EDITORIAL

Brasil é o grande desafio

Usando de todos os elementos da guerra híbrida, os Estados Unidos estão buscando desestabilizar o governo Lula e influenciar o resultado das eleições de outubro em favor de Flávio Bolsonaro

Tenho insistido, nos últimos editoriais, sobre os riscos de um confronto aberto com os Estados Unidos. Essa avaliação vai se consolidando à medida que vários instrumentos da guerra híbrida vão sendo utilizados contra o governo brasileiro.[1]

A nova estratégia dos Estados Unidos para a América Latina se baseia no documento “Project 2025”, elaborado pela ultradireita norte-americana, liderada pela Heritage Foundation. Trata-se de combater os governos de esquerda; financiar governos conservadores na região; conter a influência da China na região; assegurar o controle das riquezas naturais (para reduzir a dependência da China em terras-raras, por exemplo); promover o bloqueio naval do comércio do país (Cuba); congelar reservas do país; concentrar forças militares na região; e, no limite, promover ações como o sequestro do presidente Maduro e sua esposa.[2]

O documento “Project 2025” estabeleceu a estratégia norte-americana para a América Latina. E a Estratégia Nacional de Defesa, divulgada em dezembro de 2025, é o braço operacional da nova política externa.[3] Ela se propõe a aumentar e tornar permanente a presença militar dos Estados Unidos na América Latina. Acordos com o Paraguai permitem o estabelecimento de forças militares norte-americanas nesse país. Acordo com a Argentina propõe a patrulha do Atlântico Sul em conjunto. Novas bases militares norte-americanas serão implantadas na região.

Um dos principais elementos de coerção é atribuir a denominação de terrorista ao crime organizado, como aconteceu com o PCC e o CV. Uma nova legislação norte-americana permite a invasão militar dos países que abrigam “terroristas”.

É importante observar que não se trata de um voluntarismo de Trump, mas de uma política de Estado. Usando de todos os elementos da guerra híbrida, os Estados Unidos estão buscando desestabilizar o governo Lula e influenciar o resultado das eleições de outubro em favor de Flávio Bolsonaro. Querem um novo colonialismo, controlando todos os países do continente.

© Claudius

É um detalhe, mas mostra a intenção. Um edital do Departamento de Estado, aberto até 23 de julho, oferece US$ 986 mil para ONGs que denunciem suposta censura no Brasil e contestem decisões judiciais e a regulação das plataformas digitais. Evidentemente, essa é apenas a ponta de um verdadeiro iceberg de combate ao governo Lula.[4]

Esse trabalho de influenciar a opinião pública brasileira em defesa do neoliberalismo e contra governos populares se dá há décadas, mas lança mão de novos instrumentos agora, num novo processo eleitoral.

A longo prazo, a disputa pela hegemonia é uma disputa de valores e de projetos de sociedade. Há todo um conjunto de think tanks, criados a partir dos anos 1980, que formula estratégias políticas para combater a esquerda. Integrando redes internacionais, como a Atlas Network, o Instituto Millenium, o Instituto Liberal, o Instituto Mises Brasil, o Instituto de Estudos Empresariais, estão entre os mais destacados.[5] Há também organizações de ativistas e militantes. Inspirado no Students for Liberty, foi criado o Movimento Brasil Livre, com atuação principalmente junto aos estudantes. Sem falar nas “campanhas de conscientização pública” nas mídias corporativas e plataformas digitais, que martelam há anos a privatização das empresas públicas, o empreendedorismo, o corte nas políticas sociais, a luta contra o comunismo e, agora, o terrorismo. Resgataram o antigo Consenso de Washington e militarizam sua relação com a América Latina.

A curto prazo, podemos listar uma série de iniciativas que pressionam o governo Lula por atos de soberania que não cabem na relação com os Estados Unidos. Trump afirma que o governo do Brasil está se tornando perigoso politicamente.[6]

Perigoso porque criou o Pix, abalando o domínio dos cartões norte-americanos, como Mastercard, Visa e outros. Perigoso porque aprovou uma lei de regulação das plataformas digitais. Perigoso porque integra o Brics. Perigoso porque aprofunda relações comerciais com a China. Perigoso porque faz transações comerciais internacionais sem usar o dólar. Perigoso porque diversifica seus parceiros comerciais e depende cada vez menos dos Estados Unidos. Perigoso porque pretende impedir o saque de suas riquezas minerais. Perigoso porque luta por sua autonomia e soberania. E talvez o mais importante neste momento: perigoso porque abre uma alternativa de esquerda na América Latina, como foi a criação da Unasul.

Temos a considerar também que boa parte do empresariado brasileiro não quer outro governo Lula e pode se somar ao processo de desestabilização do governo e às campanhas de difamação que virão.

Tudo indica que haverá uma intensa campanha na mídia e nas plataformas digitais combatendo o PT e Lula, pressões comerciais com novas tarifas, campanha contra o STF e seus integrantes, financiamento da oposição, ameaças militares. E, na eventualidade de Lula ganhar a eleição, a contestação dos resultados eleitorais alegando fraude.

É uma eleição crucial tanto para o Brasil como para os Estados Unidos. Se a democracia vencer, ainda teremos de estar atentos para garantir a posse do novo governo. Se o bolsonarismo vencer, consolida-se o alinhamento subserviente ao governo Trump e abre-se um novo período autoritário no Brasil, com o desmonte das políticas sociais, a privatização do que é público, a repressão das lutas por direitos.

Neste momento, as pesquisas eleitorais dão pequena vantagem a Lula, mas a campanha eleitoral oficialmente nem começou. Estamos a menos de cem dias das eleições e vamos ver muita manipulação e arbitrariedades. Preparemo-nos, como cidadãos, para defender nossos direitos.

 

[1]A guerra híbrida lança mão de guerra econômica (tarifas), desinformação, ataques de hackers, sabotagem, diplomacia coercitiva e iniciativas combinadas com táticas militares convencionais.

[2] “Project 2025”, https://static.heritage.org.

[3]US Department of War, https://media.defense.gov.

[4]Departamento de Estado dos Estados Unidos, “Countering Censorship and Judicial Overreach in Brazil”.

[5]Camila Rocha, “Think tanks ultraliberais e a nova direita brasileira”, Le Monde Diplomatique Brasil, nov. 2017.

[6]CNN Brasil, CNN 360º, 18 jun. 2026.

 

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