Os limites da ofensiva Israelense e Estadunidense contra o Irã
A recente escalada militar protagonizada por Estados Unidos e Israel contra o Irã recoloca o Oriente Médio no centro de uma crise internacional de grandes proporções, marcada não apenas pela intensificação do uso da força, mas por uma perigosa simplificação estratégica
A recente escalada de hostilidades por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã culminou em ataques aéreos que visaram lideranças políticas e militares do país, em um evento de grave impacto nas relações internacionais do oriente médio e do mundo. Este trágico evento máscara uma profunda e perigosa arrogância estratégica: a premissa de que um ataque de “decapitação”, eliminando o Líder Supremo Aiatolá Ali Khamenei, levará ao colapso do regime iraniano e, por fim, uma mudança de regime.
Essa é uma aposta arriscada, e arrogante, que aqui se argumenta ser um erro de cálculo fundamental que ignora as lições da história, a complexa realidade geopolítica e a própria natureza do estado iraniano. Disso, a proposta é clara: a morte de Khamenei não levará à uma mudança de regime no curto prazo (premissa fundamental do interesse de Trump e de parte de sua cúpula praticamente cleptocrática[1], que tem o orientado nesse projeto), e uma invasão em larga escala ao Irã, necessária diante da resiliência do regime, não só seria improvável de ser sustentada, como estaria fadada a um fracasso catastrófico, aprisionando os invasores em um “atoleiro” de consequências não intencionais.
A resiliência institucional Iraniana
A crença de que a República Islâmica é uma estrutura frágil, dependente da figura singular de seu Aiatolá, é uma perigosa simplificação. O sistema político iraniano, forjado na revolução de 1979 e temperado por décadas de isolamento, intervenções e conflitos, desenvolveu uma notável capacidade de adaptação institucional. O Irã não possui um regime simplesmente personalista, mas um sistema revolucionário com uma densa rede de instituições projetadas para sobreviver, e até mesmo prosperar, em meio a crises de liderança[2]. A Constituição iraniana prevê explicitamente a sucessão, com um conselho interino assumindo o poder imediatamente em caso de morte ou incapacidade do líder, garantindo a continuidade do estado[3]:
A mudança de liderança no Irã pode seguir três trajetórias principais: continuidade do regime, tomada de poder pelos militares ou colapso do regime. Essas trajetórias não são mutuamente exclusivas; na verdade, é perfeitamente possível que a transição de liderança no Irã comece como um processo controlado, com o intuito de preservar a continuidade, apenas para tropeçar ou ser impulsionada para uma tomada de poder pelos militares ou para o colapso do Estado[4].
O aparato de segurança do Irã foi projetado com redundâncias deliberadas para garantir a sobrevivência do regime contra ameaças internas e externas: a estrutura militar dupla do Exército regular (Artesh) e do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), somada à vasta milícia paramilitar Basij, compõe um sistema que não depende de uma única cadeia de comando para funcionar[5]. A ideia de que ataques aéreos, por si só, podem induzir a uma mudança de regime é, como descreveu o Tenente-General aposentado Mark Hertling, uma “fantasia política” que ignora a capacidade do estado iraniano de se consolidar diante de uma agressão externa[6] – algo para o que o país se prepara há décadas.
É verdade que ataques coordenados como os observados no dia 28 de fevereiro de 2026 exigem anos de planejamento, e que a morte de Khamenei representa, para Trump, Netanyahu e Mohammed Bin Salman, uma conquista inegável: a demonstração de que os Estados Unidos e seus aliados ainda podem, pelo uso da força, determinar o curso da política internacional e de países do oriente médio. Contudo, a história recente está repleta de exemplos – do Iraque à Líbia – em que a remoção de um líder autoritário sem um plano de transição viável, mesmo sem o emprego de tropas terrestres, não conduziu à democracia, muito menos a um regime estável que deixasse de representar um problema para o próprio país que promoveu a mudança, mas sim ao caos, à guerra civil e ao fortalecimento de grupos extremistas – gerando mais custos, mais gastos e mais violência do que o cenário que se pretendia resolver.

