A PARTICULARIDADE DE 2026 ESTEVE NA FRONTALIDADE

A Copa do Mundo e o fim da neutralidade do futebol

Entre governos, fronteiras e disputas simbólicas, o Mundial de 2026 mostrou que o futebol nunca esteve fora da política, apenas escolheu quais manifestações considera aceitáveis

A frase segundo a qual “futebol e política não se misturam” costuma surgir sempre que atletas, torcedores ou organizações tentam denunciar desigualdades, discriminações ou violações de direitos. É acionada contra jogadores que se posicionam, seleções que protestam ou torcidas que transformam as arquibancadas em espaços de manifestação.

Curiosamente, o princípio da neutralidade é aplicado de maneira muito menos rigorosa quando a política aparece sob a forma do poder institucional.

A escolha de uma sede é política. A construção de estádios com recursos públicos é política. As regras migratórias que determinam quais torcedores conseguem atravessar uma fronteira são políticas. A relação entre a FIFA e governos nacionais é política. A decisão sobre quais manifestações podem aparecer nos uniformes, nas braçadeiras ou nas arquibancadas também é política.

A própria FIFA afirma, em seus documentos e manifestações institucionais, que deve permanecer neutra em matérias políticas. Ao mesmo tempo, negocia com chefes de Estado, administra relações diplomáticas, escolhe países anfitriões e toma decisões com consequências econômicas e internacionais. A neutralidade, nesse contexto, não significa ausência de política. Significa, muitas vezes, apresentar determinadas escolhas políticas como se fossem apenas técnicas, administrativas ou esportivas.

A Copa de 2026 expôs essa contradição de forma quase didática. De um lado, torcedores argentinos foram acusados de insultos racistas e agressões contra pessoas negras durante partidas contra Cabo Verde e Egito. Em um dos episódios, registrado em vídeo, um torcedor dirigiu ofensas racistas ao influenciador norte-americano IShowSpeed. A FIFA condenou formalmente o racismo e anunciou uma investigação, mas a resposta institucional limitada diante de manifestações tão explícitas reforçou a percepção de que determinados atos de violência são tratados como excessos isolados, e não como expressão de um problema estrutural.

De outro lado, quando Donald Trump, presidente de um dos países-sede, procurou Gianni Infantino para pedir a revisão do cartão vermelho aplicado ao atacante Folarin Balogun, a intervenção foi tratada como interlocução institucional. A FIFA suspendeu a execução da punição, permitindo que o jogador atuasse contra a Bélgica, embora os Estados Unidos tenham sido posteriormente eliminados. Trump chegou a reivindicar publicamente participação no resultado.

Quando um atleta manifesta uma posição política, a FIFA pode invocar regulamentos, aplicar multas e exigir a retirada da mensagem. Quando o presidente do país-sede aciona sua proximidade com o dirigente máximo da entidade e obtém a revisão de uma punição que prejudicava sua seleção, o mesmo gesto recebe outro nome.

Foto: Bryan Berlin/WikiPortraits

A diferença não está na presença ou ausência de política. Está em quem possui poder suficiente para fazer política sem que seu gesto seja imediatamente reconhecido como político, e em quais violências a instituição escolhe enfrentar com rigor ou reduzir a incidentes laterais.

Copas sempre foram arenas de poder. A história dos Mundiais impede que a neutralidade seja levada a sério como descrição da realidade.

A Copa de 1934 foi utilizada pela Itália fascista como instrumento de propaganda e exaltação nacional. Em 1978, a ditadura argentina buscou usar o torneio para projetar uma imagem de normalidade enquanto o Estado promovia perseguições, desaparecimentos e violência política. Em 2018, a Rússia recebeu o mundo em meio a disputas sobre sua política externa e sobre o emprego de grandes eventos como instrumentos de legitimação internacional. Em 2022, o Catar colocou no centro do debate as condições dos trabalhadores migrantes, as restrições a direitos e o uso do esporte como estratégia de projeção geopolítica.

Esses casos não representam momentos excepcionais nos quais a política teria contaminado um esporte originalmente puro. Eles revelam algo mais incômodo: a Copa do Mundo sempre foi uma plataforma privilegiada para a produção de imagens nacionais, a legitimação de governos e a negociação de poder.

A particularidade de 2026 esteve na frontalidade.

Não se tratou apenas de um governo utilizando o sucesso da seleção ou a organização do evento como propaganda. O chefe de Estado interferiu pessoalmente em uma controvérsia disciplinar, pronunciou-se sobre a atuação da arbitragem e acionou sua proximidade com o presidente da FIFA em favor da equipe nacional.

A suspensão da punição provocou questionamentos sobre os critérios adotados pela entidade. A decisão encontrou fundamento no Código Disciplinar da FIFA, mas sua excepcionalidade e o contexto da intervenção presidencial alimentaram críticas sobre possível tratamento preferencial. Isso não comprova, por si só, que Trump tenha determinado o resultado do processo. Mas a sequência dos acontecimentos produz uma dúvida institucional grave: uma seleção sem acesso direto ao presidente da FIFA teria recebido o mesmo tratamento?

A dúvida torna-se ainda mais significativa quando comparada à condução das denúncias de racismo. Enquanto a solicitação do governante produziu uma resposta rápida e materialmente favorável, as vítimas de agressões racistas receberam condenações genéricas e a promessa de investigação.

Em organizações que administram competições, confiança e aparência de imparcialidade não são detalhes. São condições de legitimidade.

 

Fernanda Macedo é especialista em ciências criminais pela Uerj, advogada da Gestão Kairós e professora no MBA do Ibmec.

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