Educar para o planeta: pesquisadora Carla Conti propõe revolução transdisciplinar na formação docente focada na sustentabilidade
Em nova edição de “Sustentabilidade no ensino superior”, pesquisadora defende que a universidade forme professores com consciência local e planetária diante das crises contemporâneas
A pesquisadora e professora Carla Conti relança, pela Editora Scotti, a terceira edição de “Sustentabilidade no ensino superior: uma prática transdisciplinar na formação de professores”, obra que reafirma a educação como ferramenta central de transformação social. Publicado originalmente há 15 anos, o livro retorna ao debate público em um cenário marcado por crises climáticas, desigualdades e múltiplas formas de violência, propondo a sustentabilidade como eixo estruturante na formação de educadores críticos, éticos e comprometidos com o futuro.
Na obra, Conti apresenta uma experiência pedagógica desenvolvida no curso de Letras, em que a sustentabilidade da vida orientou trabalhos de conclusão de curso, estágios e projetos interdisciplinares. A partir de relatos concretos, planos de aula e propostas transdisciplinares, a autora demonstra como futuros professores de língua portuguesa, literatura e inglês podem integrar cidadania, cultura de paz, valores humanos e preservação ambiental em suas práticas. O livro dialoga com documentos internacionais como a Carta da Terra e a Carta da Ecopedagogia, reforçando a necessidade de formar cidadãos com consciência local e planetária. A edição conta ainda com apresentação da professora Anabela Simões, da Universidade de Aveiro (Portugal), e prefácio de Andrea Kochhann, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), que destacam a potência transformadora da proposta.
Doutora em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-doutora em Gestão da Informação pela Universidade do Porto, Carla Conti atua na graduação e no mestrado em Educação da Universidade Estadual de Goiás. Natural de Passos (MG) e radicada em Inhumas (GO), dedica-se a pesquisas nas áreas de educação em direitos humanos, gênero e tecnologias digitais. Em sua trajetória acadêmica e literária, une desenvolvimento pessoal e crítica social, consolidando-se como uma voz que articula teoria e prática na defesa de uma educação comprometida com a vida. Na entrevista abaixo a autora fala como integrar educação, sustentabilidade e cultura de paz no ensino.
O livro Sustentabilidade no ensino superior chega à terceira edição depois de 15 anos. O que mudou — e o que continua urgente — em como formamos professores?
É impressionante como ele traz uma discussão atual e necessária mesmo depois de quinze anos. Em relação ao tema, tratar da sustentabilidade da vida, como o livro propõe, é urgente. Digo isso porque vivemos, nesse período, momentos que nos colocaram frente a uma destruição real das condições de vida no planeta, cito dois: a pandemia de covid-19 e o avanço da extrema direita. Neste sentido, o tema segue atual e no livro, retomo tanto discussões quanto a descrição de práticas pedagógicas nas escolas que permitem que as necessidades e urgências sejam inseridas no contexto e nas relações escolares por meio de professores conscientes e críticos em relação à realidade local e global.
Em relação à formação de professores, destaco os esforços refletidos nas políticas educacionais que sinalizam uma preocupação com processos educativos que priorizem as condições e as necessidades locais, as diferenças sociais e culturais e a atuação responsável dos agentes da comunidade escolar mesmo em tempos de constantes questionamentos e supressão de direitos e avanços da educação. Atualmente, as políticas educacionais para formação docente, embora pressionadas pelo contexto neoliberal, tem buscado espaço para que haja a garantia de melhores condições de vida.
Você propõe a sustentabilidade como um eixo central na formação docente. O que significa, na prática, educar para a sustentabilidade da vida?
Educar para a sustentabilidade da vida é considerar na formação de professores as características e realidade de onde atuam os docentes. Explico: a padronização das práticas pedagógicas geram um distanciamento entre a escola e a comunidade. É como se aumentássemos cada vez mais a altura do muro que separa as horas e a vida de dentro e de fora do ambiente escolar. O distanciamento dessas realidades faz com que o conhecimento escolar seja visto como algo fora da vida, sem necessidade no dia a dia enquanto o conhecimento escolar deveria pressupor o conhecimento da comunidade e vice-versa.
