A POLÍTICA INTERNACIONAL VIVE HOJE UMA MUDANÇA SILENCIOSA

Os limites da coerção na ordem internacional contemporânea

O confronto em torno do Irã revela como instrumentos clássicos de pressão estratégica enfrentam limites crescentes em um sistema global marcado por novas redes de poder e maior autonomia regional

A história das relações internacionais mostra que a eficácia da coerção raramente depende apenas da magnitude do poder empregado. Em diferentes momentos, sanções econômicas, pressões financeiras e demonstrações de força militar produziram resultados políticos variados, muitas vezes condicionados pela estrutura mais ampla do sistema internacional. No início do século XXI, essa relação entre poder e resultado estratégico parece atravessar uma nova fase de transformação.

A política internacional vive hoje uma mudança silenciosa, mas profunda. Durante grande parte do período posterior ao fim da Guerra Fria, consolidou-se a percepção de que instrumentos clássicos de coerção – sanções econômicas, pressão financeira e superioridade militar – seriam capazes de produzir resultados políticos relativamente previsíveis.

No entanto, os acontecimentos recentes em torno do Irã e as pressões exercidas por Estados Unidos e Israel indicam que essa equação estratégica se tornou significativamente mais incerta. A questão central do cenário contemporâneo deixou de ser apenas a existência de poder e passou a envolver a capacidade efetiva de transformá-lo em controle político duradouro.

Essa mudança não ocorre de forma abrupta. Ela resulta de um processo gradual de redistribuição de capacidades econômicas, tecnológicas e militares no sistema internacional. À medida que novos centros de poder emergem e redes alternativas de cooperação se consolidam, os instrumentos tradicionais de pressão geopolítica passam a operar em um ambiente mais complexo, no qual a capacidade de adaptação dos Estados se torna um fator decisivo.

Desde o colapso da União Soviética, a política externa americana consolidou uma estratégia relativamente consistente de projeção de poder. Pressão financeira global, sanções econômicas e superioridade militar passaram a constituir os pilares centrais de um modelo de influência geopolítica que marcou o período de predominância estratégica de Washington nas décadas seguintes.

Esse modelo foi aplicado em diferentes contextos. No caso iraniano, as primeiras rodadas amplas de sanções econômicas ganharam força ao longo dos anos 2000. Mais tarde, medidas semelhantes seriam empregadas contra a Rússia após a anexação da Crimeia em 2014 e intensificadas depois da invasão da Ucrânia. Em todos esses casos, a lógica estratégica era semelhante: utilizar a centralidade do sistema financeiro internacional e a superioridade militar americana como instrumentos de pressão capazes de induzir mudanças de comportamento político.

Durante muitos anos, essa lógica pareceu relativamente eficaz. A profunda integração da economia global ao sistema financeiro baseado no dólar e às instituições multilaterais ocidentais ampliou o alcance das sanções econômicas. Organismos como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial operaram em um ambiente internacional no qual o peso econômico e político dos Estados Unidos era decisivo para coordenar respostas multilaterais e consolidar mecanismos de pressão coletiva.

Entretanto, nas últimas duas décadas, transformações estruturais começaram a alterar esse cenário. O crescimento econômico da China, a consolidação de potências regionais e a emergência de redes financeiras e comerciais alternativas reduziram, ainda que parcialmente, a capacidade de isolamento econômico completo de países alvo de sanções.

Crédito: Yann Forget/Wikimedia

Dados do Stockholm International Peace Research Institute indicam que os gastos militares globais atingiram níveis recordes nos últimos anos, refletindo um ambiente internacional marcado pela intensificação das rivalidades estratégicas. Ao mesmo tempo, relatórios do Fundo Monetário Internacional apontam para uma tendência crescente de fragmentação econômica, na qual cadeias de produção, fluxos de investimento e sistemas de pagamento passam gradualmente a se reorganizar ao longo de linhas geopolíticas.

Essa fragmentação progressiva altera a lógica de funcionamento das sanções econômicas. Em um sistema altamente integrado, restrições financeiras impostas por grandes potências tendem a produzir efeitos sistêmicos amplos. Em um ambiente internacional mais fragmentado, contudo, Estados sujeitos a sanções encontram maior espaço para construir rotas alternativas de comércio, financiamento e cooperação tecnológica.

Essa dinâmica também se manifesta no setor energético. Estudos da Agência Internacional de Energia mostram que países submetidos a sanções têm buscado diversificar rotas comerciais, parceiros estratégicos e mecanismos de pagamento com o objetivo de reduzir sua vulnerabilidade às restrições impostas pelo sistema financeiro ocidental. Esse processo não elimina os efeitos das sanções, mas altera significativamente sua eficácia estratégica ao longo do tempo.

Nesse contexto, a pressão exercida contra o Irã e as respostas regionais observadas no Oriente Médio revelam uma realidade mais complexa do que a lógica de coerção que predominou nas décadas posteriores à Guerra Fria. Mesmo diante de intensa pressão econômica e militar, atores regionais demonstram capacidade de adaptação política, tecnológica e comercial, explorando assimetrias estratégicas e ampliando margens de autonomia em relação às estruturas tradicionais de poder internacional.

Isso não significa que o poder americano tenha desaparecido. Os Estados Unidos continuam sendo a maior potência militar do planeta e mantêm influência decisiva em instituições financeiras, alianças militares e redes tecnológicas globais. O que parece estar em transformação é a relação entre superioridade material e capacidade de produzir resultados políticos previsíveis.

Durante grande parte do período posterior a 1991, Washington operou com a expectativa de que a combinação entre pressão econômica global, demonstração de força militar e negociação diplomática poderia moldar o comportamento de adversários regionais. No ambiente estratégico contemporâneo, essa equação tornou-se consideravelmente mais incerta.

A multiplicação de polos de poder, a crescente autonomia estratégica de potências emergentes e a fragmentação das redes econômicas internacionais ampliaram o espaço de manobra de Estados sujeitos a sanções ou pressão militar. Em muitos casos, os instrumentos de coerção continuam impondo custos significativos aos países-alvo, mas já não garantem que esses custos se convertam automaticamente em concessões políticas.

Essa transformação reflete uma característica mais ampla da ordem internacional contemporânea: a transição gradual de um sistema relativamente concentrado de poder para uma estrutura mais difusa, na qual diferentes centros de influência coexistem, competem e frequentemente limitam a capacidade de ação unilateral das grandes potências.

Nesse novo contexto, estratégias de coerção permanecem instrumentos relevantes de poder, mas passam a produzir efeitos mais incertos e, por vezes, contraditórios. A capacidade de impor custos continua significativa; o que se tornou menos previsível é a capacidade de transformar esses custos em resultados políticos controláveis.

Em um sistema internacional cada vez mais fragmentado, essa distinção torna-se decisiva. A coerção continua sendo um componente central da política de poder, mas já não constitui garantia de controle estratégico.

Na ordem internacional emergente do século XXI, possuir poder já não significa necessariamente controlar os resultados – e essa diferença pode se tornar uma das marcas centrais da política global nas próximas décadas.

 

Marcelo Copelli é jornalista correspondente na Europa, editor de Política e pesquisador na área de Comunicação.

 

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