O abraço de Carla Dickson
Disputa pela presidência da Comissão da Mulher, na Câmara dos Deputados, revela questões importantes sobre interferência masculina

O 18 de março de 2026 era para ser apenas mais uma quarta-feira na Câmara dos Deputados. Mas, uma semana antes, ainda durante a eleição, os limites da nova presidenta da Comissão da Mulher, a deputada Erika Hilton (PSOL/SP), começaram a ser testados. Esticaram a corda, afiaram as facas, com a nítida intenção de provocar um clima de confronto. Tudo indicava isso, apesar dos cabelos bem escovados e terninhos bem cortados em suaves tons de branco, rosa e bege claro.
Vestirem-se assim era performar uma feminilidade necessária para fazer um contraponto à ‘rival’, que poderia aparecer com decotes insinuantes, salto alto, roupa justa, batom vermelho, nada recatada.
A oposição planejava obstruir toda a pauta da reunião deliberativa, que continha projetos selecionados para o consenso, alguns até de sua autoria e relatoria. Em vez da pauta consensual, tentou-se impor uma outra, que contivesse uma moção de aplausos ao apresentador Ratinho – acusado pelo MPF e advertido pelo SBT por ter cometido falas transfóbicas em seu programa televisivo – e outra moção, essa de repúdio – acreditem – à nova presidenta, a partir da distorção de um post de internet.
A pretendida moção requeria aplausos exatamente pela violência que o apresentador desferiu contra a parlamentar em seu programa na TV aberta, sob pretexto da liberdade de expressão e opinião. Nas palavras dele: “Não é uma mulher, ela é trans. Para ser mulher tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata três, quatro dias. Eu sou contra. Eu acho que deveria deixar uma mulher”.
Em seu perfil no Instagram, diante da avalanche de ataques que sofrera em razão de sua vitória na eleição, e da repercussão da fala agressiva do apresentador, Erika escreveu que não se importava com “transfóbicos imbeCIS” e, parafraseando Valeska Popuzuda, acrescentou algo como “late, que eu tô passando”.
A essa metáfora, suas adversárias, investidas da autoridade de quem acredita representar 51,5% da população brasileira, a biologia e até a Deus, responderam aos brados: “As mulheres brasileiras não são cadelas!”; “Você é mal-educada, misógina e persegue mulheres!”. Ainda nesse malabarismo textual, acusavam Erika de ter chamado as mulheres cisgênero, de maneira indiscriminada, de “esgoto da sociedade”.
Também sabiam que não haveria pedido de desculpas pelo que ela não fez nem disse. Diga-se de passagem, a comissão nunca repudiou comportamentos ou posts de parlamentares. A exceção foi o deputado Delegado da Cunha (PP/SP), que em 2024 foi filmado e visto pelo Brasil inteiro em atos de violência doméstica, agressão e ameaça de morte contra sua ex-companheira, Betina Grusiecki.
No fim das contas, o objetivo de toda essa dinâmica latentemente beligerante parecia ser instigar uma reação mais impulsiva da nova presidente e, de alguma forma, impugnar o resultado da eleição da semana anterior – tentar uma recontagem, um terceiro escrutínio ou uma manobra regimental de última hora.
“Conservadoras enlatadas”
O esquadrão das “conservadoras enlatadas”, definição reivindicada pela parlamentar de direita Carla Dickson (PL/RN) – ao lado de dois pastores estridentes e do caricato delegado Eder Mauro (PL/PA) – organizou-se, ensaiou as personagens, aprontando cabelo e maquiagem (e prótese capilar, no caso do deputado) para um dia de muitas câmeras, e aguardou o quórum. Estavam à espreita, em alguma sala próxima. Antes, estiveram com Hugo Motta para “denunciar” o post de Erika, garantir bons stories e arrancar dele algum tipo de compromisso.
Passava um pouco das duas da tarde, quando o grito de uma assessora – “Deu!” – chamou todas as atenções para o painel, onde doze presenças acabavam de ser confirmadas. Quórum alcançado, podiam sair da coxia. Sem fuzis, no máximo, tiaras. Chegaram rápido ao Plenário 14 e entraram em cena.
Traziam nas bolsas camisetas em que se liam trechos destacados do post contra o qual se insurgiam como uma torcida organizada. Até já haviam convocado coletiva de imprensa no Salão Verde para depois da reunião, cuja realização tentariam impedir. Havia um roteiro pronto, mas algo saiu do script.
