UM AVISO POLÍTICO, SOCIAL E CIVILIZATÓRIO

O anunciado El Niño e as comunidades invisíveis da Amazônia

O que transforma um fenômeno natural em desastre social é a combinação entre crise climática, desmatamento, queimadas, desigualdade, racismo ambiental, ausência de políticas públicas

O anúncio de um novo El Niño não pode ser tratado como uma simples notícia meteorológica. Para a Amazônia, ele não chega apenas como uma variação natural do clima, mas como um aviso político, social e civilizatório. Quando os cientistas anunciam a possibilidade de um novo ciclo de aquecimento das águas do Pacífico, o que está sendo anunciado, na prática, é a possibilidade concreta de mais seca, mais calor, mais rios vazios, mais comunidades isoladas, mais fome, mais doenças, mais fumaça e mais sofrimento para povos que historicamente já vivem à margem das prioridades do Estado brasileiro.

O El Niño, sozinho, não explica a tragédia. Ele é um fenômeno climático conhecido, estudado, monitorado e anunciado com antecedência. O que transforma um fenômeno natural em desastre social é a combinação entre crise climática, desmatamento, queimadas, desigualdade, racismo ambiental, ausência de políticas públicas e um modelo de desenvolvimento que trata a Amazônia como fronteira de exploração, e não como território de vida. A seca, portanto, não é apenas falta de chuva. A seca é também falta de governo, falta de planejamento, falta de justiça, falta de escuta e falta de compromisso com quem vive na floresta.

A última grande seca na Amazônia deveria ter sido suficiente para mudar a forma como o Brasil olha para seus rios, suas comunidades e seus territórios. Vimos embarcações encalhadas na lama, famílias sem acesso à água potável, comunidades ribeirinhas impedidas de sair para buscar alimentos, crianças e idosos adoecendo com a fumaça, escolas paralisadas, postos de saúde sem estrutura, produção agrícola perdida, peixes morrendo, quelônios desaparecendo, animais silvestres sem abrigo, cidades cobertas por fumaça e uma sensação generalizada de abandono. A imagem mais dura daquele período não foi apenas a dos rios secos, mas a de um país que assistiu de longe, quase em silêncio, ao sofrimento de milhares de amazônidas.

Agora, diante de um novo alerta, a pergunta que precisa ser feita é simples e incômoda: o que foi aprendido? Onde estão os planos emergenciais? Onde estão os estoques de alimentos e medicamentos? Onde estão os sistemas de abastecimento de água adaptados à realidade das comunidades isoladas? Onde estão os protocolos de proteção à saúde

diante da fumaça? Onde estão os barcos, as equipes de saúde, os recursos para comunicação, os planos para garantir transporte escolar, energia, segurança alimentar e apoio às famílias que dependem dos rios para viver? Onde está a sociedade brasileira que diz defender a Amazônia, mas muitas vezes só enxerga a floresta como paisagem, carbono ou símbolo internacional?

A Amazônia não é um vazio verde. A Amazônia é habitada. Tem nome, rosto, memória, trabalho, cultura, espiritualidade e resistência. São povos indígenas, comunidades ribeirinhas, quilombolas, extrativistas, pescadores artesanais, agricultores familiares, mulheres, juventudes, parteiras, professores, agentes comunitários de saúde, lideranças locais e organizações de base que sustentam a vida nos territórios. São essas comunidades que protegem a floresta todos os dias, muitas vezes sem qualquer reconhecimento. Mas quando chega a seca extrema, quando o rio baixa e a vida fica suspensa, são elas também as primeiras a sofrer e as últimas a receber ajuda.

A invisibilidade dessas comunidades é uma escolha política. O Brasil conhece a Amazônia quando precisa vender uma imagem verde ao mundo, quando precisa discursar em conferências internacionais, quando quer anunciar metas climáticas ou captar recursos em nome da floresta. Mas o mesmo Brasil se mostra lento, burocrático e indiferente quando a floresta vira território de emergência social. Há uma contradição profunda entre o país que celebra a Amazônia nos palcos internacionais e o país que abandona seus povos quando os rios secam.

As reflexões sobre o anúncio do El Niño precisam partir dessa contradição. Não basta dizer que estamos diante de um fenômeno climático. É preciso dizer que estamos diante de uma crise produzida por um sistema econômico que separa humanidade e natureza, que transforma rios em corredores logísticos, florestas em estoque de carbono, territórios em ativos financeiros e povos tradicionais em obstáculos ao crescimento. O capitalismo fóssil e extrativista aqueceu o planeta, intensificou eventos extremos, destruiu ecossistemas, concentrou riqueza e jogou sobre os mais pobres o peso da crise que eles não produziram.

