proteção adotadas em cidades maiores, apontam para uma mudança importante no debate público. Reconhecer ruas de paralelepípedo como parte do patrimônio urbano significa admitir que o chão também conta histórias, e que essas histórias são dignas de resguardo institucional. Ao observar de perto os trechos de paralelepípedos que ainda sobrevivem em Bauru, percebemos que eles cumprem um papel discreto, mas essencial: manter viva a memória coletiva no ritmo acelerado da cidade. Esses fragmentos revelam que o patrimônio urbano não se limita ao que se ergue, mas também ao que permanece sob nossos passos. Este ano, o CODEPAC, Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural, iniciou um estudo para avaliar o tombamento do pavimento na Rua Júlio Prestes evidencia esse reconhecimento.
Em muitos lugares do Brasil e do mundo, os paralelepípedos permanecem justamente porque nos fazem perguntar o que queremos conservar e por quê. Eles desafiam a ideia de que eficiência exige homogeneidade e lembram que a cidade se constrói também pela diversidade de suas camadas. Em Bauru, os trechos restantes mostram que o passado ainda oferece caminhos para repensar o futuro, basta olhar com atenção. Antes de qualquer decisão técnica, é fundamental desenvolver o hábito de observar o chão que pisamos, pois desse olhar sensível é que pode nascer um planejamento urbano mais humano, sustentável e conectado à história que insistimos em carregar.
Lucas Silva Pamio é Mestre em Teoria da Arquitetura e do Urbanismo pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Especialista em Planejamento Urbano e Políticas Públicas. Pesquisador independente, projetista e artista visual.

