Tradução de “O futebol ‘é’ uma linguagem com os seus poetas e prosadores”, de Pasolini

A cultura brasileira possui forte relação com o esporte, sendo um dos elementos rapidamente associados à nossa identidade nacional que, querendo ou não, atua como um fato social sobre nossas produções de coletividade

A próxima Copa do Mundo FIFA se torna visível no horizonte de 2026 e, junto a ela, organizações de horários, debates, conversas, happy hour, encontros e desencontros. Mais próximo ou não da cultura futebolística não há como negar que ainda é um evento global que mobiliza paixões e sentimentos – tal qual a política –, compondo ou não relações. Muito se fala que a seleção brasileira “não tem mais escola”, “harmonia de equipe” ou coisa do tipo, mas, na realidade, o futebol vai muito além dos minutos em campo e pode ser analisado sob muitas variáveis. Nosso futebol contemporâneo é mais prosaico ou poético?

A cultura brasileira possui forte relação com o esporte, sendo um dos elementos rapidamente associados à nossa identidade nacional que, querendo ou não, atua como um fato social sobre nossas produções de coletividade. Em acordo com Paolo Demuru em sua tese: “se diz que os estereótipos possuem todos um fundo de verdade. Pouco importa. Bem mais interessante, acredito, é entender como a verdade se constrói historicamente enquanto tal”.[1]

Embora se observe um aparente declínio da animação em torno do futebol durante períodos festivos – seja pela ausência de títulos nas últimas cinco Copas do Mundo, seja pela crescente exposição político-econômica dos altos escalões das entidades organizadoras, dos clubes e até mesmo de alguns jogadores, afinal, futebol, religião e política se misturam e são, sim, objeto de debate –, o espírito da torcida coletiva permanece vivo, ainda que sob novas formas. De todo modo, no estilo polêmico e crítico de Pasolini, torcedor do Bologna FC, podemos compreender as dinâmicas esportivas sob óticas linguísticas, culturais e também – sempre – políticas.[2]

Foto: Rafael Ribeiro Rio/CBF

Segue a tradução:

No debate em curso sobre problemas linguísticos que artificialmente dividem literatos dos jornalistas, e jornalistas dos jogadores, fui interrogado por uma gentil jornalista para o Europeo: mas minhas respostas na revista foram resultadas um pouco desfavorecidas e limitadas (pelas exigências jornalísticas!). Como o tema me agrada, vou retornar a ele com um pouco de calma e com a plena responsabilidade do que digo. O que é uma língua?  “Um sistema de signos”, responde no modo hoje mais exato um semiólogo. Mas esse “sistema de signos” não é somente necessariamente uma língua escrita-falada (esta que usamos agora, eu escrevendo, e você, leitor, lendo).

Os “sistemas de signos” podem ser muitos. Tomemos um caso: eu e você, leitor, nos encontramos em uma sala onde estão presentes também Ghirelli e Brera, e você vai me dizer algo de Ghirelli que Brera não deve ouvir. Então não pode me falar por meio do sistema de signos verbais: deve por força adotar um outro sistema de signos: por exemplo, aquele da mímica: assim começa a torcer os olhos, a fazer caretas, a agitar as mãos, a gesticular com os pés, etc. etc. é o “cifrador” de um discurso “mímico” que eu decifro: o que significa que possuímos em comum um código “italiano” de um sistema de signos mímicos.

São vinte e dois “podemas”.[3] Um outro sistema de signos não verbais é aquele da pintura; ou aquele do cinema; ou aquele da moda (objeto de estudos de um grande mestre neste campo, Roland Barthes), etc., etc. O jogo de futebol [football] é um “sistema de signos”; é, o que, uma língua, seja pura não verbal. Porque faço esse discurso (que quero depois esquematicamente prosseguir)? Porque a querela que põe uma contra a outra a linguagem dos literatos e aquelas dos jornalistas é falsa. E o problema é um outro.

