‘A FERIDA É O LUGAR POR ONDE A LUZ ENTRA’

Irã e a nova gramática da intervenção internacional

Desde dezembro de 2025, as manifestações no Irã reacenderam o debate sobre a legitimidade do regime xiita e os rumos políticos do país. No entanto, mais do que um episódio de contestação doméstica, até onde podemos interpretar tal crise enquanto um laboratório da guerra híbrida no Oriente Médio?

Certa vez Jalal ad-Din Rumi, poeta e teólogo sufi do século XIII, escreveu que “a ferida é o lugar por onde a luz entra”. Embora não se conheça precisamente o contexto dessa reflexão, ela se tornou uma das mais célebres de sua obra por considerar que é na dor, na falha, onde a mudança encontra passagem. Entretanto, a “ferida” aberta pelos recentes protestos no Irã não apenas iluminam as contradições e a complexidade da sociedade iraniana, como também permitem a infiltração de interesses externos e a erosão da sua própria soberania. 

Tal ambiguidade tem estruturado o modo como a crise vem sendo narrada e instrumentalizada pelo Ocidente. Se por um lado, o retorno do Irã ao centro do noticiário internacional mobiliza um repertório já conhecido de imagens e afetos, ancorado moralmente na defesa dos direitos humanos, por outro, seu enquadramento tende a ocultar um processo mais amplo: a utilização do país como laboratório da guerra híbrida para novas formas de intervenção no Oriente Médio. 

A “ferida” da guerra híbrida 

No Irã, a guerra híbrida é a fase mais recente de uma longa genealogia de experimentações estratégicas que remonta à década de 1951, quando o governo democraticamente eleito de Mohammad Mossadegh cometeu o “pecado original” de nacionalizar o petróleo à revelia da Anglo-Persian Oil Company. A resposta foi rápida, mas inconsistente.  

Um golpe de Estado, arquitetado pela CIA em parceria com o MI6 britânico, prontamente conduziu o xá Mohammad Reza Pahlavi ao poder e financiou décadas de repressão no país. Porém, como a história possui um gosto peculiar por ironias, foi justamente a repressão causada pela polícia secreta do xá (SAVAK) que condicionou a Revolução de 1979 e, posteriormente, a República Islâmica dos aiatolás, um produto tardio da ação ocidental.  

Desde então, o objetivo dos Estados Unidos no Oriente Médio vem sendo neutralizar o Irã. Mas o insucesso de algumas empreitadas, como quando Washington financiou o Iraque de Saddam Hussein contra o país na década de 1980, forçou uma reorganização tática. Ao perceberem que Teerã havia reestruturado o poder em torno da dissuasão, incluindo ambições nucleares, a lógica da ingerência migrou do campo militar para o campo informacional e financeiro. 

Em vez de derrubar o regime militarmente, passou-se a minar suas condições de funcionamento por meio da guerra híbrida, na qual o controle da narrativa, a manipulação psicológica e a engenharia de percepções substituem progressivamente o confronto direto. Não por acaso, os EUA e seus aliados detiveram por décadas o monopólio dos fluxos internacionais de informação, moldando a opinião pública sobre conflitos e regimes políticos via CNN e BBC.  

Aliás, a disputa informacional como dimensão cotidiana das ações externas da Casa Branca tornou-se ainda mais explícita em 2011, quando, alarmada pela crescente influência de veículos considerados “anti-establishment” (Russia Today, Press TV, CCTV, etc.), Hillary Clinton advertiu que os estadunidenses estavam “perdendo a guerra da informação”. O que não somente reconhecia a importância desse ativo, como também revelava um novo deslocamento tático, já que, naquela altura, o conflito contra o Irã deixava de depender exclusivamente da mídia tradicional e passava a ser organizado por um ecossistema de operações. 

Um exemplo disso foi a chamada “Revolução Verde” de 2009, que pode ser considerada um  laboratório para o refinamento de técnicas empregadas, dois anos depois, na Primavera Árabe, durante a derrubada dos governos da Tunísia e Egito. Basta dizer que, para os EUA, essas operações são menos custosas e assumem contornos opacos entre o poder público e empresas privadas (grandes veículos de comunicação, big techs e corporações de dados e cibersegurança), diluindo mecanismos de transparência e responsabilização por parte do Estado. 