Foto: Creative Commons

A seca amazônica é uma expressão concreta da injustiça climática. Quem mais sofre com a crise climática é justamente quem menos contribuiu para causá-la. As comunidades ribeirinhas não enriqueceram com o petróleo. Os povos indígenas não lucraram com o desmatamento. Os pescadores artesanais não controlam as grandes cadeias globais de commodities. As mulheres que carregam água, cuidam dos filhos doentes e garantem a alimentação da família durante a estiagem não decidiram a política energética do país. No entanto, são elas e eles que pagam primeiro a conta do aquecimento global, da destruição dos rios, da fumaça das queimadas e da ausência do Estado.

A última grande seca também revelou o fracasso de um modelo de desenvolvimento que insiste em empurrar a Amazônia para a dependência de grandes obras, combustíveis fósseis, mineração, agronegócio, hidrovias, portos, estradas e exploração de petróleo e gás. Enquanto os cientistas alertam para o aumento dos extremos climáticos, setores econômicos continuam defendendo mais perfuração, mais desmatamento, mais infraestrutura para escoar commodities e mais flexibilização ambiental. É como se o incêndio fosse respondido com gasolina. É como se a seca fosse tratada como acidente, enquanto suas causas estruturais seguem sendo financiadas, autorizadas e celebradas.

O El Niño anunciado deveria provocar uma mobilização nacional imediata. Mas o que se vê, até agora, é a repetição perigosa da normalidade. Governos reagem tarde. Planos são anunciados depois da tragédia. Recursos chegam quando a emergência já destruiu a produção, a saúde e a dignidade das famílias. A prevenção continua sendo tratada como gasto, e não como obrigação. A ciência produz alertas, mas os alertas não se transformam em política pública com a velocidade necessária. A Amazônia segue sendo monitorada por satélites, mas abandonada no chão concreto das comunidades.

Não basta monitorar o clima. É preciso cuidar das pessoas. Não basta prever o nível dos rios. É preciso garantir água, alimento, saúde, transporte, comunicação e proteção social. Não basta decretar emergência quando a seca já chegou. É preciso construir, antes dela, uma política permanente de adaptação climática a partir dos territórios. Isso significa ouvir as comunidades, fortalecer suas organizações, apoiar os saberes locais, garantir recursos diretos, criar brigadas comunitárias, estruturar sistemas de abastecimento descentralizados, proteger nascentes, recuperar áreas degradadas, assegurar transporte fluvial emergencial, ampliar a atenção básica de saúde e reconhecer que adaptação climática não pode ser desenhada de gabinete para baixo.

A sociedade brasileira também precisa ser chamada à responsabilidade. Durante a última grande seca, parte do país tratou a Amazônia como uma notícia distante. Houve comoção pontual, campanhas de solidariedade, imagens fortes nas redes sociais, mas pouca indignação. A mesma sociedade que se emociona com a floresta queimando precisa compreender que não existe floresta sem povo. Defender a Amazônia não é apenas defender árvores, biodiversidade ou créditos de carbono. Defender a Amazônia é defender o direito de suas comunidades viverem com dignidade, com água limpa, comida, saúde, transporte, energia, comunicação e segurança.

Há uma dimensão moral nessa crise. Um país que abandona seus povos diante de uma catástrofe anunciada não pode se declarar ambientalmente responsável. Um Estado que sabe que a seca virá, que conhece os territórios mais vulneráveis, que possui dados, mapas, alertas e instituições técnicas, mas não organiza uma resposta antecipada, pratica uma forma de negligência climática. E essa negligência tem cor, classe e território. Ela pesa mais sobre os corpos indígenas, negros, ribeirinhos, pobres e periféricos. Ela pesa mais sobre mulheres e crianças. Ela pesa mais sobre quem vive longe dos centros de decisão.

O que esperar dos governos? Em primeiro lugar, que parem de agir como se cada seca fosse surpresa. A Amazônia precisa de um plano integrado e permanente de enfrentamento aos extremos climáticos, com participação real das comunidades. Esse plano deve articular União, estados, municípios, organizações sociais, universidades, movimentos populares e redes territoriais. Deve garantir orçamento, logística e responsabilidades claras. Deve incluir mapeamento das comunidades mais vulneráveis, rotas alternativas de abastecimento, estoques de alimentos, medicamentos e combustível, sistemas de purificação de água, atendimento à saúde respiratória, apoio à produção comunitária, comunicação emergencial e políticas específicas para povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e extrativistas.

