Mulheres como agentes da resiliência climática que deveriam estar no centro das decisões
O ponto não é trocar a imagem da vítima pela imagem da heroína. É entender que vulnerabilidade não é sinônimo de passividade
As mulheres já estão na linha de frente dos efeitos da crise climática. Mas não apenas como vítimas. Em muitos territórios, são elas que percebem primeiro os sinais de risco, reorganizam a rotina da casa e da comunidade, mobilizam redes de cuidado, orientam saídas em situações de emergência e sustentam a reconstrução quando o evento passa. Tratá-las apenas como as mais afetadas por enchentes, secas, deslizamentos, ondas de calor e insegurança alimentar é reduzir uma realidade muito mais complexa e desperdiçar experiências que deveriam orientar políticas públicas.
Estatísticas internacionais costumam afirmar que mulheres têm 14 vezes mais probabilidade do que homens de morrer em desastres. Também indicam que elas são quatro em cada cinco pessoas desalojadas por eventos extremos. Esses dados são importantes porque revelam desigualdades globais, inclusive raciais e culturais, como restrições à autonomia, à mobilidade e ao acesso à informação. Mas o caso brasileiro mostra que a relação entre gênero e desastre não cabe em uma fórmula única.
No Brasil, o Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, aponta outro quadro. Entre 1979 e 2019, os homens responderam por quase 74% das mortes causadas por ameaças naturais no país. Nos eventos hidrometeorológicos, como enchentes e deslizamentos, eles representam entre 61% e 63,5% das vítimas. Nas enchentes do Rio Grande do Sul, em 2024, a Defesa Civil também informou que os homens eram maioria entre as mortes identificadas em maio daquele ano.
Essa diferença não deve ser lida como acaso. Pesquisas indicam que mulheres tendem a perceber riscos climáticos e ambientais com antecipação e a adotar comportamentos preventivos. Elas cancelam deslocamentos quando a chuva aperta, tiram familiares de áreas vulneráveis antes que uma encosta desabe, acionam vizinhos, cuidam de crianças, idosos e pessoas doentes, e organizam respostas quando o poder público ainda não chegou.
Há evidências desse protagonismo também no enfrentamento da seca. Um estudo publicado em 2001 pela antropóloga Adélia de Melo Branco mostrou como mulheres do Nordeste desenvolvem estratégias próprias para lidar com os efeitos da estiagem. Além de garantir a sobrevivência em períodos de falta de chuva, elas se organizam em grupos associativos, sindicatos e cooperativas, buscam alternativas de geração de renda por meio de trabalhos manuais e mantêm redes de solidariedade que ajudam a atravessar a crise. A adaptação climática, portanto, já acontece nos territórios – muitas vezes liderada por mulheres – antes mesmo de ser reconhecida como política pública.
Nada disso significa negar que as mulheres estejam vulneráveis. Estão, e muito. Elas são profundamente afetadas pela perda da casa, da renda, do acesso à água, à alimentação, à saúde e à segurança. No pós-desastre, costuma recair sobre elas a maior parte do trabalho de cuidado com crianças, idosos, pessoas doentes e comunidades desestruturadas. Esse trabalho é essencial, mas permanece invisível, não remunerado e pouco reconhecido. O ponto não é trocar a imagem da vítima pela imagem da heroína. É entender que vulnerabilidade não é sinônimo de passividade.
A escala do desafio brasileiro é enorme. O país tem registrado aumento gradual e contínuo de desastres como deslizamentos, tempestades e enchentes, com pico na última década. Tragédias recentes, como as enchentes de Petrópolis em 2022 e as inundações no Rio Grande do Sul em 2024, ganharam grande visibilidade.

Super El Niño
Agora, o país se vê diante de um novo alerta. Projeções do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais e da agência climática dos Estados Unidos (NOOA) indicam a possibilidade de um El Niño de alta intensidade no ciclo 2026/2027. O fenômeno, associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, pode alterar regimes de chuva e temperatura em várias regiões do planeta. No Brasil, os impactos podem incluir chuvas intensas, enchentes e deslizamentos no Sul e Sudeste, assim como calor extremo, secas prolongadas, incrementando insegurança hídrica e alimentar e risco de incêndios florestais.