Ademais, é necessário relembrar como o território iraniano é um terreno extremamente complexo para operações terrestres convencionais – um cenário radicalmente distinto das planícies do Iraque, onde as divisões blindadas americanas puderam avançar com relativa rapidez em 2003 (praticamente três semanas até a capitulação). Uma eventual escalada terrestre, até aqui vista como inevitável se a ideia for a mudança de regime) prenderia centenas de milhares de soldados – a priori norte americanos – em um território hostil de 1,6 milhão de km², com linhas de abastecimento vulneráveis e uma população numerosa o suficiente para sustentar uma insurgência prolongada.
A partir daí, quanto mais recursos Washington comprometer sem alcançar a mudança de regime, mais difícil se torna a retirada – como justificar uma retirada dos EUA neste cenário, após milhões de dólares gastos em uma campanha desta magnitude, caso ocorra?
Não é descabido considerar que a liderança iraniana compreende essa dinâmica e, ao resistir aos bombardeios sem capitular, esteja deliberadamente atraindo os Estados Unidos para um envolvimento cada vez mais profundo, apostando no desgaste político e material de um adversário que, internamente, não possui estruturas para uma guerra prolongada. A base eleitoral do Make America Great Again (MAGA), que levou Trump ao poder sob a promessa de encerrar aventuras militares no exterior, não deseja ver seus filhos morrendo em montanhas persas: o próprio Trump construiu sua retórica sobre a crítica às guerras intermináveis do Oriente Médio[7]. Quem de fato se beneficia da desestabilização do Irã não é Washington, mas Tel Aviv: para Israel, o caos prolongado de um vizinho hostil abre uma janela de oportunidade estratégica, independentemente de quem governe Teerã ao final. O risco, portanto, é que os Estados Unidos se vejam arrastados para um conflito que não serve aos seus interesses, mas aos de um aliado cuja agenda regional nem sempre coincide com a americana.
A Insustentabilidade das ações norte-americanas e israelenses no curto e longo prazo
Conforme argumentou-se até agora, a capacidade de projetar força militar é diretamente proporcional à robustez de suas linhas de abastecimento. Uma invasão e ocupação do Irã esticaria a logística militar dos EUA e de Israel a um ponto de esgotamento, se não de ruptura. O general Eric Shinseki, então chefe do Estado-Maior do Exército dos EUA, alertou antes da invasão do Iraque que seriam necessários “várias centenas de milhares de soldados” para garantir a segurança no pós-guerra, um conselho que foi notoriamente ignorado[8]. O Irã, um país quase quatro vezes maior que o Iraque e com uma topografia muito mais desafiadora, exigiria um emprego de tropas e recursos que os Estados Unidos, já sobrecarregados por seus compromissos globais, simplesmente não podem sustentar.
Mas o problema logístico não é apenas uma projeção futura – ele já se manifesta no presente, criando um dilema estratégico de múltiplas frentes. A campanha de bombardeios em curso contra o Irã consome estoques de mísseis de cruzeiro, munições guiadas de precisão e, crucialmente, interceptores de defesa antimíssil a uma taxa que a base industrial de defesa norte-americana não consegue repor com rapidez[9]. Essa tensão é agravada pelo fato de os EUA serem, simultaneamente, o principal fiador da defesa da Ucrânia contra a agressão russa, um conflito que também demanda um fluxo contínuo e massivo de munições.
A competição por recursos é direta: sistemas de defesa aérea como o Patriot e o THAAD, essenciais para proteger as forças dos EUA e de Israel no Oriente Médio, são os mesmos desesperadamente necessários para defender as cidades ucranianas. Analistas do Center for Strategic and International Studies (CSIS) já haviam alertado que os estoques de munições críticas dos Estados Unidos poderiam se esgotar em menos de uma semana em um conflito de alta intensidade. A situação é tão crítica que, em operações contra o Irã em 2025, os EUA chegaram a gastar um quarto de todo o seu inventário de mísseis THAAD em poucos dias[10], mais crítico ainda no cenário atual. Portanto, mesmo sem uma invasão terrestre, a mera sustentação da campanha aérea em curso corrói a prontidão militar dos Estados Unidos em outras frentes – do Pacífico à Europa –, forçando uma escolha impossível entre apoiar a Ucrânia, defender aliados no Oriente Médio e manter uma dissuasão crível contra adversários como a China e a Rússia[11].
