Por que a primeira infância deve estar no centro do planejamento urbano?
Pensar cidades a partir das necessidades das crianças pequenas não é uma pauta restrita à infância, mas uma estratégia de desenvolvimento que beneficia toda a sociedade
As mudanças climáticas têm tornado cada vez mais evidente a necessidade de repensar a forma como planejamos e ocupamos os territórios. Enchentes, ondas de calor, deslizamentos e outros eventos extremos afetam cidades de diferentes portes e expõem desigualdades históricas que atingem principalmente as populações mais vulneráveis. Nesse cenário, cresce a discussão sobre cidades resilientes – aquelas capazes de se adaptar, responder e se recuperar diante dos desafios ambientais e sociais. No entanto, ainda há um aspecto pouco explorado nesse debate: os impactos que as escolhas urbanas produzem sobre a primeira infância.
Os primeiros anos de vida são decisivos para o desenvolvimento humano. É nesse período que se estabelecem bases fundamentais para a saúde, aprendizagem, convivência social e bem-estar ao longo da vida. Por isso, pensar cidades a partir das necessidades das crianças pequenas não é uma pauta restrita à infância, mas uma estratégia de desenvolvimento que beneficia toda a sociedade. Afinal, a forma como uma cidade acolhe suas crianças revela, em grande medida, sua capacidade de promover qualidade de vida para todas as pessoas.
Quando falamos em planejamento urbano voltado à primeira infância, estamos nos referindo à promoção da mobilidade segura, ao acesso a áreas verdes, à moradia adequada, ao saneamento básico, a equipamentos públicos acessíveis e a espaços de convivência que estimulem o brincar e as interações sociais. Estamos falando também de bairros que permitam que famílias realizem seus deslocamentos cotidianos com segurança e tenham acesso aos serviços essenciais sem percorrer longas distâncias. São elementos que influenciam diretamente o desenvolvimento infantil e fortalecem os vínculos comunitários.
Essa visão dialoga com reflexões desenvolvidas pelo arquiteto e urbanista Kevin Lynch, que já na década de 1970, defendia a importância de considerar crianças e adolescentes como sujeitos legítimos na avaliação e no planejamento das cidades. Essa perspectiva foi apresentada no projeto Children’s Perception of Space (A Percepção do Espaço pelas Crianças), desenvolvido no âmbito do programa da UNESCO Man and His Environment – Design for Living e coordenado por Lynch em países como Argentina, Austrália, México e Polônia. Os resultados da pesquisa foram publicados na obra Growing Up in Cities (Lynch, 1977), que evidenciou como a experiência cotidiana das crianças pode oferecer importantes subsídios para a construção de cidades mais humanas, acolhedoras e capazes de responder às necessidades reais da população. Mais de cinquenta anos depois, esse entendimento continua desafiando gestores e planejadores urbanos.

Uma cidade boa para as crianças é melhor para todos
Ao observarmos uma cidade sob a perspectiva de uma criança pequena, muitos desafios urbanos tornam-se mais evidentes. Calçadas inadequadas, travessias inseguras, falta de arborização, ausência de áreas de lazer e equipamentos públicos distantes impactam diretamente a vida das famílias e limitam o acesso a oportunidades de desenvolvimento. Por outro lado, quando esses elementos são pensados de forma integrada, os benefícios alcançam diferentes grupos sociais e contribuem para uma ocupação mais equilibrada e inclusiva do território.
A lógica é simples. Se uma mãe ou um pai consegue circular com segurança empurrando um carrinho de bebê, uma pessoa idosa ou com deficiência também encontrará melhores condições de mobilidade. Se uma criança consegue acessar uma praça próxima de casa para brincar e conviver, aquele território provavelmente oferece mais oportunidades de encontro, pertencimento e participação comunitária. Dessa forma, a criança passa a ser um importante indicador da qualidade urbana e da capacidade de uma cidade promover bem-estar para seus moradores.
Essa compreensão tem orientado iniciativas em diferentes municípios brasileiros. Entre elas está o Primeira Infância Cidadã (PiC), projeto da Avante – Educação e Mobilização Social, em parceria com a Petrobras, que integra o Programa Petrobras Socioambiental, que apoia gestores públicos na elaboração e implementação de políticas voltadas às crianças de até seis anos. Mais do que estimular ações específicas para a infância, experiências como essa têm contribuído para ampliar o debate sobre a necessidade de integrar áreas como urbanismo, mobilidade, assistência social, saúde, educação, cultura e meio ambiente na construção de cidades mais acolhedoras e preparadas para os desafios contemporâneos.
Resiliência climática também é uma pauta da infância
A relação entre a primeira infância e o planejamento urbano torna-se ainda mais evidente diante dos impactos das mudanças climáticas. As crianças pequenas estão entre os grupos mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos, pois dependem de condições adequadas de saúde, proteção e acesso a serviços essenciais para seu pleno desenvolvimento. Enchentes podem interromper o acesso às creches e às escolas, comprometer a alimentação e ampliar a exposição a doenças. As ondas de calor afetam o sono, a atenção e o bem-estar infantil, enquanto a escassez de áreas verdes reduz as oportunidades de brincar, de convivência e de desenvolvimento socioemocional.
Os efeitos desses fenômenos são ainda mais severos em territórios marcados por déficits de infraestrutura, habitação precária e acesso limitado a serviços públicos. Nessas localidades, os impactos ambientais costumam se somar a desigualdades históricas, ampliando vulnerabilidades e restringindo oportunidades para crianças e suas famílias. Por essa razão, políticas de adaptação climática precisam considerar não apenas a proteção dos espaços urbanos, mas também as condições necessárias para garantir o desenvolvimento saudável da população infantil.
Diante desse cenário, torna-se cada vez mais importante que diferentes áreas da gestão pública atuem de forma articulada. Urbanismo, mobilidade, saúde, educação, assistência social, cultura e meio ambiente não podem ser tratados como temas isolados quando o objetivo é construir territórios mais resilientes e inclusivos. A chamada cidade do cuidado nasce justamente dessa compreensão, reconhecendo que o desenvolvimento das crianças está diretamente relacionado à qualidade dos espaços onde elas vivem, circulam, aprendem e convivem.
Planejar cidades para a primeira infância não significa criar espaços exclusivos para crianças. Significa construir ambientes mais seguros, saudáveis e acolhedores para todos, capazes de fortalecer vínculos comunitários, reduzir desigualdades e ampliar oportunidades. Em um momento em que os desafios climáticos e urbanos se tornam cada vez mais complexos, colocar a infância no centro do planejamento não é apenas uma questão de proteção social, mas uma estratégia inteligente para pensar o presente e o futuro das cidades.
Nadir Moreira é arquiteta e urbanista, conselheira titular do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/SP), coordenadora-adjunta da Comissão de Políticas Afirmativas do CAU/SP e membro do Comitê do Programa de Investimento Comunitário (PiC) de Angra dos Reis, iniciativa da Avante – Educação e Mobilização Social em parceria com a Petrobras.

