ECONOMIA

Um ano incerto para a economia brasileira – e para Lula

Em um Brasil marcado por turbulências políticas e econômicas, 2026 começa sob incertezas tanto no cenário internacional quanto no doméstico. As tensões externas e o acirramento da disputa política interna se combinam com a desaceleração da economia, que perde fôlego diante das restrições fiscais e do aperto monetário

Como o roteirista do Brasil não tem deixado a desejar, o ano de 2026 começou conturbado e promete ser ainda mais. Enquanto externamente tem-se a estratégia caótica – ou o caos da falta de estratégia – de Trump, cujas atenções recentemente voltaram-se para a Venezuela e para o Irã, internamente observam-se os desdobramentos do escândalo do Banco Master no contexto de acirramento da disputa política. Não fosse a lógica eleitoral, a desaceleração da economia brasileira seria mais pronunciada, dificultando ainda mais a já incerta reeleição de Lula à presidência.

Na primeira metade do governo Lula III, o PIB brasileiro cresceu em média 2,9% ao ano em termos reais, igualando o ritmo observado em seu primeiro mandato. Depois de anos andando de lado, do tombo da pandemia e de uma rápida recuperação, esse resultado foi possível em razão da retomada dos gastos públicos, por sua vez viabilizada pela PEC da transição e pelos “dribles” no Novo Arcabouço Fiscal (NAF). Mas, dadas as amarras fiscais e o torniquete da política monetária, o PIB do Brasil cresceu apenas 2,3% em 2025. E a perspectiva para este ano é pouco alentadora.

Qualquer estudante de economia sabe que o que determina o nível de produção é o patamar de gastos, a demanda agregada. Ou seja, são os dispêndios com consumo, investimento, gastos públicos e exportações que irão determinar o quanto o país crescerá. Por outro lado, quanto mais o PIB aumenta, mais tendem a crescer os gastos.

Um ano incerto para a economia brasileira – e para Lula: foto de Lula e Haddad em uma palanque
02.01.2023 – Presidente Lula empossa novos Ministros de Estado. – Fernando Haddad é empossado como Ministro da Fazenda. Crédito: Ricardo Stuckert

O raciocínio é simples. Quanto maiores forem os níveis de produção e emprego, maior será a renda das famílias, e com isso o consumo. O mesmo se aplica ao investimento. Quanto maior for o PIB e as expectativas de demanda, mais as empresas tendem a investir. Neste sentido, tem-se que consumo e investimento são, em larga medida, induzidos pelo crescimento da própria renda agregada, o PIB.

Os gastos públicos, por sua vez, têm uma trajetória mais autônoma, pois dependem de decisões políticas. Por exemplo, os gastos do governo podem crescer no meio de uma crise, como a pandemia, bem como desacelerar arbitrariamente. É o que prevê o NAF, e pelo que torcem economistas liberais e a grande mídia.

Quanto mais os gastos públicos desacelerarem este ano, menos tende a crescer o PIB. Este movimento reforça a desaceleração já esperada em razão do patamar estratosférico da taxa básica de juros, atualmente em 14,75% ao ano. Se antes já se esperava uma queda lenta e gradual da mesma, agora, com a guerra no Oriente Médio, sabe-se que a política monetária será ainda mais restritiva. Isto freará ainda mais os gastos – em especial o consumo financiado por crédito e o investimento residencial – e, assim, a economia.

Hoje as expectativas de crescimento para o PIB brasileiro em 2026 giram em torno de 2%. Caso essas projeções se confirmem, o produto do país terá crescido (de forma acumulada) perto de 11% no terceiro mandato de Lula, contra os quase 15% e 20% em seus primeiro e segundo mandatos, respectivamente. Uma possibilidade de melhorar esse resultado decorreria de uma maior expansão fiscal, por algum tipo de contorno no NAF, dado o contexto eleitoral.

Assim, ainda que a desaceleração econômica do país já esteja contratada, a força da freada dependerá do grau de conservadorismo do Banco Central na gestão dos juros, e do tamanho do expansionismo fiscal decorrente do ciclo político. Se já é garantido que o PIB crescerá pouco, sua magnitude ainda é incerta – como é cada vez mais incerta a reeleição do atual presidente da República.

 

Luciano Alencar Barros é professor adjunto do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.

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