Perspectivas gerais
A decisão de atacar o Irã, baseada em uma arrogante subestimação do adversário e em uma perigosa ignorância da história, coloca os Estados Unidos e Israel em um caminho perigoso. A crença de que a força militar pode, por si só, remodelar a paisagem política do Oriente Médio é uma ilusão que já ruiu repetidamente, com custos trágicos para os Estados Unidos. Uma invasão em larga escala do Irã não levaria a uma rápida mudança de regime, mas a um conflito prolongado e com alto número de baixas, com consequências devastadoras para a estabilidade regional e a economia global. O Irã não é o Iraque, nem a Líbia, muito menos o Afeganistão. Sua resiliência institucional, sua profundidade estratégica, sua coesão nacionalista e as lições que aprendeu com os erros de seus adversários o tornam um oponente de diferente nível de impacto. Em vez de se curvar à pressão externa, uma invasão provavelmente unificaria o país contra o agressor estrangeiro, fortalecendo os elementos mais radicais do regime, aumentando a fricção e arrastando os EUA para uma guerra cujo maior interessado parece ser Israel. Mesmo que pareça muito idealista, a solução deveria ser retomar as iniciativas diplomáticas e reverter o atual cenário, que parece cada vez mais irreversível. Resta saber quais serão os próximos desfechos e como tudo pode ficar ainda mais grave quando a arrogância sobrepõe à racionalidade.
Finalmente, sobre a questão nuclear, a ofensiva produz o resultado oposto ao desejado no campo. Ao tratar o regime como uma ameaça existencial, os ataques fornecem a Teerã a justificativa final para buscar a arma nuclear como a única garantia de sobrevivência. Relatórios indicam que o Irã já possui urânio enriquecido suficiente para várias armas, e os bombardeios, ao mesmo tempo que degradam a infraestrutura, destroem a capacidade de monitoramento da AIEA, tornando o programa mais opaco e perigoso[12]. A ação militar, portanto, não elimina a ameaça nuclear; ela a acelera e torna todo o mecanismo de verificação mais incerto o possível – isso com interesse claro, arriscando um gravíssimo desequilíbrio regional (imagine se o Irã consegue a bomba, como ficariam seus vizinhos mais relevantes: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Israel)?. A ofensiva, em suma, é um exercício de força que mina a própria segurança que alega proteger, aprisionando seus arquitetos em um ciclo de escalada com custos crescentes e sem vitória clara à vista.
André Luiz Cançado Motta é graduado e mestre em Relações Internacionais (UFG), doutorando em RI (UNB) e Prof. de Relações Internacionais na PUC-GO e UFG.
[1]https://edition.cnn.com/2026/02/28/politics/regime-change-iran-trump
[2]https://foreignpolicy.com/2026/02/28/iran-khamenei-ayatollah-assassination-israel-us-war/
[3]https://www.cfr.org/reports/leadership-transition-in-iran
[4]Retirado de: https://www.cfr.org/reports/leadership-transition-in-iran
[5]https://www.cfr.org/reports/leadership-transition-in-iran
[6]https://www.thebulwark.com/p/bombing-iran-is-easy-what-comes-next-hard-regime-change-strategy-goals-iraq
[7]https://janusnet-ojs.autonoma.pt/index.php/janus/article/view/173
[8]https://www.hoover.org/research/invading-iran-lessons-iraq
[9]https://www.aol.com/articles/sustained-war-iran-could-drain-110052435.html
[10]https://www.npr.org/2026/03/01/nx-s1-5731493/what-is-the-u-s-militarys-capacity-to-carry-out-extended-strikes-in-iran
[11]https://asiatimes.com/2026/03/china-watching-as-us-missile-stocks-drain-over-iran/
[12]https://www.aljazeera.com/news/2026/2/27/iaea-eyes-isfahan-nuclear-complex-as-it-urges-iran-to-allow


Perfeita colocação, parabéns!