Tira-Teima
Passados mais de um século dessa visão arcaica quanto à questão racial no Brasil, nos deparamos com mais uma política seletiva, segregacionista e imbecil. O nosso país que é, (in)felizmente, conhecido como o país do futebol está elitizando o público que frequenta os estádiosFabrício Santos
Durante o século XIX, o fim da escravidão foi o assunto mais polêmico nas rodas de conversa da elite brasileira preocupada, naquele momento, com a possibilidade de escassez de mão de obra. O discurso abolicionista era, sobretudo, por parte dos industriais britânicos que estavam ávidos pelo fim do trabalho compulsório para atender suas necessidades capitalistas.
Essa necessidade econômica dos industriais europeus na era contemporânea tinha certos interesses tais como o de aumentar seus mercados consumidores e buscar matéria-prima em países periféricos. Essa foi a política chamada de imperialismo ou neocolonialismo que mostrava o surgimento de uma economia global.
Nesse mesmo período aconteceu no Brasil uma teoria chamada de embranquecimento racial da sociedade. Com o fim do trabalho escravo a “alternativa encontrada” pelas elites agrárias foi trazer imigrantes europeus para trabalhar nas lavouras de café. Todavia, a vinda desses trabalhadores escondia a ambição de alguns grupos sociais que buscavam aumentar a quantidade de pessoas brancas e diminuir o número de negros, tentando reproduzir aqui nos trópicos um modelo social europeu.
Passados mais de um século dessa visão arcaica quanto à questão racial no Brasil, nos deparamos com mais uma política seletiva, segregacionista e imbecil. O nosso país que é, (in)felizmente, conhecido como o país do futebol está elitizando o público que frequenta os estádios. Com a construção das superfaturadas arenas para a Copa do Mundo, os dirigentes tentam selecionar quem vai ao estádio. Por isso, não existe mais a tão popular geral que mostrava a alegria retumbante de muitas pessoas que, para esquecer seus problemas, compravam ingressos acessíveis para assistirem seus clubes jogarem.
Na cidade de Paraty durante o pontapé inicial na Festa Literária Internacional (Flip), Gilberto Gil,[1] em entrevista, resumiu a informação que desejo transmitir nesse humilde texto. “Estive no Maracanã na final da Copa das Confederações (Brasil x Espanha), um lugar onde sempre vou por causa do Fluminense. Lá, vi o (Joseph) Blatter, o Zagallo, a Ivete (Sangalo), o Bebeto, mas não vi o povo”.
O povo como sempre paga a conta, mas não participa da festa. É assim que o cidadão brasileiro de baixa renda está acostumado a viver. Desde a colonização, passando pelo século XIX até chegar ao século XXI a população tem uma vida difícil e extremamente laboriosa. A desigualdade social reina em todas as esferas de nossa sociedade, sendo que a nossa própria Constituição é um bom exemplo de que sempre a corda arrebenta para o lado mais fraco. Quem resumiu bem isso foi o juiz Rodrigues Torres[2] ao afirmar que “todo o nosso sistema criminal é seletivo e acarreta uma exclusão social. É um formato de controle social que acaba punindo e criminalizando a pobreza”.
É revoltante perceber que passados séculos de História o nosso país ainda vive mergulhado num rio caudaloso que tenta selecionar quem vai mergulhar em suas águas. Do mesmo modo que não se faz um Brasil com uma só cor, não se faz uma Copa do Mundo sem o povo!
Fabrício Santos é Professor de História da rede particular de ensino em Palmas.

