Entre o clarão dos mísseis e o apagão do Sistema Internacional: a escalada militar no Oriente Médio
A algoritmização da morte e a política de guerras preventivas transformam crises regionais em riscos globais
“As luzes estão se apagando em toda a Europa… não voltaremos a vê-las acender em nosso tempo de vida.” A frase atribuída a Edward Grey, pronunciada na noite de 3 de agosto de 1914, cristalizou a percepção de que uma ordem internacional, julgada racional e progressiva por seus principais atores, ingressava em seu momento crepuscular. A Primeira Guerra Mundial não resultou de um impulso coletivo de autodestruição, mas da sedimentação de interesses justificados como defensivos, necessários e preventivos, revelando-se como a engrenagem de uma guerra sistêmica, cujo automatismo escapou ao controle de seus próprios arquitetos.
O ataque conduzido contra o Irã pelos Estados Unidos e Israel reproduz, no tempo presente, essa lógica de encadeamentos cumulativos. A política externa de ambos os Estados, historicamente estruturada a partir da premissa da superioridade militar e da antecipação estratégica, consolidou-se como doutrina de ação permanente. Atacar antes que a ameaça se consolide converteu-se em princípio ordenador da segurança nacional. Ao naturalizar o recurso recorrente à força, entretanto, essa orientação contribui para a erosão progressiva dos limites normativos que regulam o Sistema Internacional.
A questão é que a lógica da guerra preventiva raramente se esgota em sua eficácia imediata. Cada operação concebida como cirúrgica e delimitada tende a produzir efeitos de longa duração, alimentando ressentimentos, legitimando respostas assimétricas e ampliando o campo da confrontação. A supremacia tecnológica, apresentada como garantia de dissuasão, pode converter-se em vetor de insegurança regional e em catalisador de dinâmicas que buscava conter
A recente Guerra dos 12 dias demonstrou que o Irã não é apenas um ator reativo. Teerã exibiu capacidade de coordenação militar, emprego de mísseis de longo alcance e articulação regional que surpreenderam observadores acostumados à narrativa de sua fragilidade. Ao resistir e responder, o Irã buscou afirmar-se como potência regional capaz de impor custos significativos a seus adversários e de perfurar sofisticados sistemas de defesa.
Essa demonstração de força altera o cálculo estratégico: a assimetria permanece, mas já não garante controle absoluto da escalada. Quando ambos os lados reivindicam ter reafirmado suas capacidades, a margem para concessões se estreita e o espaço da diplomacia se comprime.

O paradigma da guerra permanente, seja contra o “terror”, contra a “ameaça nuclear” ou contra a “desestabilização regional”, produz um estado de tensão contínua. Reconfigura a política externa como gestão constante da força e impõe a algoritmização da morte e seus sofisticados softwares de produção de alvos em larga escala como ferramenta operacional, reduzindo a diplomacia a instrumento secundário. Como exigir negociação se, entre uma rodada e outra de conversas, intensificam-se os bombardeios contra o adversário? Nesse ambiente, cada crise torna-se potencial ponto de inflexão.
A política externa dos EUA e de Israel naturaliza a guerra como horizonte permanente e pode levar o mundo a um novo apagão. A escuridão já não chega abruptamente; avança em gradações perceptíveis em direção às suas vítimas. Primeiro obscurece-se a humanidade do inimigo; depois enfraquecem-se suas próprias convenções morais; por fim dissolvem-se todos os limites. A violência materializa-se como instrumento institucional.
O bombardeio à escola em Minab, na província de Hormozgan, que resultou na morte de dezenas de meninas, não constitui já a ultrapassagem desse limiar? Frequentemente mergulhada no escuro literal das interrupções elétricas, não se converte essa metáfora em experiência cotidiana na esquecida Faixa de Gaza? É nesse breu, onde cada clarão de míssil ilumina apenas por um instante o abismo ao redor, que as guerras escapam ao controle de seus próprios artífices.
Quando a política abdica da diplomacia e delega à tecnologia o cálculo da morte, não enfrentamos apenas uma escalada militar, mas uma inflexão civilizatória: a transformação da guerra em linguagem ordinária do sistema internacional. Nesse momento, a noite deixa de ser metáfora e passa a descrever o próprio funcionamento do sistema. As luzes podem estar se apagando.
Juan Magalhães é professor de História Contemporânea na Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutor e mestre em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desenvolve pesquisas nas áreas de História, Relações Internacionais e Teoria Política.
Referências Bibliográficas
HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos: o breve século XX (1914–1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
KERSHAW, Ian. De volta do inferno: Europa, 1914–1949. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
MAGALHÃES, Juan Filipe Loureiro. A algoritmização da morte: a militarização da inteligência artificial e a colonialidade algorítmica. Revista Estudos Libertários, Rio de Janeiro, 2025. DOI: https://doi.org/10.59488/1246. Acesso em: 01 mar. 2026.
MAGALHÃES, Juan Filipe Loureiro; DE MORAES, Wallace dos Santos. A política externa de Israel e o paradigma da guerra permanente. Le Monde Diplomatique Brasil, 2025. Disponível em:
https://diplomatique.org.br/a-politica-externa-de-israel-e-o-paradigma-da-guerra-permanente/ Acesso em: 01 mar. 2026.

