Uma nova pandemia?
É mais fácil culpar o outro por nossas crises do que reconhecer que problemas atuais – alimentados pelos bilionários das big techs – decorrem do capitalismo agressivo, da concentração de poder e da dificuldade crescente de imaginar um futuro melhor
Parece que estamos sofrendo de uma espécie de nostalgia. Antes de prosseguir, vale destacar que essa palavra, como afirma a filósofa e filóloga francesa Barbara Cassin, no livro A nostalgia, embora soe “perfeitamente grega, a partir de nostos, o ‘retorno’, e algos, a ‘dor’, o ‘sofrimento’” (tradução de Cláudio Oliveira), é, na verdade, um termo suíço-alemão, “o nome de uma doença repertoriada como tal somente no século XVII”. A classe médica teria, portanto, “fabricado essa palavra, assim como ‘lombalgia’ ou ‘nevralgia’”.
Nesse livro, Cassin reflete sobre os usos, sobretudo modernos, dessa noção, associada “a todas as ambiguidades, por vezes aterrorizantes, do (estar) em casa e do patriotismo, de home a Heimat, até o culto do solo e do sangue que o fascismo e o nazismo veicularam”.
A nostalgia de que falarei não estaria, porém, relacionada à falta da casa ou de uma determinada pátria, na qual existe um vínculo real, de memória, entre a pessoa e tal localidade, sua língua, suas cantigas etc. Tratarei aqui da nostalgia de tempos passados, sendo que, neste caso, muitos nostálgicos, por serem jovens, nem viveram aqueles tempos, mas, ainda assim, sentem falta de algo daquela época, que lhes foi vendida como quase perfeita.
Segundo esse marketing, o retorno ao passado idílico parece simples, mas o que quero destacar é que a nostalgia, aqui, estaria ligada às pautas de costumes, que se baseiam muitas vezes nas escrituras sagradas, as mesmas que afirmam coisas como: “Assim declara o SENHOR dos Exércitos: Castigarei Amaleque pelo que fez a Israel, ao se opor a Israel no caminho, quando estes subiam do Egito. Vai agora, ataca Amaleque e destrói por completo tudo o que ele tem; não poupes nada, mas mate homens e mulheres, crianças e bebês, bois e ovelhas, camelos e jumentos” (Samuel 15:2 -3).
O fato é que, no nosso tempo, as minorias voltaram à posição de bodes-expiatórios, para seguirmos com referências bíblicas, ou seja, elas, embora possam clamar por inocência, são sempre vistas como responsáveis pelo mal da humanidade.

Parece mais fácil atribuir ao outro a origem das nossas mazelas sociais do que pensar que os problemas atuais, como aqueles criados, por exemplo, pelos bilionários das big techs, nossos verdadeiros dirigentes, têm origem no capitalismo agressivo, na sanha de poder e, consequentemente, na nossa impossibilidade de vislumbrar um futuro promissor ou pelo menos aceitável.
Ao mesmo tempo que sofremos da nostalgia do passado, paradoxalmente, corremos rumo ao futuro tecnológico, às inovações (seja lá o que isso signifique) e, para tanto, vendemos tudo que nos permitiria habitar de forma digna neste planeta que é de todos nós: água, florestas e terras cada vez mais raras. Ao que tudo indica, o importante é transformar tudo em dinheiro, mesmo que a humanidade, por causa disso, venha a perecer de sede, de fome.
Como chegamos a esse impasse, no qual o obscurantismo ameaça prevalecer sobre o desacreditado bom senso?
Não chegamos aonde estamos da noite para o dia, a esse respeito cabe recordar a expressão latina natura non facit saltus (a natureza não dá saltos).
Recentemente, talvez levada por essa onda nostálgica, assisti a um filme de 2005, Monster-in-Law (“A Sogra”), protagonizado por Jane Fonda e Jennifer Lopez. Um filme do tipo “Sessão da Tarde”, para passar o tempo e não pensar em mais nada.
Logo no início do filme, contudo, uma cena me chamou a atenção: Fonda faz o papel de uma importante apresentadora de televisão, Viola Fields, a qual tem no currículo conversas com grandes nomes da política e da cultura. No seu último programa (ela será substituída por uma apresentadora jovem e inexperiente, até meio boba), Fields recebe uma nova celebridade, ou seja, uma mocinha que é a nova “sensação da música pop”, com milhões de álbuns vendidos (hoje falaríamos de milhões de seguidores), mas que canta mal, dança mal e não tem repertório artístico algum.
A apresentadora, ao longo da conversa, vai ficando cada vez mais incomodada com essa artista sem estofo e então a interrompe para comentar que ela está influenciando uma geração inteira de crianças que, provavelmente, no futuro não saberão, entre outras coisas, votar num presidente. Pareceu-me que esse filme é profético! Em 2017, quando uma nova geração foi às urnas pela primeira vez, Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos pela primeira vez.
Nessa mesma cena, a apresentadora faz uma menção ao caso Roe X Wade, que comentarei a seguir, e a cantora responde que nunca apoiou luta de boxe por achar esse esporte muito violento. Fields pula, literalmente, no pescoço da moça. O programa é interrompido, a apresentadora vai para uma casa de repouso e de lá para a aposentadoria.
O famoso caso Roe X Wade foi uma batalha judicial, travada em 1970, entre Henry Wade, promotor do distrito da cidade de Dallas, Texas, e Jane Roe, pseudônimo de Norma McCorvey. Roe lutava pelo direito de abortar em um estado conservador, em razão de sua gravidez ser consequência de um estupro.
A propósito, não faz muito tempo, a GloboNews, em um programa intitulado “Debates”, promoveu uma conversa entre um conhecido ator com ideias machistas, portanto, obscurantistas, uma psicanalista e um pesquisador em saúde coletiva. O ator teve um tempo generoso para propagar informações falsas e absurdas. Diferentemente da apresentadora da ficção cinematográfica, no programa (sur)real ninguém perdeu a paciência com o ator (não se esperava, obviamente, que pulassem no pescoço dele).
A vida não imitou minimamente a arte nesse caso. Na vida real, “Debate” é uma espécie de diluição de um programa da CNN internacional comandado por Abby Phillips, que, como é do conhecimento geral, caracteriza-se por uma postura aguerrida e teria certamente interrompido o machista.
O fato é que, de 2005, data do filme mencionado, até os dias de hoje, influenciadores vêm se multiplicando, e muitos nem precisam cantar, basta limitam-se a dançar diante da câmera do celular. Entre uma dancinha e outra, entre um “conteúdo” banal e outro deplorável, gerações de seguidores poderão perder o fio da história e abraçar sem vacilar ideias retrógradas.
Dirce Waltrick do Amarante é professora, tradutora e ensaísta. Autora, entre outros, de Interferências: censura, apagamento e outros temas contemporâneos (Iluminuras).