Vejamos. Toda língua (sistema de signos escrito-falado) possui um código geral. Tomemos o italiano: eu e você, leitor, usando este sistema de signos, o compreendemos, porque o italiano é um patrimônio comum nosso, “uma moeda de troca”. Cada língua, porém, é articulada em várias sublínguas, das quais todas possuem um código: assim, os italianos médicos se compreendem entre si – quando falam seu jargão especializado –porque todos deles conhecem a sublíngua da língua médica; os italianos teólogos se compreendem entre si porque possuem o subcódigo do jargão teológico, etc., etc. Também a língua literária é uma língua de jargões que possui um subcódigo (em poesia, por exemplo, ao invés de dizer “esperança” [speranza] se pode dizer “speme”, mas nenhum de nós se maravilha com essa coisa bufa, porque é conhecido que o subcódigo da língua literária italiana requer e permite que em poesia se use latinismo, arcaísmo, palavras truncadas, etc. etc.

O jornalismo não é um ramo menor da língua literária: para compreendê-lo nos valemos de uma espécie de subcódigo. Em palavras simples, os jornalistas nada mais são do que escritores, que, para se popularizar e simplificar conceitos e representações, se valem de um código literário, digamos – para ficar no campo esportivo – de série BMesmo a linguagem de Brera está na série B em relação à de Carlo Emilio Gadda e à de Gianfranco Contini.

E aquela de Brera é talvez o caso mais dignamente qualificado do jornalismo esportivo italiano. Não existe, portanto, conflito “real” entre a escrita literária e escrita jornalística; é esta segunda, que, periférica como sempre foi agora exaltada pelo seu emprego na cultura de massa (que não é popular!!), mostra pretensão um pouco soberba, de novo-rico. Mas vamos ao futebol.

O futebol é um sistema de signos, isto é, uma linguagem. Isso tem todas as características fundamentais da linguagem por excelência, aquele que nós colocamos rapidamente como termos de comparação, ou seja, a linguagem escrita-falada. De fato, as “palavras” da linguagem do futebol se formam exatamente como as palavras da linguagem escrita-falada. Agora, como se formam essas últimas? Elas se formam através da chamada “dupla articulação”, ou seja, através das infinitas combinações dos “fonemas” que são, em italiano, as 21 letras do alfabeto.

Os “fonemas” são, portanto, as “unidades mínimas” da língua escrita-falada. Queremos nos divertir definindo a unidade mínima da língua do futebol? Eis: “Um homem que usa os pés para chutar uma bola” é tal unidade mínima: tal “podema” (se quisermos continuar a nos divertir). As infinitas possibilidades de combinações dos “podemas” formam as “palavras futebolísticas”; e o conjunto das “palavras futebolísticas” formam um discurso, regulado por verdadeiras e próprias normas sintáticas.

Os “podemas” são vinte e dois (cerca, portanto, como os fonemas); as “palavras futebolísticas” são potencialmente infinitas, porque infinitas são as possibilidades de combinações dos “podemas” (ou seja, na prática, os passes da bola entre jogadores e jogadores); a sintaxe se exprime na “partida”, que é um verdadeiro e próprio discurso dramático.

Os melhores dribladores do mundo. Os cifradores desta linguagem são os jogadores, nós, nas arquibancadas, somos os decifradores: em comum, portanto, possuímos um código. Quem não conhece o código do futebol não compreende o “significado” das suas palavras (os passes) nem o sentido do seu discurso (um conjunto de passes).

Não sou nem Roland Barthes nem Greimas, mas como amador [dilettante], se quisesse, poderia escrever um ensaio bem convincente sobre este assunto, sobre “língua do futebol”. Penso, no entanto, que se poderia também escrever um belo ensaio intitulado Propp aplicado ao futebol: porque, naturalmente, como toda língua, o futebol tem seu momento puramente “instrumental” rigidamente e abstratamente regulado pelo código e o seu momento “expressivo”.[4]

Disse, de fato, que sobre como toda língua se articula em várias sublínguas, cada uma possuindo um subcódigo. Ora, também para a língua do futebol se pode fazer distinção do gênero; também o futebol possui subcódigos, pelo momento em qual, por puramente instrumental, se torna expressivo. Pode haver um futebol como linguagem fundamentalmente prosaica e um futebol como linguagem fundamentalmente poética. Pare explicar-me, darei – antecipando as conclusões – alguns exemplos:

Bulgarelli joga um futebol em prosa: ele é um “prosador realista”; Riva joga um futebol em poesia: ele é um “poeta realista”. Corso joga um futebol em poesia: mas não é um “poeta realista”: é um poeta um pouco maldito [maudit], extravagante. Rivera joga um futebol em prosa: mas a sua é uma prosa poética, de “elzevir”. Também Mazzola é um elzevirista, que poderia escrever no “Corriere della Sera”: mas é mais poeta que Rivera; às vezes ele interrompe a prosa e inventa no momento dois versos fulgurantes.