A deputada Coronel Fernanda (PL/MT) vai até Erika e pede para dar um informe sobre um evento no Nereu Ramos, na condição de titular da Procuradoria da Mulher da Câmara – a mesma que, na reunião anterior, declarou que só defenderia “mulher biológica”.
O informe foi dado e feito o convite para que as interessadas acompanhassem a militar – que ficou conhecida pelo apoio dado por Bolsonaro numa eleição suplementar para o Senado, em 2020, e que, em 2024, votou a favor da soltura de Chiquinho Brazão, um dos mandantes da morte de Marielle Franco e Anderson Gomes. Nenhuma das deputadas a acompanhou. Próxima.
Simone Marquetto (MDB/SP), buscando o lugar de mediadora, fala com Erika ao pé do ouvido e pede para cancelar a reunião. Tranquilamente, tem a resposta de que não havia motivo para cancelamento, pois a pauta estava equilibrada e sem maiores polêmicas.
Célia Xakriabá (PSOL/MG), Fernanda Melchionna (PSOL/RS), Sâmia Bomfim (PSOL/SP), Profa. Luciene (PSOL/SP), Carol Dartora (PT/PR) e Jack Rocha (PT/ES) tomam assento na primeira fileira, enquanto muitas outras acompanham atentas pelo aplicativo de votação.
O líder do PSOL, Tarcísio Motta (RJ) – que, minutos antes, também havia estado com o presidente Hugo, de sobrenome igual, para garantir as prerrogativas de Erika e o direito de seu partido na comissão – senta-se mais atrás, aflito, como se torcesse por uma virada do Vasco.
A sala começa a ficar pequena e se espalham apreensão, desconfiança, mas também leques coloridos por toda parte. Olhares atravessados, respirações pesadas, ansiedade de quem ensaia o próprio escândalo e de quem não sabe o que está por vir. Afinal, é dia de enfrentar Erika Hilton, com tudo aquilo que já estava previamente calculado. É dia de enfrentar a “fanática identitária”, a “deputada autoritária”, assim classificada pelo jornalista Demetrio Magnoli, fala repetida em coro pelo esquadrão.
As peças estão preparadas e são bem criativas. Artilharia montada. Inúmeras questões de ordem, gritos, recurso contra a eleição da semana anterior, discursos de ódio, piadas sobre bilaus, representação no Conselho de Ética e uma inusitada ação popular.
Clarissa Tércio (PP/PE), Chris Tonietto (PL/RJ), Pastor Eurico (PSDB/PE), Éder Mauro (PL/PA), Júlia Zanatta (PL/SC), figurinhas carimbadas da extrema direita, estão perfiladas, exaltadas. A empresária gaúcha Any Ortiz (que está de mudança do Cidadania para o PP/RS) se sente à confortável para, sem qualquer comprovação, invocar a memória do falecido ativista LGBT Eliseu Neto e, no lugar dele, afirmar que ele não concordaria com a presidência de Erika Hilton.
Pastor Sargento Isidório (Avante/BA), autodeclarado “ex-homossexual” e proprietário de controversa comunidade terapêutica, também não poderia perder essa. Chega com a Bíblia nas mãos, ergue o livro sagrado, entoa o início de um canto, lança um testemunho e sai. Talvez não quisesse correr o risco de enfrentar Ministério Público Eleitoral mais uma vez.
Enquanto isso, as deputadas do Republicanos, em silêncio, apenas garantem a presença e a aliança. Outras deputadas do centrão, visivelmente constrangidas com as orientações de seus partidos e com o nível dos discursos ali proferidos, passam, olham e saem. Curiosos de todos os espectros também circulam por ali.
Interferência masculina – Poucos sabem, mas é nos bastidores que acontece a seleção de elenco. Os líderes partidários, quase todos homens, movem o tabuleiro para alcançar o resultado desejado. Mudam as regras, se necessário. Por exemplo: algumas deputadas que declararam apoio prévio à eleição de Erika foram retiradas da comissão. Outras, fortemente aconselhadas a não comparecer.
