A inteligência artificial e o novo limite histórico do capitalismo
Quando a humanidade cria uma força produtiva que já não controla democraticamente
A pergunta mais séria sobre a inteligência artificial talvez não seja se as máquinas um dia terão consciência, vontade própria ou desejo de dominar os seres humanos. Essa é a forma espetacular, cinematográfica e muitas vezes empobrecedora do problema. A questão mais profunda é outra: a inteligência artificial será colocada a serviço de fins humanos democraticamente definidos, ou se tornará uma força produtiva autonomizada, comandada pela concorrência, pelo capital e pela geopolítica?
Essa pergunta já não pertence apenas aos círculos técnicos do Vale do Silício. Quando uma revista liberal como The Economist pergunta se a inteligência artificial poderá escapar ao controle humano, e quando documentos recentes da Igreja Católica recolocam a dignidade da pessoa humana no centro da discussão sobre IA, fica claro que estamos diante de um tema civilizatório. Não se trata de uma preocupação marginal de tecnófobos, nem de uma fantasia apocalíptica. Trata-se da percepção, vinda de campos ideológicos distintos, de que a humanidade está produzindo uma nova infraestrutura de poder sem ter construído, ao mesmo tempo, os mecanismos democráticos capazes de governá-la.
A inteligência artificial contemporânea não é apenas um software. Ela é uma condensação histórica de ciência, trabalho, linguagem, energia, dados, infraestrutura, capital financeiro e disputa geopolítica. Por trás da resposta instantânea de um modelo generativo há data centers, semicondutores, redes elétricas, mineração, água para resfriamento, cadeias globais de produção, exércitos de trabalhadores invisíveis e trilhões de dólares em investimento. A aparência imaterial da IA oculta sua materialidade brutal.
A chamada “nuvem” não está no céu. Está em territórios concretos, consome energia concreta, depende de água concreta, ocupa espaços concretos e é controlada por corporações concretas. Essa constatação muda tudo. A IA não deve ser compreendida como uma ferramenta neutra colocada diante da sociedade, mas como uma nova força produtiva organizada segundo relações sociais determinadas.
E aqui a crítica marxista se torna indispensável.
Para Marx, as forças produtivas expressam a capacidade humana de transformar a natureza e organizar a produção da vida. Mas, sob o capitalismo, essas forças não pertencem plenamente à humanidade. Elas são apropriadas privadamente, subordinadas à valorização do capital e frequentemente se voltam contra os próprios seres humanos que as produziram. A máquina, que poderia libertar tempo humano, transforma-se em instrumento de intensificação do trabalho. A ciência, que poderia servir às necessidades sociais, é capturada pela concorrência. A produtividade, que poderia reduzir a jornada e ampliar a liberdade, converte-se em lucro, desemprego e concentração.
A IA radicaliza essa contradição porque não automatiza apenas movimentos físicos ou tarefas repetitivas. Ela automatiza linguagem, classificação, decisão, vigilância, programação, pesquisa, gestão, produção simbólica e parte do trabalho intelectual. Trata-se de uma tecnologia que opera diretamente sobre dimensões centrais da vida social: o trabalho, o conhecimento, a subjetividade, a educação, a comunicação, a política e a própria percepção da realidade.
O risco, portanto, não é simplesmente que uma máquina “pense”. O risco é que a inteligência social acumulada pela humanidade seja apropriada por poucos centros privados e estatais, retornando à sociedade sob a forma de mercadoria, dependência, vigilância e comando.
A IA é inteligência social objetivada. Mas, no capitalismo, a inteligência social objetivada aparece como propriedade privada.
Esse é o núcleo do problema.

A corrida atual por inteligência artificial é também uma corrida por infraestrutura. Estimativas recentes indicam investimentos globais de vários trilhões de dólares em data centers até 2030, grande parte voltada para cargas de IA. O consumo elétrico dos data centers, que já representa parcela relevante da demanda mundial, tende a mais que dobrar nesta década. A IA passa a disputar energia, território, água, chips e capacidade de transmissão elétrica. O que parecia inovação digital revela-se uma nova indústria pesada da cognição.
Essa infraestrutura está profundamente concentrada. Estados Unidos, China e Europa ocupam posição central no consumo, no investimento, nos modelos fundacionais, nos chips, nas patentes e nas empresas dominantes. A concentração não é acidente: ela decorre das barreiras gigantescas de capital, energia, semicondutores, dados e talento científico necessárias para competir na fronteira da IA.