No caso do Irã, é também nesse contexto que se entende a colaboração com o Mossad, linha de frente no conflito informacional. Hoje, o complexo militar-tecnológico israeli-estadunidense é o maior beneficiário da guerra híbrida, sendo a integração das capacidades de vigilância entre a NSA e a Unidade 8200 amplamente conhecida, tanto no ataque ao programa nuclear iraniano, com o uso do vírus Stuxnet, como na disseminação de tecnologias de espionagem, com o spyware Pegasus. 

Já outro componente fundamental são as sanções externas, considerando que a atual crise no país nasce da questão econômica. Embora a Carta das Nações Unidas (ONU) preveja a adoção de sanções apenas sob a salvaguarda do Conselho de Segurança (CSNU), sabe-se que os EUA, ancorados na centralidade do dólar para o ordenamento financeiro, convertem unilateralmente a prerrogativa em uma verdadeira “arma de destruição em massa”. Afinal, ainda que alguns governos consigam resistir ao desgaste, a precarização social tende a se tornar insustentável no longo prazo. 

Como resultado, campanhas de desinformação, infiltrações hackers e o estrangulamento econômico buscam fragmentar coalizões internas e disputar a legitimidade nacional. E aqui certamente importa destacar que as violações cometidas pelo regime se tornam também instrumentos de pressão, uma vez que os direitos humanos são utilizados pelo lobby ocidental para causar coerção perante à opinião pública. No entanto, o problema já não se resume à quantidade de manifestantes nas ruas de Teerã ou Mashhad, nem se tais protestos são ou não reprimidos, mas como são produzidas as narrativas sobre “o futuro do Irã”, além de suas fronteiras. 

Crédito: Ali Reza Safari/PxHere

A gramática da intervenção e o inédito caso iraniano 

Sabemos que a mobilização em massa, a falta de lideranças bem definidas e a violência generalizada constituem um “padrão” já consolidado em contextos de queda de regime, como observado nos casos da Geórgia (2003), Ucrânia (2004) e Quirguistão (2005). Também sabemos que esses processos costumam combinar crises econômicas e o colapso da legitimidade doméstica à atuação ambígua de forças armadas ou de elites ressentidas, como no Sri Lanka (2022) e Bangladesh (2024). Porém, ainda que a situação iraniana compartilhe elementos dessa gramática, ela se distingue das chamadas “Revoluções Coloridas” em alguns aspectos. 

O primeiro elemento está no campo da infraestrutura digital, uma vez que o bloqueio da internet pelo governo, durante os protestos, vem sendo “contornado” por tecnologias externas, como VPNs, redes descentralizadas de comunicação e sistemas de satélites vinculados ao Ocidente, a exemplo da Starlink. Outro vetor está no papel desempenhado pela diáspora iraniana como força transnacional, organizando protestos em diversas partes do mundo de forma coordenada. Mas as diferenças não param por aí.  

Nas “Revoluções Coloridas”, ou mesmo em estratégias típicas de regime change, o objetivo consiste em substituir os dirigentes políticos, preservando o funcionamento do Estado e sinalizando, em geral, um alinhamento euro-atlântico. Em outras palavras, rearranjos de poder dentro das estruturas do Estado, e não contra o Estado. Porém, no Irã, esse horizonte é bastante particular já que as Forças Armadas e os aparatos coercitivos, como a Guarda Revolucionária (Pásdárán) e a Polícia dos Costumes (Gasht-e Ershad), constituem o núcleo orgânico estatal. 

E isso reduz significativamente a probabilidade de “fraturas”, tanto no âmbito das elites e do exército, como na coesão da repressão às manifestações, uma vez que a amálgama entre a legitimidade teocrática, os interesses econômicos e a narrativa histórica de resistência acentuam a defecção em massa. Precisamos lembrar que, além de ser estruturada por um regime autoritário, a República Islâmica é também um projeto ideológico que confunde fé e luta anti-imperial. Derrubá-la, dessa forma, significaria promover uma ruptura de caráter civilizacional; o que, sabemos, é profundamente distinto da mera substituição de dirigentes à moda CIA. 

Além do mais, diferente de outros casos, existe no Irã uma alta capacidade de governar sob pressões extremas, fazendo com que o governo não só tenha aprendido a reorganizar suas prioridades em um cenário de cerco permanente, como também a buscar aliados estratégicos. A Rússia, por exemplo, vê no país um parceiro central na contenção da OTAN e, desde o início da guerra na Ucrânia, aprofundou a cooperação militar, energética e nuclear com Teerã. A China, por sua vez, adota uma leitura eminentemente pragmática, já que, além de fornecedor de petróleo, o Irã ocupa uma posição geográfica-chave no mapa de escoamento da Iniciativa Belt and Road (BRI). Já a Índia busca consolidar sua conectividade por intermédio do Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC) e do porto de Chabahar, plataforma logística entre a Ásia Central, o Cáucaso e o Oriente Médio. 

