SÓCRATES

O intelectual orgânico do futebol brasileiro

Sócrates via na política um imenso estádio onde os políticos eram os jogadores, mas que em momento algum se importavam com o time (sociedade). Essa correlação entre sua vida nos gramados e sua ideologia política em nenhum momento sofreu embate, ao contrário, foi necessário para alçá-lo como um intelectual orgânico no futebol. 

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, ou simplesmente “Doutor Sócrates”. Um gênio das quatro linhas que encantava os adeptos do futebol com uma classe inigualável e uma genialidade que ocupava os espaços no campo. Pelé, o maior de todos, dizia que “Sócrates de costas jogava melhor que muita gente de frente”. Além da magistral inteligência tática, ofensiva e técnica, tinha gana pelo conhecimento e se formou em medicina, ganhando carinhosamente a alcunha de “Doutor”. Defendeu a Seleção entre 1979 e 1986, disputando duas Copas do Mundo, sendo a mais notável a geração encantadora de 1982 – que assim como nas tragédias gregas, viveu uma falha trágica, um “erro trágico” ou “falha” da grande seleção protagonista do torneio, levando-a da felicidade à ruína, como definida pelos filósofos gregos na Antiguidade sob o conceito de hamartia, ao perder para a Itália na fatídica “Tragédia de Sarriá”.  

O eterno camisa 8 se notabilizou também pelo seu interesse e engajamento na política. Fez questão de manifestar seu ativismo político, em especial na década de 1980, quando foi porta-voz de um movimento pela que defendia a democratização do futebol. Ao lado de Casagrande, Zenon e Wladimir, construiu o maior movimento ideológico da história do futebol brasileiro, a chamada “Democracia Corinthiana”, que visava a decisão coletiva por voto, em questões do clube, como concentrações, escalações e contratações. Defendeu, posteriormente, as “Diretas Já”. Sócrates via na política um imenso estádio onde os políticos eram os jogadores, mas que em momento algum se importavam com o time (sociedade). Essa correlação entre sua vida nos gramados e sua ideologia política em nenhum momento sofreu embate, ao contrário, foi necessário para alçá-lo como um intelectual orgânico no futebol. 

Crédito: Arquivo/Placar

O intelectual orgânico 

Antonio Gramsci, importante teórico italiano do início do século XX, trouxe o conceito de “intelectual orgânico”, ou seja, é um pensador/figura ligado a uma específica classe social, que atua como seu porta-voz, sendo uma liderança que organiza o consenso para defender os interesses dessa classe. Diferente do conceito tradicional de intelectual, o intelectual orgânico atua como articular entre a base social e a superestrutura (política e ideologia). Dessa forma, observamos Sócrates como um intelectual engajado e entendido das demandas de jogadores, funcionários, trabalhadores, assalariados, amantes do futebol que lutavam por melhores condições de vida e por oportunidade. O craque que encantava por sua classe no domínio de bola e leitura de jogo se tornou referência política, a partir do momento que não rompe da sua classe social de origem, reforçando sua pertença e comprometimento com suas pautas e causas. Mesmo aclamado pelos brasileiros e ídolo de uma imensa torcida como a do Corinthians, Sócrates não esqueceu de onde veio, mas se utilizou da notoriedade da fama para lutar pelos marginalizados socialmente, ou seja, um intermediário, um intelectual orgânico no futebol.  

Sócrates não era um jogador comum, tanto no campo quanto fora dele, nem mesmo num contexto histórico em que o futebol estava mais próximo de suas raízes sociais, ou como dito popularmente, mais “do povão”. É bom lembrar que os estádios – não as arenas, como hoje – eram povoados por pessoas simples, humildes, que estavam ali para torcer pelo seu clube de coração e apreciar um verdadeiro espetáculo. O próprio Maracanã, com sua antiga “Geral”, um espaço cativo do trabalhador, ocupado por pessoas de todos os gêneros, sem distinção de raça ou classe, hoje foi elitizado. O futebol tornou-se aquilo que o Doutor Sócrates mais combateu fora dele: o predomínio das elites sociais em seus espaços. Observem o Maracanã, atualmente a casa da burguesia carioca. A “festa na favela”, como a torcida do Flamengo carinhosamente canta quando vence, ocorre atualmente nos condomínios de luxo da Barra da Tijuca. Não, não é sobre “ser uma nação” com milhões de torcedores, mas sobre apagar dos holofotes quem de fato sempre amou e acompanhou: a verdadeira favela, não a gourmet.  

