Fronteiras fechadas, vozes abertas
Integrar esses trabalhadores a sistemas produtivos formais não é apenas uma questão de justiça, mas também de eficiência
Neste 1º de Maio, conflitos armados, a crise climática, o avanço do autoritarismo e os retrocessos democráticos aprofundam ainda mais a crise vivida por quem trabalha sem proteção e sustenta a economia global.
O Dia Internacional dos Trabalhadores está cada vez mais distante de ser uma data de celebração de direitos conquistados pela sociedade civil. Em 2026, o Dia do Trabalhador chega em meio a guerras e a uma crescente instabilidade geopolítica, que afetam milhões de trabalhadores em todo o mundo e agravam a situação do grupo menos visível nesse cenário: mulheres e homens que, sem qualquer proteção formal, seguem sustentando economias inteiras.
Da Ucrânia ao Oriente Médio, passando pela República Democrática do Congo, os impactos mais imediatos aparecem em relatos de mortes de civis, deslocamentos forçados e destruição de infraestrutura básica. Mas, para além desses efeitos mais conhecidos, as dificuldades da guerra atingem de forma particular os trabalhadores migrantes da economia informal – especialmente no Oriente Médio, onde salários deixam de ser pagos e a evacuação se torna quase impossível, por conta de um sistema que retém documentos desses trabalhadores.
Mesmo em países distantes das zonas de conflito, trabalhadores da economia informal sentem os efeitos das crises econômicas, como as decorrentes do fechamento do Estreito de Ormuz, que interrompeu os fluxos de petróleo, gás e fertilizantes e elevou os custos. Há quem diga que os impactos desse episódio podem se comparar aos da pandemia para esse grupo, que ainda luta pelo reconhecimento pleno de seus direitos. Na Índia, os catadores já não conseguem pagar pela própria alimentação. Na Indonésia, vendedores ambulantes veem seus custos dobrarem, enquanto trabalhadores domiciliares enfrentam falta de energia em Bangladesh e no Paquistão. Para quem depende da renda diária, sem qualquer rede de proteção, cada ruptura logística vira uma ameaça imediata à sobrevivência.
Ironicamente, são justamente os trabalhadores da economia informal que sustentam países e comunidades, muitas vezes de forma invisível. Eles mantêm cadeias de abastecimento em funcionamento, reciclam materiais e evitam danos ambientais, garantem a circulação de bens e serviços e oferecem cuidados essenciais para famílias inteiras.
Em todo o mundo, esses trabalhadores vêm se organizando e construindo organizações fortes. Na prática, dão exemplo de princípios democráticos, estimulando a ação coletiva, a tomada de decisões horizontal e o desenvolvimento de lideranças capazes de transformar suas realidades. O objetivo é ocupar espaço nos processos de decisão pública e construir, no dia a dia, uma visão de transição econômica voltada à inclusão social e à sustentabilidade. Normas internacionais já asseguram o direito desses trabalhadores de formar conselhos regionais ou instâncias nacionais para defender seus direitos, independentemente de seu vínculo de trabalho.

Ainda assim, há um descompasso evidente entre a construção dessa força coletiva e o arcabouço institucional que deveria reconhecê-la. A proteção reivindicada por trabalhadores da economia informal passa, necessariamente, pela sua inclusão na legislação trabalhista. A luta pelo fim da escala 6×1 no Brasil ilustra esse paradoxo. Por mais legítima que seja a pauta, o movimento se torna incompleto ao ignorar quem trabalha todos os dias sem descanso, reconhecimento ou contrato formal, como vendedores ambulantes, catadores, trabalhadores domiciliares e domésticos. Para sua inclusão nos marcos legais, já existem diretrizes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre a transição da informalidade para modelos mais protegidos e estruturados, como previsto na Recomendação 204.
Há também uma dimensão social importante. Num cenário de renda estagnada e crises recorrentes, garantir acesso à saúde, à proteção social e a mecanismos emergenciais de apoio deixou de ser política complementar e passou a ser condição básica para evitar que trabalhadores da economia informal passem fome.
Integrar esses trabalhadores a sistemas produtivos formais não é apenas uma questão de justiça, mas também de eficiência: melhora a renda, fortalece direitos e amplia ganhos ambientais. No Brasil, milhões de catadores que já atuam na base da economia circular são prova concreta de que essa integração é possível e necessária. O caso de Belo Horizonte (MG) ilustra esse caminho: dentro do modelo de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, catadores foram incorporados a sistemas de coleta seletiva. A cidade também avançou na formalização da reciclagem, enfrentando desafios centrais da população urbana mais pobre e permitindo que muitos deixassem as ruas para trabalhar em galpões.
Outro exemplo brasileiro é a ATEMDO (Associação de Trabalhadores em Domicílio), uma organização baseada na adesão de seus membros e nos princípios da economia social e solidária. A entidade apoia seus associados ao compartilhar informações, abrir acesso a novos mercados, oferecer capacitação, mobilizar recursos e defender suas demandas junto a formuladores de políticas públicas, empregadores e à sociedade.
Em um mundo atravessado por crises que se sobrepõem, as soluções não virão apenas de acordos entre países ou de ajustes de mercado. Elas dependem, inevitavelmente, da capacidade de organização coletiva. E é justamente nesse espaço que trabalhadores historicamente marginalizados têm se articulado para construir suas próprias formas de resistência.
Laura Alfers é coordenadora internacional da WIEGO (Women in Informal Employment: Globalizing and Organizing). É doutora em Economia do Desenvolvimento e Desenvolvimento Internacional pela University of KwaZulu-Natal, mestre em Filosofia pela University of Cambridge e mestre em Ciência Política e Governo pela Rhodes University.