Um exemplo bonito do que estou explicando aconteceu durante a COP 30, em que alunos de diferentes regiões do país puderam apresentar a relação deles e dos conhecimentos escolares com os biomas presentes na região. Ao ouvir os estudantes, percebemos que o rompimento da distância entre o que se ensina, aprende e vive promove um envolvimento em termos de motivação, conscientização e ação que são essenciais para o processo de aprender e agir na comunidade. Uma experiência que vai além da questão ambiental pois traz à tona questões sociais, econômicas e culturais.
Neste vídeo, é possível ver um pouco do projeto. Link: https://www.youtube.com/watch?v=b5Gqz06tQbY
Por que a transdisciplinaridade é essencial quando falamos de educação e meio ambiente?
O conceito de transdisciplinaridade inclui valores humanos e direitos em sua definição. Uma perspectiva transdisciplinar sugere que avancemos nas discussões e práticas que valorizem e priorizem as diferenças nas relações humanas, o cuidado com o coletivo. O meio ambiente é entendido como natureza, aquilo que nos envolve e com o que e com quem nos relacionamos.
No livro, você afirma que pensar de forma transdisciplinar é um exercício de abertura ao desconhecido. Quais são os maiores desafios para que isso aconteça dentro das universidades?
Na formação de professores e na formação de profissionais de todas as áreas, o maior desafio nas universidades é criar condições materiais, intelectuais, físicas e psíquicas para o pensar além do que está posto. Não existe uma única realidade, uma única saída, um projeto que seja único. Por isso, sugiro considerar como as diferentes comunidades constroem e compartilham o conhecimento, pois o homogêneo nos conduz a uma saída óbvia e repete modelos que precisam ser superados como patriarcado, a misoginia, a pobreza, por exemplo. Uma postura que considera as diferenças sejam elas no plano social, econômico, cultural ou político, permite almejar que as novas gerações sejam mais críticas, o que poderá impactar nas percepções sobre como as decisões são tomadas e o impacto delas na vida de cada um de nós.

Como a educação pode contribuir para a construção de uma cultura de paz e de respeito às diferenças?
Uma cultura de paz se constrói com respeito às diferenças. Isso não é simples porque para respeitar as diferenças é preciso conhecê-las e reconhecer as diferenças advindas das desigualdades que marcam o país. A educação, pautada nos diferentes contextos e situações pelas quais se desenvolvem as comunidades, cria uma conexão entre as pessoas e isso permite que uma relação de confiança, de respeito e de reconhecimento e valorização das diferenças culturais, sociais, ambientais, anulando a violência, refazendo discursos, criando espaços solidários e afetivos.
Você defende uma formação docente que vá além da técnica. Que tipo de professor o nosso tempo mais precisa?
Penso em uma formação de professores que envolva o desenvolvimento teórico, técnico e pessoal, não como unidades separadas de uma formação, ou etapas a serem desenvolvidas na formação inicial e na formação contínua. Esses elementos se desenvolvem concomitantemente por meio das experiências dos professores com a vida cotidiana e na comunidade que atua. Reforço isso porque o conhecimento disponível precisa ser lapidado para que seja consumido. Isto é, não basta ao professor do nosso tempo abastecer-se de conhecimento mas não desenvolver as técnicas que ajudam a vinculá-lo aos alunos. Há técnicas que não combinam com o modo de vida na atualidade e ainda são empregadas indiscriminadamente. Há outras que favorecem o vínculo porque por meio delas, acessamos os alunos, despertamos a curiosidade, a empatia e outros valores importantes na rotina escolar. Além disso, considero o desenvolvimento pessoal como uma chave para a formação de um professor para os tempos atuais e isso se dá por meio de políticas educacionais que valorizem a formação docente e as suas praxiologias que são criadas a partir da relação com o lugar, com a comunidade e aquilo que a define.
Como as novas tecnologias e o ensino digital podem dialogar com essa proposta de consciência planetária?
