POR QUE PESSOAS QUE NUNCA VIVERAM SOB DETERMINADOS REGIMES DEMONSTRAM NOSTALGIA POR ELES?

A ciência do florescimento humano pode ajudar a explicar a nostalgia autoritária?

A conexão entre os achados de Loxton e a ciência do florescimento humano é uma interpretação pessoal e não uma conclusão estabelecida pela literatura acadêmica 

Em abril deste ano, o cientista político canadense James Loxton, professor de política comparada na Universidade de Sydney, publicou no Journal of Democracyƒ um artigo cujo título já é, por si só, uma provocação: Por que elegemos ex-ditadores e seus filhos?. 

A pergunta não é retórica. Loxton mostra que cerca de um quinto dos países que se democratizaram a partir dos anos 1970, a chamada terceira onda de democratização, acabaram levando de volta ao poder, décadas depois, ex-líderes autoritários ou seus herdeiros políticos. As Filipinas elegeram Ferdinand Marcos Jr., filho do ditador que governou o país por quase vinte anos. No Peru, Keiko Fujimori chegou repetidas vezes ao segundo turno presidencial. No Brasil, o próprio Loxton cita o fenômeno Bolsonaro como exemplo de uma dinâmica semelhante. 

As explicações mais comuns para esse fenômeno são políticas: redes de apoio que sobreviveram à democratização, capital político herdado, organizações partidárias resilientes. Tudo isso importa. Ainda assim, permanece uma questão difícil: por que pessoas que nunca viveram sob determinados regimes demonstram nostalgia por eles? 

Loxton oferece uma pista interessante ao comentar o comportamento das gerações mais jovens. Para quem não viveu aquele período, observa ele, “podem inventar o que quiserem sobre o passado”. 

A observação chama atenção porque sugere que a nostalgia não depende necessariamente da memória. Em alguns casos, depende justamente da ausência dela. Sem a experiência direta para impor limites, o passado se torna mais disponível para projeções, simplificações e idealizações. 

A partir daí, a questão deixa de ser apenas política e passa a envolver também a forma como indivíduos e sociedades constroem sentido diante de períodos de incerteza. 

Crédito: Le Monde Diplomatique Brasil

Nas últimas décadas, pesquisadores ligados ao estudo do florescimento humano vêm insistindo numa distinção importante: felicidade e sentido não são a mesma coisa. Martin Seligman chamou atenção para essa diferença ainda nos primeiros anos da Psicologia Positiva. Mais recentemente, Tyler VanderWeele incorporou essa separação aos seus estudos sobre florescimento humano em Harvard. 

Essa distinção não explica diretamente a nostalgia autoritária, mas oferece uma forma interessante de pensar as condições em que ela se torna atraente. 

Se essa distinção for relevante para a política, ela sugere uma hipótese interessante: determinadas narrativas podem encontrar receptividade não apenas por prometerem melhorias materiais ou vitórias eleitorais, mas porque oferecem pertencimento, identidade e uma sensação de coerência para experiências que parecem fragmentadas ou difíceis de interpretar. 

Pesquisas em psicologia mostram, inclusive, que somos frequentemente maus juízes do que produzirá nosso próprio bem-estar. Laurie Santos, da Universidade de Yale, mostrou como tendemos a superestimar o impacto de status, renda e reconhecimento sobre nossa felicidade. Iris Mauss, da Universidade de Berkeley, encontrou um resultado igualmente relevante: pessoas excessivamente preocupadas em buscar felicidade costumam relatar menos bem-estar do que aquelas que não transformam essa busca em objetivo permanente. 

Nada disso demonstra uma relação causal entre infelicidade e autoritarismo. Mas serve como lembrete de que aquilo que mobiliza indivíduos e grupos nem sempre coincide com aquilo que melhora sua qualidade de vida. 

A pergunta se torna ainda mais interessante quando observada à luz da literatura sobre felicidade e bem-estar. Ao longo de diferentes edições, o World Happiness Report discutiu a relação entre satisfação com a vida, confiança social, qualidade institucional e participação política. Em linhas gerais, essas análises mostram que sociedades mais coesas, mais confiantes e mais eficazes na provisão de bens públicos tendem a apresentar níveis mais elevados de bem-estar. 

Isso, porém, não elimina a questão levantada por Loxton. Se bem-estar, confiança social e qualidade institucional costumam caminhar juntos, por que narrativas autoritárias continuam encontrando apoio em diferentes partes do mundo? 

