Qual a cor do teu feminismo?
Quantas vezes defendemos sororidade, mas nos calamos quando a denúncia envolve raça?
A gente aprendeu a repetir a palavra sororidade como se ela fosse neutra, como se tivesse a mesma cor para todas nós. Mas neutralidade quase sempre é apenas o nome elegante do privilégio, e um sobrenome diferente para omissão.
Há um brado que ecoa pela união feminina, ignorando, entretanto, que a experiência de ser mulher não é homogênea. Como nos lembra Angela Davis, o gênero nunca atua sozinho. Raça e classe não são detalhes, são estruturas, e o principal, numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista.
Mas sejamos honestas, é confortável defender sororidade quando ela não exige renúncia, quando não pede que enfrentemos nossos próprios privilégios, quando não nos obriga a escolher entre proteger uma mulher branca próxima (ou um homem branco, acontece com frequência) e reconhecer o racismo que atravessa uma mulher negra.
São nesses momentos de contenda, onde não é possível invocar o mito da neutralidade, que o discurso bonito costuma evaporar, as máscaras começam a cair, que o desconforto se instala.
É na ruptura que a mulher negra é chamada de “mimizenta”, radical. Seja por denunciar o racismo do dia a dia, expor seus desconfortos, seja por trazer à tona a incoerência do discurso de união.
Nesse cenário o que é deslegitimado não é apenas a fala dela, é a própria possibilidade de nomear a violência que ela sofre. E o silêncio ao redor quase sempre é mais eloquente que a ofensa. Ele dita quem pode errar, quem deve ser defendido e quem será deixado sozinho.
Surge o desequilíbrio, a raiva de ser silenciada, exatamente por quem brada união. Porque ser equilibrada é fácil quando há uma mulher negra que será lida como raivosa por perto.
Isso sempre me chamou a atenção: o quanto é fácil ser ponderada, leve, quando outra mulher é enquadrada como radical. É conveniente manter a postura moderada quando o custo da indignação nunca recai sobre você.
Conveniência….
De um modo geral, a moderação branca costuma ser celebrada, enquanto a indignação negra costuma ser patologizada.
No livro Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus, mulher negra e periférica, expõe a lógica de uma sociedade que organiza seus espaços entre a sala, onde tudo é apresentável, e o quarto de despejo, onde se esconde o que incomoda. O problema é que o feminismo, em alguma medida, também reproduz essa arquitetura.
Enquanto falamos de união, alguém continua no quarto de despejo, quase sempre uma mulher, quase sempre uma mulher negra; frequentemente uma mulher, negra, retinta.

Historicamente a negra é celebrada enquanto símbolo, mas isolada quando confronta; é acolhida enquanto fortalece a narrativa coletiva, mas descartada quando denuncia o racismo, a falta de acolhimento, a falta de empatia, dentro da própria roda.
Quando a denúncia aparece, surge a preocupação com o tom, com a forma, com a divisão, não com a denúncia em si. Não é a ausência de sororidade que gera incômodo, é a seletividade.
Quando Vilma Piedade fala em Dororidade, ela não propõe separação, propõe honestidade. A dor da mulher negra não é apenas a dor do machismo, é a dor do machismo atravessado pelo racismo, inclusive praticado por mulheres que se dizem aliadas.
Dororidade é reconhecer que existe uma experiência comum de exclusão que não se resolve com discursos genéricos de união. E talvez o que mais incomode não seja o conceito, seja o fato de que ele expõe o limite da nossa coerência, ou seria da nossa incoerência?
Quantas vezes defendemos sororidade, mas nos calamos quando a denúncia envolve raça? Quantas vezes pedimos menos agressividade quando o que está sendo dito é apenas incômodo? Quantas vezes confundimos harmonia com silêncio? A sororidade que não atravessa o racismo vira teatro de fantoches, e performances teatrais não sustentam compromisso.
Talvez, só talvez, o desafio não seja repetir que somos unidas, talvez seja perguntar se estamos dispostas a perder conforto para sustentar essa união.
Se a sua sororidade só funciona quando não ameaça seu privilégio, ela nunca foi aliança. Foi conveniência.
De novo, essa palavra: conveniência.
E, no fim, a pergunta permanece: qual a cor do teu feminismo?
Fernanda Augusta de Vasconcelos Roa é guarda civil municipal em Belo Horizonte, bacharela em Direito e pós-graduada em Direito Público.