Em segundo lugar, é preciso que os governos abandonem a falsa ideia de que adaptação climática pode conviver com a expansão predatória do modelo fóssil e extrativista. Não se protege a Amazônia abrindo novas fronteiras de petróleo e gás. Não se enfrenta a seca ampliando desmatamento. Não se cuida dos povos da floresta reduzindo licenciamento ambiental. Não se combate a crise climática fortalecendo as mesmas estruturas econômicas que a produziram. A resposta precisa ser uma transição ecológica justa, popular e enraizada nos territórios, que reduza a dependência dos combustíveis fósseis, fortaleça a economia da sociobiodiversidade, respeite os direitos territoriais e coloque a vida acima do lucro.

Em terceiro lugar, é preciso reconhecer que os povos da Amazônia não são vítimas passivas. Eles são sujeitos políticos, guardiões de conhecimento e protagonistas de soluções. As comunidades sabem ler o rio, a floresta, os ventos, os ciclos dos peixes, o comportamento dos animais, os sinais da estiagem. A ciência climática precisa dialogar com esses saberes. A política pública precisa ser construída junto com quem vive a realidade da seca no corpo e no território. Nenhuma estratégia de adaptação será justa se não partir da escuta e do protagonismo dos povos amazônicos.

O que esperar da sociedade brasileira? Que rompa com a indiferença. Que compreenda que a seca na Amazônia não é um problema regional, mas uma ferida nacional. Que pressione governos, empresas e parlamentos. Que denuncie o negacionismo climático e o oportunismo verde. Que apoie as organizações amazônicas de base. Que rejeite soluções falsas, como a financeirização da natureza sem direitos territoriais, e assuma que justiça climática exige redistribuição de poder, de recursos e de voz.

Não podemos esperar a fumaça cobrir Manaus, Santarém, Porto Velho, Rio Branco ou Belém para lembrar que respirar é um direito. Não podemos esperar as comunidades ficarem isoladas para discutir logística. Não podemos esperar crianças adoecerem para organizar atendimento médico. Não podemos esperar a tragédia para praticar solidariedade.

A Amazônia está entrando em uma era de extremos. Secas mais intensas, cheias mais violentas, calor mais persistente, fumaça mais frequente e maior instabilidade nos ciclos da vida já fazem parte da realidade dos territórios. A questão não é mais saber se novos eventos extremos virão. Eles virão. A questão é saber se o Brasil continuará tratando os povos da Amazônia como invisíveis ou se finalmente reconhecerá que a proteção da floresta começa pela proteção de quem vive nela.

Uma resposta à crise climática amazônica precisa afirmar, com clareza, que não há saída individual para uma tragédia coletiva. Não haverá adaptação verdadeira sem justiça social. Não haverá proteção da floresta sem direitos territoriais. Não haverá futuro climático sem enfrentar o poder das corporações fósseis, do agronegócio predatório, da mineração e das falsas soluções de mercado. E não haverá Brasil democrático enquanto a Amazônia continuar sendo lembrada apenas quando arde, seca ou vira vitrine internacional.

O El Niño pode ser um fenômeno natural. Mas o abandono não é. A seca pode ser agravada pelo clima. Mas a fome, a sede, o isolamento e a morte evitável são escolhas políticas. Se o país já sabe que a crise se aproxima e, mesmo assim, não se prepara, então não estamos diante apenas de um desastre climático. Estamos diante de uma injustiça anunciada.

Que desta vez a Amazônia não sofra sozinha. Que desta vez os alertas dos cientistas sejam transformados em ação concreta. Que desta vez os governos cheguem antes da tragédia. Que desta vez a sociedade brasileira olhe para os povos da floresta não como vítimas distantes, mas como parte essencial do nosso destino comum. Porque quando os rios da Amazônia secam, não é apenas a floresta que adoece. É o próprio país que revela a profundidade de sua crise ética, política e civilizatória.

 

Adilson Vieira é sociólogo, Mestre em Ciência, Tecnologia e Educação e Dr. em Sociologia. Pesquisador e militante socioambiental amazônico. Atua na Rede de Trabalho Amazônico – GTA, no FBOMS, no Instituto de pesquisa e Desenvolvimento Amazônico e na Associação Alternativa Terrazul.

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