A consequência política é evidente. Quem controla os chips, os centros de dados, os modelos de inteligência artificial, as infraestruturas de computação em nuvem e as plataformas digitais controla uma parcela crescente das condições de produção do conhecimento, da comunicação, da organização do trabalho e da mediação das relações sociais. A IA deixa de ser apenas uma tecnologia e se torna uma infraestrutura de poder.
É por isso que o debate sobre IA não pode ser reduzido a “inovação” ou “regulação ética”. A pergunta decisiva é: quem controla essa infraestrutura? Para quais fins? Com que limites? Sob qual forma de propriedade? Com que participação popular? Em benefício de quais classes, países e territórios?
Sem essas perguntas, a ética da IA corre o risco de se transformar em verniz moral para uma nova etapa de concentração capitalista.
O discurso dominante afirma que a IA aumentará produtividade, eficiência e inovação. Isso pode ser verdadeiro. Mas o capitalismo nunca teve dificuldade em produzir aumentos de produtividade. Sua dificuldade histórica está em converter produtividade em emancipação humana. A grande pergunta não é se a IA produzirá mais riqueza. É quem se apropriará dessa riqueza. Aumentos de produtividade podem significar redução da jornada, ampliação do tempo livre, fortalecimento dos serviços públicos e democratização do conhecimento. Mas também podem significar desemprego, compressão salarial, vigilância permanente, precarização e intensificação do trabalho.
O Fundo Monetário Internacional estima que uma parcela enorme do emprego mundial está exposta à IA, com impacto ainda maior nas economias avançadas. Isso não significa substituição automática de todos os postos, mas revela que a transformação atingirá o coração do trabalho cognitivo. Diferentemente de ondas anteriores de automação, a IA generativa incide sobre tarefas antes associadas à qualificação, à linguagem, à interpretação e à decisão.
Esse ponto é decisivo para o mundo do trabalho. A IA pode ser usada para libertar trabalhadores de tarefas penosas. Mas, sob gestão empresarial orientada por metas, competição e redução de custos, ela tende também a ampliar controle, monitoramento e substituição. Pode medir produtividade em tempo real, classificar desempenhos, prever comportamentos, selecionar trabalhadores, automatizar punições, ranquear resultados e transformar relações humanas em métricas.
Christophe Dejours mostrou que o trabalho não é apenas execução. É espaço de reconhecimento, identidade, cooperação, sofrimento e subjetivação. Quando a organização do trabalho destrói a autonomia e submete o trabalhador a exigências incompatíveis com a saúde, o sofrimento psíquico se converte em adoecimento. A IA, nas mãos do capital, pode aprofundar essa patologia social: menos autonomia, mais vigilância; menos reconhecimento, mais métrica; menos cooperação, mais competição algorítmica.
Nesse sentido, a IA não reorganiza apenas empregos. Ela reorganiza subjetividades.
Fernando González Rey nos ajuda a compreender que a subjetividade não é uma interioridade isolada, mas uma produção simbólico-emocional, histórica e social. Quando algoritmos passam a mediar trabalho, informação, educação, consumo, sociabilidade, desejo e reconhecimento, eles interferem na produção dos sentidos subjetivos. A IA não apenas responde perguntas; ela reorganiza as condições pelas quais as pessoas interpretam o mundo, se percebem, se comparam, aprendem, trabalham e são reconhecidas.
Daí a gravidade do problema democrático.
Sistemas de IA já são usados ou projetados para influenciar crédito, emprego, segurança, saúde, educação, consumo, comunicação e decisões administrativas. Quanto mais esses sistemas se tornam opacos e proprietários, mais a sociedade passa a ser governada por critérios que não compreende. A decisão social aparece como decisão técnica. A política se disfarça de eficiência. A disputa de valores desaparece sob a linguagem da otimização.
Essa é uma nova forma de reificação. Relações sociais aparecem como coisas. Escolhas políticas aparecem como resultados neutros de sistemas. Interesses empresariais aparecem como inovação inevitável. A pergunta “quem decidiu?” é substituída por “o algoritmo indicou”.
Lukács compreenderia esse fenômeno como aprofundamento da reificação: o produto da atividade humana se autonomiza diante dos próprios seres humanos. A inteligência artificial é produzida socialmente, mas aparece como força externa, objetiva, inevitável e incontestável. A humanidade cria a máquina; depois se curva diante dela como se estivesse diante de uma lei natural.
