“Há ‘denúncias’ de que eu trabalhava questões femininas e raciais demais”
Professora da rede pública de ensino de São Paulo e colaboradora do Le Monde Diplomatique Brasil, Veruschka de Sales Azevedo morreu no último domingo (12).
Eu, Veruschka de Sales Azevedo, sou professora de História da rede básica de ensino do estado de São Paulo, concursada e nomeada em fevereiro de 2000. Sou mestre e doutora em História. Durante anos sofri um doloroso processo de perseguição política no meu ambiente de trabalho, que redundou em minha exoneração do serviço público.
Concursada no interior paulista, em Sertãozinho, quando ainda fazia mestrado na Unesp, permaneci no município por quatro anos e depois voltei para minha cidade na grande São Paulo, Guarulhos. Empolgada em voltar a lecionar na escola na qual estudei, pedi a transferência do cargo para lá em 2005. Ao chegar, reencontrei antigos professores e um corpo gestor novo e pouco afeito às iniciativas democráticas que devem reger o espaço público.
Os primeiros embates vieram quando os professores não eram consultados para opinar sobre as verbas recebidas diretamente pela escola, a chamada verba-MEC. Eu e um conjunto de professores participávamos dos órgãos colegiados da escola, e o questionamento da falta de transparência começava a redundar em pequenos ataques: prejudicada na escolha de turmas, na organização do horário… assim foi o começo. É preciso dizer que sou ativista sindical de base, e isso também impactou o olhar da gestão sobre meu trabalho.
A escola é referência na região, localizada na periferia da região do Pimentas, em Guarulhos. Ela sempre teve muitos bons professores, que nos incentivaram a ir para a universidade pública. Então, voltei com o mesmo propósito: apoiar meus estudantes periféricos a irem aonde quiserem.
Nos vinte anos que passei lecionando na escola, realizei muitas atividades de empoderamento e engajamento. Fui uma das idealizadoras de uma atividade antirracista que tem dezessete anos de existência: o Sarau Resistência. A atividade consiste em reunir a comunidade escolar e estudantes para fortalecer o combate ao racismo estrutural. Essa atividade, desenvolvida com base em pesquisa com minhas turmas de sala de aula e com outros professores, culmina no Novembro Negro, um sábado dedicado somente às apresentações. Havia também a participação da comunidade, que podia ir para dentro da escola mostrar sua arte. Ao longo dos anos, a gestão criou numerosos obstáculos ao projeto. Por exemplo: já em nossa primeira edição, em 2008, a coordenadora da escola à época impediu o acesso à sala da coordenação pedagógica e tivemos de sair pelas lojas do entorno para comprar os materiais do evento.
Foram inúmeros boicotes. Em 2012, ao falar do centenário de Luiz Gonzaga, fui convocada para uma oitiva na Diretoria de Ensino porque a direção alegou que estávamos fazendo comércio na escola, quando na realidade se tratava somente de um projeto de comidas típicas nordestinas para o sarau realizado pelos estudantes da educação de jovens e adultos (EJA). Outro absurdo foi em 2022, quando novamente tive de ir à Diretoria de Ensino para falar com a dirigente e garantir a edição que pesquisou a vida da mulher do milênio, a cantora Elza Soares. Durante a pesquisa, focamos o combate ao feminicídio e à violência contra as mulheres. A direção da escola dizia que não tinha como ficar gastando com esse projeto, ao que eu retrucava defendendo que o recurso da escola fosse utilizado para financiar a ampliação do repertório dos estudantes. Mesmo com os constantes boicotes, o sarau virou um lugar de referência para os estudantes e para a comunidade. Até que veio meu processo de exoneração, no dia 25 de maio de 2024, resultado de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), que surgiu de um processo iniciado em 2017.
Nesse ano, uma colega, também alvo de desrespeitos pela gestão, sofreu um afastamento sem remuneração por noventa dias. A seção regional do nosso sindicato organizou um ato em defesa da colega com coleta de assinaturas em seu apoio. Contamos com um carro de som entre os períodos de entrada e saída escolar, informando a comunidade da situação pela qual a professora estava passando. Eu, Veruschka, estava como representante sindical e argumentei publicamente no microfone que o caso configurava perseguição política e que a direção não estava cumprindo com os preceitos da Constituição e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação no que diz respeito a uma gestão democrática. Naquele momento, a coordenadora gravou minha fala, dizendo que eu precisava ser filmada e que a direção pediria uma indenização por danos à sua imagem.
A partir desse episódio, o ambiente se tornou abertamente hostil. Quando a professora que estava sendo defendida pelo sindicado voltou ao trabalho, antes dos noventa dias porque felizmente se esclareceu que o afastamento era injusto, a direção, contrariada, aumentou o tom dos conflitos, adoecendo o clima escolar. No contexto político daquele ano, 2017, o ambiente na educação do estado de São Paulo já estava contaminado com os discursos do projeto de extrema direita Escola sem Partido. Toda essa atmosfera atentava contra meu trabalho, e qualquer crítica aos materiais prontos, ao sequestro da autonomia docente, era motivo de denúncia por parte da gestão na Diretoria de Ensino. A direção pressionou uma antiga coordenadora da escola a fazer constantes denúncias sobre minha conduta nos ATPCs (horários pedagógicos coletivos), fortalecendo a ideia de que havia tumulto na hora das reuniões pedagógicas. A direção mantinha um livro cheio de anotações sobre a conduta dos professores que questionavam a gestão, livro ao qual os professores ali “registrados” não tinham acesso. Eventualmente, uma dessas denúncias subiu para as instâncias superiores da Secretaria de Educação. Na rede estadual, muitos processos antigos, sobretudo de professores militantes e ativistas, têm sido recuperados e retomados no intuito de exonerá-los. Dentro do processo contra mim há alegações falsas e infundadas de falta de comprometimento com os estudantes, e “denúncias” de que eu trabalhava excessivamente questões de empoderamento feminino e raciais.
No fim de maio de 2025, eu recebi a sentença da exoneração. Naquele momento, após 24 anos de exercício de atividades, de só ter me afastado para ter minha filha e para finalizar a escrita da tese de doutorado, depois de haver reposto todas as greves… ou seja, depois de uma vida dedicada à docência, me vi destituída do direito de me aposentar, punida por lutar por uma educação pública, gratuita e democrática, que pudesse incluir todos os estudantes em sua diversidade de vida. Hoje me encontro impedida de fazer concurso público no estado onde moro, além de ter desenvolvido uma doença crônica, provocada pelo trauma da demissão, que seria mais bem tratada no Hospital do Servidor Público, ao qual não tenho mais acesso. Devo dizer que minha situação não é rara; há muitos colegas com histórias parecidas. Agora estou recorrendo da exoneração. A rede estadual de ensino paulista ainda tem uma chance de fazer justiça para uma servidora que dedicou anos de trabalho e de formação a garantir o direito à educação de qualidade.
*Veruschka de Sales Azevedo, professora da rede pública de ensino de São Paulo e autora deste artigo, morreu no último domingo (12). O Le Monde Diplomatique Brasil lamenta sua morte e manifesta apoio a seus familiares, amigos, colegas e alunos. Em solidariedade, republicamos este artigo, escrito pela professora, presente na edição de março do jornal.