Sócrates teve papel ativo na política brasileira, participando da campanha das “Diretas Já”, que reuniu sindicalistas, trabalhadores, artistas, estudantes e diversos outros grupos da sociedade brasileira, levando milhões de pessoas às ruas e contribuindo para acelerar a redemocratização em 1985. Em um episódio marcante de sua trajetória, quando clubes italianos demonstravam interesse em contratá-lo, ele subiu a um palanque em São Paulo e, diante de uma multidão, declarou que só deixaria o país caso fosse aprovada uma emenda constitucional que viabilizasse eleições diretas. Embora a emenda não tenha passado naquele momento, Sócrates acabou se transferindo, em tom de contestação, para a Fiorentina. Conta-se que, ao chegar à Itália, perguntaram-lhe qual jogador da “Serie A” ele mais admirava, se Sandro Mazzola ou Gianni Rivera. Sócrates, com seu jeito singular e rico, respondeu: “Não sei”, e continuou, “estou aqui para ler Gramsci em sua língua original e estudar a história do movimento operário”. 

O eterno camisa 8 era um jogador à frente de seu tempo. O Corinthians, time criado por imigrantes, trabalhadores e oriundos das classes mais pobres, que o acolheu após seu surgimento no Botafogo de Ribeirão Preto, personificou em Sócrates o ideal que permeia sua identidade e compromisso: ser um time verdadeiramente do povo. O Doutor, inclusive, disse em entrevista no ano de 1983 que gostaria de morrer num domingo com o Corinthians campeão. Dito e feito. No dia 4 de dezembro de 2011, dia da morte de Sócrates, o time do Parque São Jorge conquistava seu quinto título brasileiro, após o empate sem gols no Pacaembu contra o Palmeiras, seu maior rival. O jornalista Tom Cardoso, autor da biografia Sócrates: A história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro, escreve: “O futebol era pequeno demais para a grandeza de suas ideias, e ele se engajou intensamente na vida pública do país. Idealista e rebelde, o meio-campista genial que desafiava as autoridades e incomodava os cartolas carregava no nome a paixão pelo Brasil”. 

Algo bastante existencial e filosófico, vale a pena mencionar, foram as palavras ditas pelo médico psiquiatra e psicólogo do Corinthians na época das “Diretas Já”, Flávio Gikovate, sobre Sócrates: “Ele vai jogar mal, porque está muito feliz hoje”, dizia. Ou “ele vai jogar bem, porque brigou com a mulher e está triste”. Segundo o especialista, que conviveu diretamente com o atleta, o camisa 8 performava melhor quando estava com problemas pessoais ou deprimido, e rendendo menos quando estava eufórico e feliz. Quantas vezes Sócrates fez muitos adeptos felizes enquanto passava por pesados dilemas emocionais e subjetivos? Provavelmente, inúmeras. 

O camisa 8 ousou sonhar. Sonhou com uma sociedade igual, sem distinções e com melhores oportunidades e direitos para todos. Usou do seu dom esportivo não para benefício próprio, mas como instrumento que o alavancaria como representante de uma classe social marginalizada. Não teve medo de expor suas ideias. A simbologia de Sócrates extrapola a compreensão do papel social que o futebol possui na vida de milhões de pessoas. Foi um intelectual orgânico que não veremos tão cedo. Ainda mais hoje, com um futebol inflado economicamente e fora da realidade. Fazendo alusão ao fim do homônimo filósofo grego que foi condenado e morto na Antiguidade, hoje os grandes cartolas condenariam e dariam cicuta para o Sócrates brasileiro. Diferente do filósofo grego, o doutor dificilmente aceitaria e beberia calado.  

 

Railson Barboza é doutor em Política Social (UFF) e Bacharel em Filosofia (PUC-Rio). Imortal da Academia Fluminense de Letras. 

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