Mas não há nada natural nisso. Há história. Há propriedade. Há classe. Há Estado. Há capital. Há geopolítica.
A discussão sobre “perda de controle” costuma ser apresentada como problema técnico de alinhamento: como garantir que sistemas de IA obedeçam a comandos humanos? Essa questão é importante, mas insuficiente. Alinhamento com quais humanos? Com quais interesses? Com quais valores? Uma IA pode estar perfeitamente alinhada ao objetivo de maximizar lucro e, ainda assim, ser socialmente destrutiva. Pode estar alinhada à eficiência empresarial e produzir adoecimento laboral. Pode estar alinhada à segurança de Estado e ampliar vigilância. Pode estar alinhada ao engajamento de plataformas e degradar a esfera pública.
Portanto, o problema não é apenas alinhar a IA a comandos. É alinhar a infraestrutura tecnológica a valores democráticos, direitos sociais, justiça ambiental, soberania popular e dignidade humana.
Sem isso, “alinhamento” significa apenas obediência técnica a interesses privados.
Há ainda um segundo nível de risco: a IA passa a participar da própria produção da IA. Modelos já auxiliam programação, testes, análise de dados, geração de hipóteses, documentação, depuração de código e desenho de experimentos. Empresas de fronteira discutem abertamente o risco de autoaperfeiçoamento recursivo: sistemas capazes de acelerar a criação de sucessores mais potentes, reduzindo progressivamente o papel humano no ciclo de desenvolvimento.
O perigo aqui não precisa ser imaginado como rebelião consciente. O risco é que os humanos se tornem supervisores formais de processos que já não compreendem materialmente. Em laboratórios com milhares de agentes automatizados testando hipóteses, produzindo código, resumindo resultados e propondo novas arquiteturas, a supervisão humana pode virar chancela posterior de uma cadeia técnica organizada pela própria IA.
Formalmente, humanos continuam no comando. Materialmente, a complexidade, a velocidade e a opacidade do sistema podem tornar esse comando cada vez mais nominal.
Esse é o ponto em que a mega capacidade instalada se torna politicamente perigosa. Uma infraestrutura de trilhões de dólares não permanece neutra. Ela exige uso, retorno, expansão, novos mercados e novas aplicações. Data centers, chips e contratos energéticos pressionam pela ampliação da dependência social da IA. O capital fixo investido torna-se força material de aceleração.
Quanto maior a infraestrutura instalada, maior a pressão para automatizar mais esferas da vida.
Aqui aparece um limite histórico do capitalismo. O sistema é capaz de desenvolver forças produtivas extraordinárias, mas não possui uma finalidade humana universal. Sua finalidade estrutural é a valorização do valor. Ele pode produzir IA para diagnóstico médico, acessibilidade, educação e pesquisa climática. Mas também pode produzi-la para vigilância, guerra, manipulação de comportamento, substituição de trabalho e captura da atenção. A direção dominante será determinada não pela necessidade humana, mas pela rentabilidade, pelo poder e pela competição.
Mészáros identificou no capital um metabolismo expansivo que tende a subordinar todas as esferas da vida à sua lógica. A IA pode se tornar uma das tecnologias mais poderosas dessa expansão: transforma linguagem em dado, atenção em mercadoria, criatividade em insumo, comportamento em previsão, trabalho intelectual em processo automatizável e subjetividade em campo de extração de valor.
Por isso, a crítica à IA não pode ser antitecnológica. Ela precisa ser anticapitalista no sentido mais rigoroso: não contra a técnica, mas contra a forma social que subordina a técnica à acumulação privada.
Um humanismo consequente não rejeita a inteligência artificial. Ao contrário, reivindica a inteligência artificial como produto da inteligência social da humanidade. Se ela é resultado de conhecimento acumulado, trabalho coletivo, ciência pública, linguagem social, dados produzidos por bilhões de pessoas e infraestrutura sustentada por recursos comuns, então seus frutos não podem pertencer apenas a acionistas, fundos, plataformas e Estados militarizados.
A IA deveria ser tratada como questão de bem comum.
Isso exige pensar em governança democrática em escala inédita. Transparência sobre modelos de alto impacto. Auditoria pública independente. Limites ao uso em vigilância, guerra, trabalho e decisões públicas sensíveis. Proteção de dados. Responsabilização por danos. Participação de trabalhadores, universidades, movimentos sociais, sindicatos, comunidades afetadas e países periféricos. Políticas de redução de jornada diante de ganhos de produtividade. Fortalecimento de sistemas públicos. Soberania tecnológica nacional e regional. Cooperação internacional.
