Consciência, empreendedorismo e trabalho sem explorar trabalhador
O empreendedorismo costuma ser apresentado como uma história de inovação, crescimento e geração de riqueza. No entanto, por trás dos números e dos modelos de sucesso, existem trajetórias marcadas por desigualdades, disputas por espaço e diferentes formas de compreender o papel de uma empresa na sociedade
Já pensou que, mesmo nos dias de hoje, ainda seja possível criar um novo modelo de negócio? Já refletiu sobre como uma empresa pode propor mudanças simples, aparentemente óbvias, mas raramente colocadas em prática? Como construir um negócio sem transformar pessoas em peças descartáveis? Como desenvolver uma marca sem reproduzir relações históricas de exploração? Talvez a verdadeira inovação não esteja apenas no produto final, mas no método, nas relações construídas, na forma como o trabalho é pensado e na maneira como uma empresa decide existir dentro da sociedade.
Segundo dados do Sebrae divulgados em 2024, cerca de 38% das pequenas empresas brasileiras fecham antes de completar cinco anos de funcionamento. As micro e pequenas empresas representam aproximadamente 99% dos negócios ativos do país e respondem por cerca de 30% do Produto Interno Bruto nacional, mas continuam operando em ambientes instáveis. A dificuldade de acesso a crédito, a ausência de capital de giro, os juros elevados, a informalidade econômica e a concentração de oportunidades em determinados centros urbanos fazem com que milhares de empreendedores brasileiros iniciem suas trajetórias em condições frágeis.
Ao mesmo tempo, o Brasil vive uma expansão do empreendedorismo. O relatório Global Entrepreneurship Monitor (GEM), publicado em 2023, estimou que mais de 90 milhões de brasileiros estejam envolvidos direta ou indiretamente em atividades empreendedoras. Grande parte desses negócios nasce da necessidade econômica, do desemprego estrutural e da tentativa de construir autonomia em um cenário marcado por desigualdades sociais.
Entre mulheres negras e pardas, os obstáculos históricos tornam esse processo ainda mais difícil. Dados do IBGE, publicados em 2023, mostram que mulheres negras continuam concentradas nas menores faixas salariais do país, apresentam maiores índices de informalidade e enfrentam mais dificuldades de acesso a crédito, estabilidade financeira e espaços de liderança. Estudos do Instituto Ethos divulgados, em 2024, revelam que pessoas negras são minorias em cargos executivos nas maiores empresas brasileiras. Quando o recorte é feito sobre mulheres negras, os números são ainda menores.

Esses dados ajudam a compreender a dimensão de determinadas trajetórias construídas no Brasil contemporâneo.
Nascida na periferia, Evelyn Cortis tem uma trajetória marcada pela experiência de uma mulher que se autodefine parda, categoria utilizada pelo IBGE na classificação da população negra. Aprendeu cedo a interpretar as estruturas sociais do país e sua formação começou muito antes da abertura de um negócio. Existe uma aprendizagem que antecede qualquer empresa: a consciência política desenvolvida a partir da vivência cotidiana, da observação das desigualdades e da necessidade de romper expectativas historicamente impostas a determinados grupos sociais.
Após trabalhar no mercado financeiro por alguns anos, Evelyn juntou dinheiro e vai rodar o mundo com passagem por países do continente africano, essa caminhada é marcada pela compreensão de que a origem não deve ser encarada como limitação, mas como ferramenta de fortalecimento. O reconhecimento das próprias raízes passou a orientar sua visão de mundo, sua forma de trabalhar e sua compreensão sobre o empreendedorismo. Mais do que crescimento financeiro, construir autonomia tornou-se uma forma de permanência social em um país que ainda reproduz desigualdades raciais, econômicas e de gênero.
Ao longo da vida, os aprendizados mais decisivos não vieram apenas da educação formal. Grande parte da sua formação aconteceu nas experiências cotidianas, na leitura dos territórios, nas relações sociais e na necessidade de adaptação constante. A periferia ensinou negociação, improviso, comunicação, inteligência emocional, leitura de contexto e organização coletiva. Antes mesmo de conhecer conceitos como racismo estrutural ou exclusão social, ela já convivia com os efeitos dessas estruturas no cotidiano.
Essa experiência produziu uma percepção sobre o funcionamento da sociedade brasileira. Compreender o que a sociedade espera de uma mulher tornou-se fundamental para construir caminhos próprios e romper padrões historicamente estabelecidos. Existe também a consciência de que determinados grupos sociais precisam trabalhar continuamente para contrariar estatísticas produzidas por séculos de desigualdade. Ao mesmo tempo, observa-se uma mudança na maneira como as novas gerações periféricas enxergam o sucesso e a ascensão social. Durante décadas, o crescimento profissional foi associado ao apagamento das origens e à adaptação aos códigos das elites econômicas brasileiras.
Dados do Instituto Locomotiva, publicados em 2023, mostram que a população negra movimenta mais de R$ 2 trilhões por ano na economia brasileira. Ainda assim, o mercado continua reproduzindo desigualdades de acesso, visibilidade e representação. Nesse contexto, negócios criados por pessoas negras e periféricas passam a ocupar um papel econômico, político e cultural.
O empreendedorismo periférico contemporâneo não trata apenas de venda, consumo ou mercado. Trata também de permanência, identidade, autonomia e disputa por espaço em uma sociedade marcada pela desigualdade.
Herlon Miguel é bacharel em Administração, especialista em Comunicação Estratégica pela Universidade Federal da Bahia, escritor e produtor cultural. Atua na interface entre palavra e ação, utilizando a escrita como instrumento de formação, reflexão e transformação social.

