PROMETEU EM CHAMAS

Energia, petróleo e a narrativa das guerras modernas

A história ensina que, do domínio do fogo às disputas contemporâneas pelo petróleo, a energia nunca foi apenas um recurso: sempre se configurou como instrumento de poder, de expansão e de imposição da ordem 

Em Bacurau, a população, marcada pelas violências impressas em seu museu, reafirma sua disposição de luta mesmo diante da fragilidade de sua própria existência no mapa. Na entrada da cidade, a advertência é simples e ancestral: “se for, vá em paz.” A mensagem, sob a lente de Kleber Mendonça Filho, revela um padrão que atravessa a história humana: o poder, intrínseco ao controle dos recursos naturais, e dentre eles, de forma aguda, a energia, sempre se entrelaçou com a guerra.
A crise contemporânea do petróleo – que a imprensa corporativa, não sem cinismo, insiste em atribuir exclusivamente ao Irã – é apenas mais um capítulo de um processo muito mais profundo de dominação.
Desde os primeiros sinais de desenvolvimento cognitivo, os humanos buscaram dominar a conversibilidade da energia, isto é, controlar como extraí-la, transformá-la e utilizá-la conforme suas necessidades. Quando os Sapiens dominaram o fogo e o associaram às práticas agrícolas, produziram excedentes – e, com eles, surgiram profundas assimetrias sociais. A chama de Prometeu, mais do que mito, tornou-se fundamento material do poder e da guerra.
Essa lógica se intensifica com a Revolução Industrial, a consolidação do petróleo como eixo energético no século XX e os conflitos globais que se seguiram, como a Segunda Guerra Mundial, em que o controle de recursos energéticos foi elemento estratégico central.
O ápice dessa dinâmica manifesta-se na Crise do petróleo de 1973. Longe de ser apenas um desequilíbrio de mercado, aquele momento revelou uma disputa estrutural: o preço baixo do petróleo ameaçava a viabilidade das reservas norte-americanas e, consequentemente, a sustentação de seu modelo energético e econômico. Ao tensionar a economia global, reconfigurou-se o tabuleiro geopolítico para preservar a centralidade da indústria petrolífera dos Estados Unidos.
A partir daí, consolidou-se um padrão: o petróleo passou a justificar deslocamentos militares, intervenções e guerras sob o verniz da defesa da democracia. A Guerra do Golfo, sob o argumento de proteger o Kuwait, e a Invasão do Iraque são exemplos emblemáticos de operações em que o controle energético se sobrepôs ao discurso oficial.
Crédito: Marinelson Almeida/Flickr
Não por acaso, bases militares norte-americanas se espalham pelo Oriente Médio, região que concentra algumas das maiores reservas energéticas do planeta. Nesse contexto, soa conveniente que, mais uma vez, a narrativa dominante aponte o Irã como responsável isolado pela escalada recente e pela alta dos preços do petróleo.
Mas reduzir a complexidade geopolítica a um único ator não é análise – é alinhamento, é cinismo descarado.
A história mostra que energia nunca foi apenas um recurso: foi instrumento de poder, de expansão e de conflito. O que está em jogo, portanto, não é apenas o preço do barril, mas a permanência de uma ordem global estruturada sobre o controle de quem produz, distribui e domina a energia.
Não é necessário voltar muito no tempo para identificar a repetição desse padrão. O caso da Venezuela é emblemático. Detentora das maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, o país passou a ser alvo sistemático de sanções, pressões políticas e tentativas de reconfiguração institucional. Em 2019, os Estados Unidos e seus aliados de primeiro momento pavimentaram um caminho de disputa explícita sobre o controle político e energético do país.
Nos anos seguintes, o cerco se intensificou. Sanções econômicas, isolamento diplomático e operações indiretas prepararam o terreno para um movimento mais agressivo. Em 2026, a violação da soberania nacional, por meio do sequestro do presidente venezuelano por forças norte-americanas elevou o conflito a um novo patamar, agora mais fortemente vinculado ao interesse estratégico sobre os recursos energéticos daquele país.
Aqui, o debate sobre democracia – legítimo em qualquer contexto – passa a cumprir outra função: deslocar o foco da disputa material. Discute-se o regime, silencia-se sobre o petróleo.
Esse mesmo roteiro já havia sido ensaiado anteriormente na Guerra do Golfo e aprofundado na Invasão do Iraque. A retórica é conhecida: defesa da paz, proteção de aliados, promoção da democracia. O resultado, quase sempre, é a reorganização do controle sobre fluxos energéticos estratégicos.
Diante disso, já não causa estranhamento – devido a recorrente falta de vergonha pública – a forma como parte significativa da imprensa corporativa e nacional opera e milita. Ao reduzir a complexidade geopolítica a narrativas simplificadas, uníssonas aos interesses de potências centrais, transforma conflitos estruturais em episódios pontuais, personalizando responsabilidades e obscurecendo processos históricos, refletindo sua falta de compromisso moral com a notícia e análise qualificada – é militância comercial pura.
Não se trata de negar tensões reais envolvendo o Irã, tampouco de absolver atores estatais de suas decisões. Trata-se de recusar uma leitura seletiva, elaborada nos gabinetes de propaganda de outras nações, em que uma única forma interpretativa é exposta sem direito ao contraditório, enquanto décadas de intervenções, bases militares e disputas por recursos energéticos são tratadas como pano de fundo irrelevante.
Chamar isso de noticiário ou o que o valha é generoso. O que se registra é uma mediação compromissada – uma narrativa que, ao fazer uso de maquiagem e luz, embota o verniz da neutralidade, e acaba por cumprir o que está acordado nas reuniões de pauta, reproduzir a lógica de poder que alardeia apenas observar de forma neutra.
A história ensina que, do domínio do fogo às disputas contemporâneas pelo petróleo, a energia nunca foi apenas um recurso: sempre se configurou como instrumento de poder, de expansão e de imposição da ordem. O que se transforma ao longo do tempo não é a lógica, mas a narrativa que a encobre. Hoje, sob o discurso de estabilidade, democracia e segurança, perpetuam-se práticas antigas com novas justificativas. Nesse tablado, a opinião pública é constantemente exposta a versões simplificadas, seletivas e, muitas vezes, desonestas em seu conteúdo analítico, enquanto o verdadeiro conflito – aquele que envolve o controle dos fluxos energéticos globais – permanece cuidadosamente fora do radar. No fim, não é apenas o petróleo que está em disputa, mas o direito de definir a realidade. E talvez esse seja o monopólio mais valioso de todos.

 

Neilton Fidelis da Silva é professor do Programa de Pós-Graduação em Uso Sustentável de Recursos Naturais do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (PPgUSRN/IFRN) e pesquisador do Instituto Virtual Internacional de Mudanças Globais (IVIG/UFRJ).
Márcio Giannini Pereira é pesquisador do Instituto Virtual Internacional de Mudanças Globais – IVIG /COPPE – UFRJ.
Leandro Andrei Beser de Deus é Professor adjunto do Departamento de Geografia Física/Instituto de Geografia (IGEOG/UERJ), e docente do Programa de Pós-Graduação em Geografia.
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