Mesmo no campo da esquerda, há quem prefira não dar as caras. Boa parte se limita a registrar seus votos à distância, pelo aplicativo, evitando exposição indesejada. E, mesmo assim, o Plenário 14 continua pequeno e quente. Ao movimento de troca de peças que fez a maioria dos líderes da direita e da extrema direita, a deputada Sâmia Bomfim chamou de “verdadeira interferência masculina na Comissão da Mulher”.
Condenado pela Justiça em 2024 a indenizar Erika Hilton em irrisórios R$ 15 mil por se referir a ela como “ex-cidadão que agora é cidadã”, Pastor Eurico voltou a ultrapassar a linha do grotesco ao perguntar pelo “tamanho do útero” da deputada. Mais grave ainda: quando a presidenta se levantou para ir ao banheiro, ele anunciou ao microfone que iria “ao banheiro feminino”. Em tom de bravata, simulou uma perseguição física. A entrada do banheiro não é vigiada por câmeras de segurança.
As ofensas vieram como sempre vêm: previsíveis, baixas, reiteradas, com o enquadramento já feito para corte e ‘like’. Algumas, um pouco mais sofisticadas. Erika parecia preparada para todas. Ora demonstrava interesse, ora ignorava, ora fugia dali e de si mesma.
Porém foi uma novata com pomposo nome social que chamou atenção e queria protagonismo. Era Carla, de sobrenome Dickson, de origem escocesa talvez, que quer dizer “filho de Dick”. Biologicamente, Hilkéa Carla de Souza Medeiros Lima, esposa de Albert Dickson. Por empréstimo, Carla Dickson.
Médica “em prol de Bolsonaro”, ela é das que ensinam a pedir voto no consultório, investigada pelos ministérios públicos Eleitoral e do Trabalho. Muito leal à causa e ao coiso, foi uma das primeiras a chegar. Antes, não priorizava a comissão. Agora, ela queria uma lasquinha do palco. Acabara de sair do União, pois esse partido, segundo ela, “flerta demais com a esquerda”. Daí, mudou-se de vez para o PL.
A esposa de Albert também sabia o seu papel. Disse, sem rodeios, que trazia por escrito um discurso agressivo. Estava pronta.
Mas Erika não veio para a guerra.
Veio calma, paciente, didática. Reflexiva. Um tanto debochada, às vezes, “fazendo a egípcia”. Uma Erika que não elevava o tom, que não devolvia a agressão, que insistia na condução democrática, na escuta sincera e, por que não dizer, generosa, principalmente das adversárias. Veio a “Erikinha paz e amor” e isso produziu um deslocamento visível. Nem do roteiro com o qual sua assessoria lhe armou ela quis se valer. Passou a dispensar referências regimentais e jurisprudenciais.
Como qualquer fogueira, uma boa batalha precisa de combustível. Sem ele, sobra um certo constrangimento no ar. As deputadas de oposição precisavam ser ágeis para mudar o enquadramento narrativo e encontrar outras fragilidades na oponente. Era preciso um improviso, “resetar” alguns personagens, lançar mão de uma carta que não estava naquele repertório. E então, como faz?
Carla Dickson sai. Diz que precisa esfriar a cabeça e tomar um ar. Mudou o figurino e retornou, sem abrir mão da altivez. Não foi um gesto trivial. Foi pausa, cálculo, decisão. Ela voltou com outro tom – não mais brando no conteúdo, porém mais contido na forma.
Voltou como Remmick, o vampiro irlandês do premiado filme Pecadores (2025), que tem olhar manso e promete coisas boas, reza o Pai Nosso e pede permissão para adentrar e beber todo o sangue que puder. Dickson disse que via, “atrás daquele parlamentar” uma pessoa, que tinha família, mãe, cicatrizes, e que estava sofrendo. Ora tratava Erika no feminino, ora no masculino. Chegou a dizer que ela iria brilhar numa comissão – inexistente – para pessoas trans.
Era uma inflexão. Não para reconhecer, mas para reposicionar a cena. E o gesto decisivo ainda estava por vir: o abraço. Ele não foi espontâneo. Foi construído meticulosamente, como quem aguarda o momento exato de dar o bote, de imobilizar a vítima.
No final da reunião, Carla se dirigiu à Mesa e se aproximou, segurou Erika pelos braços, puxou para si, apertou. Fechou os olhos e disse: “Vou orar por você”. Foi um abraço firme, prolongado, impossível de ignorar – e profundamente estratégico.