O El Niño não produz desastres sozinho. Ele expõe vulnerabilidades territoriais que já existem, entre elas: desigualdades, racismo ambiental, moradias em áreas de risco, falta de planejamento urbano voltado à redução do risco de desastre e fragilidades no sistema de resposta do Estado. Quando a ciência aponta os riscos, quando os territórios vulneráveis são conhecidos e quando tragédias anteriores já mostraram o caminho da destruição, mortes evitáveis não podem ser tratadas como fatalidades naturais. Elas revelam necessidade de melhorias nos sistemas de prevenção, planejamento, orçamento e governança.
Foi esse alerta que levou mais de 70 organizações da sociedade civil a encaminharem ao governo federal uma Carta de Posicionamento frente ao Super El Niño e seus impactos no Brasil. O documento cobra transparência, planejamento preventivo e prioridade para populações que historicamente estão na linha de frente dos desastres climáticos – e que, quase sempre, são as últimas a receber informação qualificada, prevenção, resposta e reconstrução. As organizações expõem um padrão histórico reconhecido: a ação do Estado centrada no pós-desastre, privilegiando áreas centrais e economicamente valorizadas, enquanto periferias, morros e encostas, margens de rios, territórios tradicionais, zonas rurais sujeitas a seca extrema seguem desassistidos.
Entre os desafios apontados está a falta de reconhecimento daqueles e daquelas sujeitos a vulnerabilidades climáticas – a ausência de dados desagregados por raça e gênero e outras interseccionalidades – nos planos de ação climática e nos sistemas de monitoramento de risco e resposta a desastres; e políticas fragmentadas nas três esferas de governo.
O diálogo aponta cada vez mais para a necessidade de produzir dados diretamente com as populações que vivem nos territórios mais afetados, incluindo povos indígenas, comunidades afrodescendentes, populações periféricas e comunidades tradicionais. Um processo que demanda participação das instituições governamentais, setor privado, apoiado no conhecimento acumulado por organizações da sociedade civil, universidades, centros de pesquisa e redes comunitárias.
Fortalecer as estruturas de coleta e analise interseccional de dados desagregados por sexo, raça, idade, território, deficiência, renda e outros elementos para formulação de políticas climáticas mais eficazes. Ferramentas inovadoras que podem combinar narrativas de sobrevivência com informações demográficas e territoriais que tornam visível aquilo que hoje permanece fora das planilhas: o conhecimento, a liderança e as estratégias concretas das mulheres diante dos desastres.
Esse é o ponto central. O Brasil precisa incluir no campo da ciência a produção de conhecimento capaz de orientar políticas públicas que coloquem as mulheres no centro das decisões sobre adaptação climática. Não apenas estudá-las como grupo vulnerável, mas também reconhecê-las como produtoras de evidência, gestoras de risco, lideranças comunitárias e tomadoras de decisão.
Isso exige mudanças práticas e estratégicas. Plataformas como o AdaptaBrasil, sistemas de alerta, planos diretores, planos de contingência, políticas de defesa civil e fundos de adaptação que incorporem indicadores de gênero, raça e território. Governos em diferentes escalas precisam saber não apenas quais áreas estão expostas a enchentes, secas e deslizamentos, mas quem vive nelas, quem recebe alerta, quem consegue sair, quem cuida, quem reconstrói e quem já lidera respostas comunitárias.
Também é preciso assegurar a presença paritária e participação real das mulheres em processos decisórios na gestão de prevenção a risco, e resposta e reconstrução de desastres. Mulheres negras, indígenas, quilombolas, rurais, periféricas, jovens, idosas e com deficiência precisam estar nesses espaços não como personagens de campanhas institucionais, mas como vozes com poder de decisão.
A produção de conhecimento tem como potencial orientar essa mudança. Mas precisa ser uma ciência capaz de dialogar com os territórios, reconhecer saberes comunitários e transformar dados em indicadores para tomada de decisão em ação pública e privada. Números são fundamentais para identificar padrões de mortalidade, exposição e acesso a políticas. Mas relatos de sobrevivência, mapas participativos, experiências locais e práticas de cuidado também são evidências. Muitas soluções climáticas já existem nas comunidades; o que falta é reconhecimento, financiamento e escala.