Aliás, não é por acaso que o Irã integra, desde 2023, a Organização para Cooperação de Xangai (OCX) e, desde 2024, o BRICS+, compostos majoritariamente por esses Estados com os quais já mantém relações econômicas e de segurança. Portanto, sua adesão aos blocos sinaliza uma aposta no multilateralismo eurasiático como via para ampliar investimentos ao tempo em que também visa reduzir restrições comerciais, acessando alternativas à arquitetura financeira tradicional. Ou seja, parcerias que buscam mitigar os efeitos das sanções econômicas, após o esvaziamento do Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA), em 2018. 

Naturalmente, por deter o controle do Estreito de Ormuz e por participar ativamente do contexto geopolítico contemporâneo, longe de qualquer condição periférica, o Irã ainda tenciona dinâmicas no Iraque, Síria, Líbano e Iêmen. Uma transição de poder mal concebida no país abriria frentes de incerteza para além do local, afetando o preço do petróleo, desestruturando corredores energéticos e, principalmente, enfraquecendo a estratégia de inúmeros atores. Eis sua maior diferença em relação a outros episódios de regime change, razão pela qual aliados dos EUA no Golfo vêm investido em esforços diplomáticos para evitar uma escalada militar aberta, embora a Casa Branca tenha plena consciência desses riscos.  

A “luz” ilumina alternativas à guerra? 

Compreender a guerra híbrida é fundamental para explicar por que a retórica de Donald Trump oscila tanto entre ameaças e supostas ofertas de paz. Afinal, esse tipo de estratégia somente funciona no engano e, dessa forma, sinais de desescalada não devem ser interpretados como o fim do conflito. Na realidade, tal como ocorreu nos ataques aéreos de junho de 2025, o atual cenário de “trégua” rapidamente pode ser sucedido por mais instabilidade, já que a cartilha do direito internacional não parece pautar a ordem do dia, quando tratamos de ações do governo estadunidense. 

Ainda assim, ao contrário das grandes intervenções do início do século XXI, não existe hoje apetite político no Ocidente para uma ação direta contra Teerã. Os custos seriam altíssimos, sobretudo pela incapacidade de Washington em proteger simultaneamente suas bases e aliados regionais. Aliás, o aumento no preço do combustível, com um possível bloqueio de Ormuz, e o histórico deixado pelas guerras no Iraque e Afeganistão ainda pesam sobre o imaginário do cidadão comum, de forma que a situação doméstica nos EUA, envolvendo a opinião pública, preocupa quanto ao resultado das próximas midterms 

Soma-se a isso o fato de que, nos últimos anos, os eixos de poder no Oriente Médio passaram a se articular de forma mais autônoma, como na aproximação entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, em contraposição a aliança Emirados-Índia-Israel, o que nos faz questionar até que ponto a resolução dos problemas iranianos não residiria, cada vez mais, dentro da própria região?  

Certamente isso não significa a ausência de intervenção, apenas que a sua “fórmula” mudou. E hoje envolve menos o uso de rupturas convencionais, e mais a exposição contínua do “país-alvo” à vulnerabilidade, impedindo-o de exercer soberania. Logo, o objetivo de Washington e Tel Aviv não busca uma guerra total, tampouco um acordo com o presidente Masoud Pezeshkian, eleito em 2024 sob uma plataforma conciliatória que poderia normalizar a posição do regime no sistema internacional. Antes disso, o interesse consiste em manter o Irã economicamente fragilizado num processo prolongado de erosão, sem horizontes claros para uma transição política. 

Pela primeira vez, a guerra híbrida se afasta do modelo clássico das “Revoluções Coloridas”, seja pela sensibilidade do tabuleiro regional e pela falta de uma liderança alternativa viável, seja ainda pela inexistência de um “dia seguinte” pactuado para o Irã. A questão agora, voltando à reflexão de Rumi, envolve saber a “quem” (ou a “quê”) a “luz” da “ferida” realmente ilumina. 

 

Guilherme Geremias da Conceição é doutorando em Relações Internacionais pelo Instituto San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP). Pesquisador do Observatório de Regionalismo (ODR). Membro do Centro de Investigação em Rússia, Eurásia e Espaço Pós-Soviético (CIRE), vinculado ao Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES). Colaborador externo do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais (NERINT), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

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