Anselm Kiefer e a alquimia das sombras
A arte de Anselm Kiefer é incontornável quando se trata de perturbar a paz dos sentidos e a romper a quietude das preconcepções de qualquer observador
O pintor e poeta iraniano Sohrab Sepehri, em The Oasis of Now (2013), questionava os motivos para que considerássemos o cavalo um animal nobre e pisoteássemos um humilde trevo e não uma bela tulipa. Sepehri claramente instava a “lavar os olhos para ver de novo e de outra forma as coisas do mundo”.
Levar adiante essa tarefa é o que deve se propor quem decide adentrar na obra do pintor e escultor alemão Anselm Kiefer, pois sua arte é incontornável quando se trata de perturbar a paz dos sentidos e a romper a quietude das preconcepções de qualquer observador. Recentemente, houve a oportunidade de afiar uma ambivalência que recusa uma mera catarse na exposição Seal My Ears Shut and I Shall Hear You Still, na Gagosian de Nova York, que esteve em cartaz até 26 de junho passado.
Em sinergia com outras duas grandes exposições – Anselm Kiefer: Becoming the Sea, no Saint Louis Art Museum (2025–26), e Anselm Kiefer: Le Alchimiste, em cartaz no Palazzo Reale, em Milão, até 27 de setembro de 2026 –, suas pinturas mais recentes apresentam corpos femininos que a paisagem devora e, ao mesmo tempo, revela. Já não existem contornos nítidos: a matéria os envolve, elementos vegetais os encobrem, enquanto a terra os reivindica. Os quadros trazem ao século XXI princesas e hetairas de outro tempo, como Electra e Neera, que a mitologia guardou nas fendas das montanhas e no rumor das fontes e que agora retornam não como figuras controversas, mas como mulheres-perguntas feitas de musgo e sombra ou como símbolos da metamorfose do feminino, sejam Clítia ou Dríope.
Porém, o resgate do feminino é somente mais um elemento constitutivo de uma trajetória que abarca história, literatura, arquitetura, ciência, espiritualidade e mitologias. Essa particularidade é ressaltada no estudo realizado por Mark Rosenthal e publicado em 1987 pelo Instituto de Arte de Chicago. Rosenthal elabora um breve glossário que inclui deuses egípcios, elementos da mitologia nórdica, o milagre das serpentes do Antigo Testamento e o lendário Gilgamesh, apenas para citar alguns verbetes.
Nascido em 1945, em Donaueschingen, Kiefer é fruto de uma época de guerra, cujos efeitos repercutem até os dias de hoje e desafiam as noções de civilidade e razão. Portanto, não é surpreendente que suas obras, feridas abertas que atuam como guias para travar contato com uma parcela particular da brutalidade humana, carreguem elementos variados como chumbo, cinza, goma-laca, palhas, vidros quebrados e outras matérias da construção e destruição.
No entanto, descrever as pinturas e esculturas do artista como um reflexo, direto ou indireto, da devastação europeia no século XX é perder uma miríade de outros sentidos e, principalmente, dar as costas para as diversas fontes que inspiram sua criação. Igualmente, descrevê-lo como neoexpressionista ou neosimbolista corresponderia a enquadrar uma produção artística que não oferece respostas fáceis e em que o passado é presente e futuro sob forma de alerta ou provocação.
Kiefer não é incomum apenas por subverter padrões ou não se encaixar em rótulos didáticos para a história da arte, mas por se opor a uma tendência ocidental que valoriza as superfícies polidas, os vidros e espelhos translúcidos, o apreensível e faiscante no lugar do profundo e sombrio. Jun’ichirō Tanizaki, no ensaio Em louvor da sombra (2007), salienta que o Ocidente renega o sebo e chama um período de cinco anos de lustro, para que o tempo passado não carregue marcas de fuligem, rachaduras ou qualquer forma de desgaste. Porém, essa “sujeira” elaborada, quase forjada pelo passar dos anos, é uma irrefutável fonte de estesia, isto é, a experiência do sensível.

Kiefer se desapega do desconforto ocidental com as sombras e, em consonância com as afirmações de Tanizaki, compele o espectador a feiúra, não como aberração estética absoluta, mas como matéria-prima da potência que jamais pode se compor gradualmente, pelo contrário, só pode nascer de um estalo tão violento quanto o início de uma guerra ou o apagamento de comunidades inteiras.