Não havia pessoalidade naquele gesto. Continuava sendo uma disputa. Um movimento para retirar de Erika o papel que ela havia assumido durante toda a condução: o da serenidade, da paciência, de equilíbrio diante do batalhão opositor. O abraço tentava inverter isso. Tentava produzir a imagem de quem cuida, de quem acolhe, de quem é capaz de “elevar” o debate – ainda que, segundos antes, tivesse negado o básico: o reconhecimento de identidade a Erika.
O impacto dessa cena remete diretamente a 2014, quando a Secretaria da Mulher promoveu uma maratona hacker para discutir o papel de novas tecnologias no enfrentamento às violências contra mulheres, o Hackathon de Gênero e Cidadania. Para o evento, entre outras, foi convidada uma psicóloga trans, negra, gestora do sistema de cotas raciais da Universidade de Brasília (UnB).
Ela foi interceptada na chapelaria do Congresso por outra colega de profissão, que trabalhava como secretária parlamentar na Casa. Uma senhora aparentemente inofensiva, de cabelo grisalho e fala doce.
Essa senhora também pediu licença para um abraço vampiresco. Sem reconhecê-la ou apenas por educação, a convidada concedeu. Suavemente, a senhora disse para a colega: “Meu filho, que nome sua mãe te deu?”. Veio o silêncio, acompanhado da tentativa não exitosa de repelir a abordagem. A senhora grisalha é uma das missionárias mais famosas do Brasil por oferecer terapias de conversão, a famigerada “cura gay”. Por essa prática, teve seu registro profissional de psicóloga cassado.
A estratégia do abraço é uma conhecida técnica das artes marciais, usada para o controle de curta distância. No abraço, reduz-se a mobilidade do oponente, controla-se o centro de gravidade. No tatame, com um simples abraço, é possível quebrar o equilíbrio do adversário e, com seu próprio peso, derrotá-lo.
Até chegar no abraço que quase convenceu algumas pessoas, outras cenas rolaram. Havia em pauta um projeto de lei de autoria da própria Carla Dickson, relatado por uma de suas aliadas mais radicais. Ainda assim, Carla ocupava o microfone para acusar a presidenta de autoritária, de conduzir uma pauta para si, de não respeitar a democracia etc.
Nada mais distante da realidade. Durante a reunião, não houve um único projeto de Erika em votação, nem de seu partido. Nenhuma relatoria sua. Dela, apenas requerimentos. Ainda assim, a narrativa era outra — precisava ser. E então veio o desmonte silencioso.
Fora dos microfones, uma assessora da comissão, ao lado da coordenadora da Bancada Feminina, Jack Rocha, aproximou-se de Carla Dickson e fez a pergunta mais simples possível: “Então, não é melhor votar no seu projeto?”. A presidenta abriria mão dos próprios requerimentos. “Isso não me interessa”, admitiu Dickson, numa resposta sem plateia, sem performance, sem indignação.
Ali, talvez mais do que no abraço, a cena se revelou por inteiro. Porque não interessava mesmo. Não interessava a comissão e o debate legislativo. Não interessavam as políticas públicas e os direitos das mulheres, em suas diferenças. Não interessava a coerência entre o que se diz e o que se faz.
Interessam o palanque, os holofotes da imprensa que as aguardava no Salão Verde, as eleições, os votos que o ódio, a discriminação e as ofensas trarão. O aviso chegou: iniciada a Ordem do Dia em Plenário, todos os trabalhos das comissões devem ser encerrados imediatamente. Instantes depois, um dos primeiros requerimentos de urgência aprovados naquela quarta-feira foi para o projeto que cria o Dia Nacional do Nascituro e da Conscientização sobre Riscos do Aborto.
Foi nesse contexto que o abraço aconteceu. Não como gesto de encontro da cristã com a pecadora, mas como tentativa de disputar, no último segundo, a imagem final da cena. Um abraço idêntico ao da missionária da “cura gay”, que queria apenas levar a oponente ao solo.
Depois dele, haja sal grosso. Erika, a senhora precisa se benzer.
Indígena, negra e trans? É muita informação

A CMulher já foi presidida por idosas, loiras, patricinhas herdeiras, ginecologista, policial. Nenhuma delas era negra como Erika. A propósito, a primeira mulher a presidir essa comissão, entre 2016 e 2017, teve sua prisão pedida pela Polícia Federal dias atrás, por conta de um grande esquema de corrupção no INSS. Mas quem se importa? O “problema”, então, é a negra trans com ares de Beyoncé.