Se nota bem que entre a prosa e a poesia não faço distinção de valor; a minha é uma distinção puramente técnica. Todavia, entendemos; a literatura italiana, especialmente a recente, é a literatura dos “elzevires”: são elegantes e, no limite, estetizantes; o fundo é quase sempre conservadora e um pouco provincial… em suma, democrata-cristã. Entre todas as linguagens que se falam em uma país, mesmo as mais coloquiais e complexas, existe um terreno comum: que é a “cultura daquele país: a sua atualidade histórica”.

Assim, próprio por razões de cultura e de história, o futebol de alguns povos é fundamentalmente em prosa: prosa realista ou prosa estetizante (esta última é o caso da Itália): enquanto o futebol de outros povos é fundamentalmente em poesia.

Há momentos no futebol exclusivamente poéticos: se tratam dos momentos do “gol” [goal]. Todo gol é sempre uma invenção, é sempre uma subversão do código: cada gol é inevitabilidade, fulguração, estupor, irreversibilidade. Próprio como toda palavra poética. O artilheiro de um campeonato é sempre o melhor poeta do ano. Neste momento o é Savoldi. O futebol que exprime mais gols é o futebol mais poético.

Até o “drible” [dribbling] é por si poético (embora nem “sempre” como a ação do gol). De fato, o sonho de cada jogador (compartilhado por todo espectador) é partir do meio-campo, driblar todos e marcar. Se, entre os limites consentidos, se pode imaginar no futebol uma coisa sublime, é esta. Mas nunca acontece. É um sonho (que apenas vi realizado nos “Magos da bola” [Maghi del pallone], de Franco Franchi, que, seja puro nível bruto, conseguiu ser perfeitamente onírico).

Quem são os melhores “dribladores” do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros. Portanto seu futebol é um futebol de poesia: e isso é, de fato, tudo definido sobre drible e sobre gol.

O ferrolho [catenaccio] e a triangulação (que Brera chama geometria) são um futebol de prosa: isso é, de fato, baseado na sintaxe, ou seja, sobre jogo coletivo e organizado: isto é, sobre execução racionalizada do código. O seu único momento poético é o contra-ataque, com o “gol” que o acompanha (que, como vimos, só pode ser poético). Em suma, o momento poético do futebol parece ser (como sempre) o momento individualista (drible e gol; ou passe inspirado).

O futebol em prosa é aquele chamado sistema (o futebol europeu): seu esquema é o seguinte: ferrolho à triangulações à conclusões

Nesse esquema, o gol é encarregado da “conclusão”, possivelmente por um “poeta realista” como Riva, mas deve resultar de uma organização coletiva do jogo, fundada em uma série de passes “geométricos” executados de acordo com as regras do código. Rivera, nesse aspecto, é perfeito: a Brera, porém, ele não agrada, pois se trata de uma perfeição um tanto estetizante, e não realista, como a dos meio-campistas ingleses ou alemães.

O futebol em poesia é aquele futebol latino-americano: seu esquema é o seguinte: arrancadas concêntricas [discese concentriche] à conclusões

Esquema que para ser realizado deve alcançar uma capacidade monstruosa de driblar (coisa que na Europa é esnobada em nome da “prosa coletiva”): e o gol pode ser inventado por qualquer um e de qualquer posição. Se driblar e gol são momentos individualistas poéticos do futebol, então o futebol brasileiro é um futebol de poesia. Sem fazer distinção de valores, mas em sentido puramente técnico, no México foi a prosa estetizante italiana a ser derrotada pela poesia brasileira.

 

Maurício Brugnaro Júnior é sociólogo, cientista político e antropólogo pelo IFCH/Unicamp, mestrando em História pela mesma instituição e professor de curso pré-universitário popular.

 

[1] DEMURU, Paolo. Essere in gioco: Calcio e Cultura tra Barsile e Itália. Bologna: Bononia University Press, 2014, p. 13.

[2] Publicado como Il calcio “é” un linguaggio com i suoi poeti e prosatori no jornal Il Giorno, em 3 de janeiro de 1971.

[3]  Ao longo do escrito Pasolini elabora neologismos, como: “podema” (fonema + podos, do grego).

[4] Pasolini faz referência a Vladimir Propp.

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