Quando a política se transforma em fé
Pouco a pouco, a fronteira entre religião e Estado vai tornando-se cada vez mais frágil e difusa
Quando era adolescente, lembro que, certa vez, em um sábado de manhã, um grupo religioso missionário tocou a campainha de casa e fui atendê-los. Queriam me convencer da palavra de Deus. Como sempre me interessei pelo Antigo Testamento e pela arqueologia, incluindo o surgimento do ser humano, comecei o que pensei que seria uma conversa entre pessoas com opiniões diferentes, sobre quais seriam as evidências científicas de que descendíamos de Adão e Eva, e não de processos de evolução biológica. Durante semanas, todos os sábados de manhã, essas pessoas voltavam com os mesmos discursos sobre o que dizia a Bíblia, pois, para elas, tratava-se da palavra de Deus, enquanto eu buscava publicações e argumentos científicos sobre as últimas descobertas da ciência, pensando que poderia os fazer entender a diferença entre fé e ciência.
Era uma discussão interminável: não importavam as evidências nem as informações apresentadas, porque qualquer dado contrário às crenças daquelas pessoas era imediatamente negado. Depois de quase dois meses desses encontros na porta de casa, e contra a minha vontade, meu pai interveio e simplesmente disse para aqueles religiosos que não voltassem mais ou chamaria a polícia. Demorei para perceber que nunca se tratou de uma discussão de ideias, mas de uma disputa de fé. E a fé não funciona no plano racional.
Basta refletir sobre a história da humanidade para entender que o poder político sempre esteve profundamente associado à religião. Reis, imperadores e governantes legitimavam sua autoridade por meio de uma suposta conexão direta com o divino. Em alguns casos, o soberano era considerado um deus vivo; em outros, um representante de deus na Terra. Atualmente, o Vaticano é talvez um dos exemplos mais visíveis dessa lógica: os fiéis não escolhem diretamente seu líder, mas um grupo restrito de cardeais decide quem ocupará o cargo máximo. Até o momento da eleição, o futuro papa é apenas mais um homem dentro da Igreja. Mas, após o ritual, muda de nome, de vestimenta e de posição no mundo. Renasce simbolicamente investido de uma autoridade transcendente.
Em outras sociedades, o caráter sagrado do poder é depositado em determinadas famílias, estabelecendo linhagens políticas e religiosas que atravessam gerações. Em ambos os casos, o resultado é semelhante: sistemas profundamente antidemocráticos que se perpetuam em razão do sustento simbólico da fé.
As democracias modernas tentaram romper com essa lógica. Não por acaso, muitas de suas constituições estabeleceram a separação entre Estado e religião como condição fundamental para garantir a existência de cidadãos livres, e não de súditos obedientes. A política deveria transformar-se em um espaço de debate racional entre projetos, interesses e ideias, e não em uma disputa entre fiéis.

No entanto, nas últimas décadas, assistimos a um processo inverso. A política voltou a adquirir traços religiosos. Os novos pastores misturam espetáculo, fé e poder político. Já não basta controlar templos (que em muitos casos viraram fábricas de eleitores): o sonho de toda grande igreja é controlar meios de comunicação, rádios, canais de televisão e, mais recentemente, as redes sociais, com influenciadores digitais religiosos. A lógica é poderosa: convencer as pessoas de que elas não estão discutindo política, mas o bem contra o mal, Deus contra o demônio. Quando isso acontece, desaparece a possibilidade de argumentação racional. A fé não se debate; vive-se. E justamente por isso ela é uma das forças mais potentes de mobilização coletiva que existem.
Esse fenômeno de mistura entre política e religião não se limita ao Brasil. Existem exemplos em diversas partes do mundo: Irã, Arábia Saudita, Estados Unidos, Israel, entre muitos outros. No mundo ocidental, vem crescendo o poder dos grupos associados ao “dominionismo”, corrente teológica e política cristã que defende que os cristãos possuem um mandato divino para ocupar posições de poder e assumir o controle das instituições civis e seculares da sociedade.
No caso brasileiro, essa situação torna-se cada vez mais visível. Uma pesquisa recente mostrou que grande parte dos eleitores do candidato presidencial Flávio Bolsonaro continua apoiando-o mesmo após as revelações sobre suas relações com figuras polêmicas e esquemas ocultos de poder. Para muitos de seus eleitores, tudo não passaria de uma invenção, uma perseguição contra alguém que se autoproclamou representante “de um projeto de Deus” para combater os inimigos da nação e da fé. O ponto central já não é se as acusações são verdadeiras ou falsas. O importante é que, para muitos seguidores, nenhuma evidência é capaz de alterar essa crença sustentada pela fé.
Seu próprio pai, Jair Bolsonaro, em 2018, deixou de ocupar uma posição política marginal para transformar-se em uma figura quase messiânica, capaz de transferir legitimidade aos filhos e a todo um campo político que depende simbolicamente dele. E é interessante fazer um paralelo com aquilo que foi mencionado anteriormente quando me referi ao processo de transformação de uma pessoa em pontífice: um sujeito comum que, já na etapa final da vida, é proclamado líder por vontade divina, em uma espécie de renascimento, passa a ter sua história recontada de forma completamente diferente (obviamente com algumas partes apagadas), e qualquer acontecimento banal de sua trajetória passa a ser reinterpretado como sinal de uma escolha direta de Deus.
Esse processo de mistura entre fé e política é profundamente preocupante porque destrói a própria base dos princípios democráticos. Quando o adversário deixa de ser visto como um oponente legítimo e passa a representar o mal absoluto, qualquer diálogo se torna impossível. A crítica é interpretada como blasfêmia; a dúvida, como traição.
Nesse contexto, o Congresso corre o risco de transformar-se em um grande templo ocupado por pastores-deputados e senadores – e agora também por ministros da mais alta corte – que falam mais em nome de verdades reveladas do que de projetos políticos e demandas populares. Pouco a pouco, a fronteira entre religião e Estado vai tornando-se cada vez mais frágil e difusa.
A história demonstra que sociedades organizadas em torno de lideranças “sagradas” tendem a produzir formas autoritárias de poder. Quando a política se transforma em fé, os cidadãos deixam de agir como sujeitos críticos e passam a comportar-se como fiéis. E ali onde a fé substitui o debate, a democracia começa lentamente a desaparecer.
Andrés Zarankin é professor titular do Departamento de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais.