No ano passado, o mesmo PSOL que teve a ousadia de indicar Erika Hilton, indicou a primeira mulher indígena para presidi-la: a deputada Célia Xakriabá (PSOL/MG). Ela inovou, dialogou, interseccionou as pautas de gênero e clima, e atraiu para a comissão variados perfis de mulheres, a cada debate importante realizado.
“Até agora não se provou o que tem a ver mulher e clima!”, queixou-se um deputado do Partido Novo. Apesar de ele e muitos outros se recusarem a entender, Xakriabá avançou. Mais de cem projetos foram aprovados em sua gestão, que enfrentou obstrução pesada, liderada por um certo delegado de polícia, barbudo, corpulento, de credenciais familiares nazistas, das quais muito se orgulha.
Nada menos que o então presidente da Comissão de Segurança Pública – um instrutor de tiros que ganhou notoriedade nacional após a morte de sua noiva em seu apartamento, em circunstâncias sinistras (depois de uma suposta discussão por ciúmes, ela teria atirado em seu próprio peito).
Além dele, o deputado Kim Kataguiri (Missão/SP) também protagonizou cenas de machismo e preconceito. Para ele, Célia Xakriabá também não é “indígena de verdade”. Seria um tipo de “índia fake”, que faz cosplay por aí, contra quem ele entrou com representação no Conselho de Ética, por ter sido supostamente agredido por ela com uma caneta BIC azul, quando da aprovação do chamado “PL da Devastação” (PL 2159/2021), projeto de lei que flexibiliza o licenciamento ambiental no Brasil, permitindo a simples autodeclaração para atividades de baixo/médio impacto.
Cenas marcantes e indignação seletiva

A eleição de Erika Hilton para sua presidência não é a primeira vez em que se procura discutir quem é mulher, de verdade ou de mentira, e como se comportam genitálias na CMulher. Outro momento em que a temática estampou o noticiário foi em 2024, quando o dublê de deputado mineiro e influencer Nikolas Ferreira (PL/MG) usou uma peruca loira e se apresentou como “Nikole”.
Ele convocou uma ministra de Estado com o intuito de questioná-la sobre a definição de mulher, que tanto o incomodava. Por um instante, imaginou-se que ele apresentaria um projeto para indicar a mudança de nome da pasta para “Ministério do Sexo Biológico Feminino”, mas era outra encenação.
Na ocasião, a ministra Aparecida Gonçalves refutou a ideia dele – que é a mesma do apresentador Ratinho – de que há um padrão superior de mulher, preferencialmente branca, heterossexual, com útero, casada, mãe ou em idade reprodutiva, e que fica “chata três ou quatro dias por mês”.
Se fosse como esses homens vaticinam, milhões de carteirinhas de “mulher de verdade” seriam cassadas numa levada só. A dúvida que fica é como argumentariam se a métrica valesse para eles. Quantos teriam a carteirinha de “homem de verdade”?
O súbito interesse na CMulher
Com tantas nuances numa mera eleição de presidente, pode-se perder de vista que a CMulher é uma das trinta comissões permanentes da Câmara dos Deputados (ênfase no masculino). O nome completo é Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher; ela existe há dez anos e costumava ser uma das últimas escolhidas entre os líderes partidários, naquela rodada do começo de cada ano, quando se decide que partido vai comandar cada colegiado. Quanto Erika Hilton foi eleita terceira vice-presidente dessa mesma Comissão da Mulher, no ano passado, não houve toda essa comoção de agora, que assumiu a presidência.
Assim como a comissão da pessoa idosa e da pessoa com deficiência, deriva da comissão de direitos humanos e minorias. E tem competência para receber denúncia relativas à ameaça ou violação dos direitos da mulher, inclusive discriminação racial; incentivar e monitorar programas de apoio a mulheres chefes de famílias monoparentais, saúde materno-infantil e neonatal, enfrentamento do câncer de útero ovário e mama, e mais uma gama extensa de pautas importantíssimas.
Talita Victor é cientista política, militante feminista e especialista em processo político do Legislativo na Câmara dos Deputados.
Sandro Lobo é jornalista e bacharel em direito, foi colaborador e editor dos jornais A Tarde e Correio da Bahia, entre outros veículos.