Nesse sentido, arriscamos a dizer que o artista alemão dialoga com pontos específicos do estilo brutalista. Acerca de seu monumental anfiteatro, peça central de La Ribaute, em Barjac, França, ele reforça que suas imagens são blocos de construção aleatoriamente sobrepostos (ou assim aparentam), inorgânicos, brutos, porém prontos para construir outra coisa ainda, como se seus produtos artísticos estivessem sempre preparados para gerar algo inédito, imperfeitamente próximo da perfeição.
Anselm Kiefer é também um artista-poeta, pois sua obra está profundamente entrelaçada à literatura de Rainer Maria Rilke, E.T.A. Hoffmann, entre outros autores, a ponto de ter sido o único artista visual agraciado, em 2008, com o prestigioso Peace Prize of the German Book Trade. É, porém, com o escritor romeno Paul Celan que seu diálogo se torna visceral. Todesfuge, poema escrito por Celan em 1945, constitui um dos relatos mais contundentes do Holocausto em forma de lírica polifônica. Margarete – ou Grete, a protagonista do Fausto, de Goethe – e Shulamith, referência ao Cântico dos Cânticos, emprestam seus cabelos como metáforas das antíteses entre vida e morte, ouro e cinzas, evocando as experiências extremas vividas pelos judeus nos campos de concentração.
Por sua vez, a Margarete de Kiefer (1981) tem seu nome inscrito em negro (seria uma alusão ao leite negro de Celan?) sobre a superfície da tela como num gesto praticamente devocional ou diretamente um epitáfio. Espirais de palha elevam-se em direção ao alto como colunas de fumaça que escapam das chaminés dos crematórios, culminando em pontas flamejantes que evocam velas acesas. A interpretação, contudo, permanece em suspenso, afinal, falamos de um artista multifacetado e enigmático até com sua própria biografia.
Em Shulamith (1983), observa-se uma arcada de tijolos escuros em que não há corpos, nem rostos, apenas o vazio que as atrocidades deixaram para trás. A presença humana ali se resume à construção para um gesto destruidor, e qualquer ausência é, por si só, um testemunho.
Como uma caixa repleta de compartimentos que se desdobram infinitamente, a crueza dos materiais e de suas pinturas não nos deixariam dúvidas de que estamos diante de um fisicalista. No entanto, a arte de Kiefer nasce de uma quase epifania ao segurar uma vela num rito religioso quando ainda era coroinha em sua cidade natal. Posteriormente, tendo iniciado os estudos na área de direito, abandonou essa carreira para seguir pelas artes graças também a uma espécie de chamado espiritual definitivo “recebido” no mosteiro de La Tourette. Obras relevantes de suas coleções evocam as marcas da tradição judaico-cristã. Por exemplo, sua Ave Maria (2007), densamente texturizada, estabelece um paralelo entre a sarça ardente que nunca era consumida e a virgindade atribuída à mãe de Cristo. Já Lilith (1987), inspirada em fotografias aéreas tiradas em São Paulo, conecta a mulher que rejeitou Adão ao caos da metrópole brasileira, que sempre flerta com a rebeldia, a liberdade e o submundo.
Obviamente, um artista tão complexo estaria no centro de polêmicas. Aos 24 anos, encontrou no sótão o uniforme militar nazista de seu pai. Vestiu-o e fez a saudação nazista por toda a Europa, tirando fotos pelo caminho. Esse projeto artístico inicial, no final da década de 1960, foi uma tentativa do artista alemão de incorporar e confrontar o passado. Mas sendo ainda um jovem em início de carreira, aquilo se tornou um fardo histórico e um rótulo imediato.
Porém, Kiefer é, antes de tudo, um anti-herói: suas atividades não são apenas provocações vazias, mas um contínuo hermético debate sobre a natureza da arte. Chocar é essencial para atacar os tabus da sociedade e seu sarcasmo amargo somente almeja garantir que memórias semienterradas não sejam deixadas em paz. Talvez assim, nunca tenhamos que nos deparar com elas, exceto nas exposições de um alquimista das ruínas que conhece a fundo os segredos da transmutação.
Fedra Rodríguez, nascida em Curitiba, em 7 de março de 1978, é tradutora, crítica de arte e escritora. Possui doutorado em Estudos da Tradução e atua no campo da literatura e da cultura desde 2006, com mais de 30 obras traduzidas, além de livros e artigos publicados em diversos veículos e países. Entre suas conquistas, destaca-se o 65º Prêmio Jabuti de Melhor Tradução (2023), obtido junto ao Coletivo Finnegans (Editora Iluminuras), pela tradução de Finnegans Wake, de James Joyce. Atualmente, é colaboradora em diversos jornais brasileiros e participa das atividades da Fundación PROA de Buenos Aires.