A consciência planetária é pautada por nossas vivências. Em nível local, pela compreensão de que as nossas decisões afetam a vida daqueles com os quais convivemos. No nível global, pela compreensão de que estamos todos sujeitos às consequências das escolhas políticas e econômicas que definem a trajetória social, cultural e educacional do mundo. Por isso, o que acontece no mundo deve ser pauta nos contextos educacionais. Com a tecnologia digital, não é diferente. Antes de ser recurso para o ensino na atualidade, as tecnologias digitais definem a cultura, ou seja, o modo de vida das pessoas nesse tempo presente. Nesse sentido, a cultura digital tem nos ensinado sobre as formas de relacionamento na sociedade que definem a comunicação, exploram as mídias e impactam a educação. Sem dúvida, as tecnologias digitais ampliam as experiências, o modo de agir na comunidade e de educar e, ao mesmo tempo, exigem cada vez mais que o pensamento crítico seja incentivado e desenvolvido para que os recursos tecnológicos não sejam mais relevantes do que a vida das pessoas.
Em tempos de tantas crises (climática, social, política), qual é o papel do professor como agente de transformação?
Ensinar. O professor, agente de transformação, ensina a pensar sobre as diferenças existentes na sociedade, entre os povos, entre as culturas e, em consequência, entre os conhecimentos. Ensina o que é ler o mundo a partir das experiências e vivências com os alunos; ensina como conhecer e reconhecer o outro na convivência amorosa; ensina por que a história de cada um importa no mundo por meio do respeito e da reciprocidade.
Há um aspecto afetivo e ético muito forte no seu trabalho. Como o cuidado e a empatia entram nesse processo educativo?
Acredito que o processo educativo envolve saberes distintos para necessidades diversas, expressas nas políticas educacionais vigentes. Mas, na minha atuação como professora e orientadora de futuros professores, como palestrante e como escritora, deixo aparecer e se manifestar a pessoa que sou, que foi inspirada por pessoas que passaram pela minha formação, deixando também o que elas eram. Nesta perspectiva, o cuidado e a empatia em qualquer nível de ensino são condição para que uma relação de confiança e admiração se estabeleça e, a partir daí, a aprendizagem e o envolvimento com os conhecimentos possam se materializar na vida das pessoas.
Você pesquisa também gênero e educação em direitos humanos. Como esses temas se cruzam com a sustentabilidade no contexto da educação?
A sustentabilidade da vida inclui a compreensão e propagação de situações que visam o equilíbrio nas relações. No livro, a violência de gênero aparece como tema para discussão sugerido por jovens, de Ensino Médio, e foi proporcionada e desenvolvida a partir de um poema, possibilitando conhecimento de mundo, envolvimento com arte e literatura, sem desconsiderar os conteúdos referentes à linguagem. Esse movimento entre tema, contexto real e arte gera uma reflexão sobre a própria vida e a da comunidade onde os alunos vivem. Além disso, busca tecer uma rede entre eles e o mundo, reconhecer os valores e interesses e sustentar ações que fortaleçam suas identidades. Criar um ambiente sustentável é cuidar de cada um desses fios que compõem essa trama.
O meu interesse pelo tema da sustentabilidade me levou a escolhas por temas como misoginia e a importância de discutir esse tema em tempos de crescimento das relações em ambientes digitais digital e como os desdobramentos dos temas relacionados à sustentabilidade, seja no campo ambiental, social, econômico, cultural e outros podem ser motivados por uma educação em direitos humanos na qual escola e comunidade é chamada a repensar as necessidades de preservação e manutenção de uma vida digna e de relações saudáveis.
Veriana Ribeiro é jornalista e escritora acreana com mais de 15 anos de experiência na área da comunicação, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou o livro Coletânea dos Amores Partidos (autopublicação, 2021) e participou da coletânea Antes que eu me esqueça \ 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021), além de escrever projetos literários independentes como zines e newsletters.


Há uma insistência na formação dos professores com um eixo que não têm a mesma importância dos conteúdos clássicos e conteúdo para o trabalho…