O próprio World Happiness Report de 2025 trouxe uma pista relevante ao destacar que a combinação entre baixa satisfação com a vida e baixa confiança interpessoal está associada a maior apoio a movimentos antissistema. A questão, portanto, talvez não esteja apenas nas características formais dos regimes políticos, mas na forma como indivíduos interpretam experiências de frustração, insegurança e perda de confiança. 

Essa distinção também ajuda a evitar um erro comum: transformar um fenômeno político em um problema exclusivamente psicológico. Perda de confiança institucional, sensação de desorientação e fragmentação social possuem causas concretas. Mudanças econômicas profundas, desigualdades persistentes, precarização do trabalho, enfraquecimento de instituições e transformações nas formas de vida coletiva fazem parte dessa história. 

O Brasil ilustra bem essa dimensão material. A pesquisa Ipsos Happiness Report 2026 mostra que 80% dos brasileiros se declaram felizes, um dos índices mais altos do mundo. Mas, quando a mesma pesquisa perguntou especificamente o que mais pesa contra o bem-estar de quem não está bem, a resposta mais citada, no Brasil e na média global, foi a situação financeira. São perguntas diferentes dentro do mesmo levantamento, não uma contradição: um país pode ser, em média, relativamente satisfeito e, ainda assim, ter a insegurança financeira como o fator mais associado ao mal-estar de quem não está. 

A psicologia ajuda a compreender por que certas narrativas encontram receptividade, mas não substitui a análise das condições históricas e materiais que tornam essa receptividade possível. 

É nesse ponto que a reflexão de Paul Wong, professor da Trent University do Canadá, se torna útil. Ao longo de décadas, Wong argumentou que a busca por sentido tende a ganhar força justamente em períodos marcados por perda, instabilidade e incerteza. Quando o presente parece desorganizado, narrativas capazes de oferecer ordem e coerência tornam-se especialmente atraentes. 

Sua força não depende necessariamente da precisão histórica, mas da capacidade de oferecer uma interpretação coerente para experiências presentes de insegurança, perda de confiança ou desorientação social. 

Pesquisas de Kaiping Peng, que atuou tanto em Berkeley quanto na Universidade Tsinghua, na China, ajudam a entender por que esse processo pode ocorrer sem grandes conflitos internos. Seus estudos sobre pensamento dialético mostram que seres humanos conseguem conviver razoavelmente bem com ideias contraditórias. Uma pessoa pode reconhecer aspectos violentos de um regime e, ao mesmo tempo, sentir atração pela imagem de ordem, estabilidade ou unidade nacional associada a ele. 

A nostalgia autoritária parece operar justamente nesse espaço. Não como uma reconstrução fiel do passado, mas como uma interpretação seletiva dele. Sua força não depende apenas daquilo que aconteceu, mas daquilo que as pessoas sentem faltar no presente. 

Nenhum dos pesquisadores citados aqui estudou diretamente a nostalgia autoritária. A conexão entre os achados de Loxton e a ciência do florescimento humano é uma interpretação pessoal e não uma conclusão estabelecida pela literatura acadêmica. 

Ainda assim, ela aponta para uma possibilidade que merece atenção. Se parte do apelo dessas narrativas está ligada a necessidades de pertencimento, confiança e sentido, enfrentá-las exige mais do que corrigir versões distorcidas da história. Exige compreender por que essas necessidades permanecem abertas e por que determinadas narrativas conseguem preenchê-las de forma mais convincente do que as alternativas disponíveis. 

Se essa interpretação estiver correta, a nostalgia autoritária diz menos sobre o passado que tenta resgatar e mais sobre o que falta no presente: democracia que funcione, bem-estar, saúde mental, prosperidade, sentido de pertencimento e, sim, felicidade. É nesse ponto que a pergunta formulada por Loxton encontra a literatura sobre florescimento humano, hoje pensada também na escala de sociedades inteiras. Décadas depois da redemocratização, a pergunta que sobra é simples: o quanto essas sociedades ainda conseguem florescer. 

 

Rodrigo de Aquino é comunicólogo e executivo na área do bem-estar, felicidade e entretenimento com impacto social. É embaixador em São Paulo da ONG Doe Sentimentos Positivos, Climate Reality Leadership Corp 22 e fundador do Instituto DignaMente. 

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