Também exige discutir propriedade. Infraestruturas essenciais de IA não podem ser tratadas apenas como ativos privados. Quando uma tecnologia passa a mediar educação, saúde, trabalho, comunicação, ciência e administração pública, ela assume dimensão pública. A sociedade tem direito de decidir sobre seus rumos.
Para países periféricos, como o Brasil, essa discussão é ainda mais urgente. Sem política industrial, investimento público em ciência, infraestrutura computacional soberana, regulação democrática e formação técnica ampla, o país corre o risco de ocupar posição subordinada na nova divisão internacional do trabalho: fornecedor de dados, consumidor de plataformas, exportador de recursos naturais e importador de sistemas decisórios.
A dependência tecnológica pode se tornar dependência cognitiva.
Nesse cenário, o Brasil não pode limitar-se a adaptar leis de proteção de dados ou importar ferramentas estrangeiras. Precisa formular uma estratégia pública de inteligência artificial vinculada à soberania, à educação, ao SUS, à transição ecológica, à proteção do trabalho, à pesquisa científica e à democratização do conhecimento. A IA não deve ser tratada apenas como oportunidade de mercado, mas como questão de projeto nacional e civilizatório.
O debate também é existencial.
Sartre ensinou que a liberdade humana é sempre situada. Os seres humanos não escolhem as condições históricas em que nascem, mas são responsáveis pelo modo como respondem a elas. A IA coloca a humanidade diante de uma responsabilidade histórica inédita. Não podemos nos esconder atrás da frase “a tecnologia avançará de qualquer modo”. Essa frase é a má-fé da nossa época. Transforma escolhas políticas em destino técnico. Isenta empresas, governos e sociedades de responsabilidade. Naturaliza o que é histórico.
A inteligência artificial não é destino. É disputa.
Disputa entre técnica como mercadoria e técnica como bem comum. Entre automação para lucro e automação para liberdade. Entre vigilância e democracia. Entre concentração e justiça social. Entre dependência periférica e soberania tecnológica. Entre subjetividades capturadas e sujeitos capazes de criar sentido.
A recente preocupação de setores tão distintos – da imprensa econômica liberal a reflexões religiosas e humanistas sobre a dignidade da pessoa humana – revela que a questão ultrapassou os limites da engenharia. Quando a dignidade humana precisa ser reafirmada diante da máquina, é porque a máquina já não é apenas máquina. Ela se tornou mediação histórica do poder.
O perigo mais profundo não é que a IA escape dos humanos como nos filmes. O perigo é que a humanidade perca o controle democrático sobre a forma social da inteligência que ela própria produziu.
A inteligência artificial poderá ser uma das maiores conquistas da história humana. Poderá ampliar a pesquisa científica, democratizar conhecimento, apoiar pessoas com deficiência, melhorar políticas públicas, reduzir tarefas degradantes, fortalecer diagnósticos, enfrentar crises ambientais e abrir novas formas de criação. Mas, sob o comando do capital, também poderá aprofundar desigualdades, precarizar trabalho, ampliar vigilância, concentrar riqueza, manipular comportamentos e transformar a inteligência coletiva em propriedade privada.
Essa é a contradição central.
A humanidade não precisa escolher entre submissão à máquina e nostalgia antitecnológica. Precisa escolher entre a inteligência artificial como instrumento de acumulação e a inteligência artificial como bem comum democrático. Entre a técnica governada pelo capital e a técnica subordinada à vida. Entre a automação como nova forma de dominação e a automação como possibilidade de emancipação.
O futuro da IA será, em última instância, uma disputa sobre o futuro da democracia.
E a democracia, para sobreviver à era da inteligência artificial, terá de deixar de ser apenas procedimento eleitoral. Terá de tornar-se poder real da sociedade sobre as forças que organizam sua existência.
Porque, se a inteligência artificial é a inteligência social objetivada em máquinas, então a pergunta decisiva não é o que a máquina fará conosco. A pergunta decisiva é se ainda seremos capazes de decidir, coletivamente, o que faremos com a inteligência que produzimos.
Flaviano Correia Cardoso é advogado humanista, empregado público da Caixa Econômica Federal, pesquisador independente em psicodinâmica do trabalho e ativista global.