Bonn SB64 e London Climate Action Week 2026
Essa discussão também apareceu na Conferência de Bonn sobre Mudanças Climáticas, realizada na segunda semana de junho. Bonn é a reunião técnica e diplomática que prepara o caminho para a 31ª Conferência das Partes (COP 31) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC). Ali, especialistas de todo mundo desenvolveram diálogo sobre Dados Desagregados por Gênero e Idade e Análise de Gênero, uma conversa voltada a enfrentar lacunas de informação e propor caminhos para melhorar a produção de dados sobre clima, gênero e adaptação.
O diálogo se concentrou em quatro temas: trabalho de cuidado, saúde, violência contra mulheres e meninas, e engajamento de homens e meninos na ação climática responsiva a gênero. A discussão deixou claro, a diversidade não pode ser reduzida a métricas de gênero e idade. Ela indica a importância de transformar espaços historicamente centralizados por homens, inclusive no IPCC e nas negociações climáticas. Indica também reconhecer metodologias diversas de coleta de dados, sistemas de conhecimento locais e globais, produção científica, saberes territoriais e participação de múltiplos atores.
Nem todo o ambiente em Bonn foi de avanço. Muitas organizações saíram frustradas com retrocessos em temas decisivos, especialmente no financiamento da implementação do Acordo de Paris. Ainda assim, a realidade que se aproxima com o El Niño exige do Brasil uma postura mais firme: ação coordenada, colaboração entre governo, ciência e sociedade civil, e foco em soluções baseadas em evidências.
Ironicamente, durante a Semana de Ação Climática de Londres 2026, que aconteceu na semana do 20 ao 28 de Junho, um painel sobre calor extremo teve que ser cancelado devido a onda de calor recorde que está atingido a Europa nas últimas semanas, tornando insuportável o local que não dispunha de ar-condicionado. O incidente evidencia, com ironia, a fragilidade de processos e ações climáticas demonstrando que as mudanças climáticas estão avançando mais rapidamente do que os atuais esforços públicos e privados para adaptação à crise climática.
A formulação de políticas públicas deve partir de dados desagregados e de conhecimento científico para identificar padrões reais de resiliência. A adaptação climática precisa estar ancorada na realidade dos territórios, não em estereótipos de vitimização. O jornalismo também tem um papel nesse processo: mostrar não apenas mulheres que perderam casas, renda e familiares, mas mulheres que alertaram comunidades, organizaram evacuações, sustentam redes de cuidado, pressionam governos e reconstroem territórios.
Mulheres são agentes da resiliência climática. Mas não se pode continuar esperando que sustentem essa resiliência sozinhas, sem reconhecimento, sem orçamento e sem poder. Colocá-las no centro das decisões não é gesto simbólico. É uma estratégia baseada em evidências para reduzir mortes, proteger comunidades e construir políticas de adaptação mais eficazes.
Diante de riscos previsíveis, o Brasil precisa abandonar o padrão de agir apenas depois do desastre. A ciência já emitiu o alerta. A sociedade civil já apontou caminhos. As mulheres já demonstram sua capacidade de liderar respostas. O que falta é transformar esse conhecimento em decisão política, financiamento e ação concreta.
Gabriela Couto pesquisa e atua na área socioambiental com foco em mudanças ambientais globais, desastres, gênero, papel de atores sociais e educação desde 2007. É autora e cocriadora do projeto Sobrevidas, uma plataforma de compartilhamento de experiências de pessoas que sobreviveram a desastres. Bióloga, ela é doutora em Ciência do Sistema Terrestre pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
Karina Yamamoto é estrategista de comunicação desde 2017. Atua na interseção entre campanhas, incidência política e produção de conhecimento. Doutora em Ciências da Comunicação pela USP (Universidade de São Paulo), ela faz parte do grupo de pesquisa JDL (Jornalismo, Direito e Liberdade), vinculado ao IEA (Instituto de Estudos Avançados).

