O ELO FORA DO SISTEMA

Matrix, o mito do salvador e a fabricação do ‘outsider’ na política brasileira

Porque a democracia brasileira recorre ciclicamente a figuras que prometem a redenção “de fora”, e como o cinema ajuda a desmontar esse mecanismo de manutenção do status quo

Matrix (1999) é um dos raros filmes de massa capazes de sustentar leituras filosóficas sem deixar de funcionar como espetáculo de ação. Essa dupla natureza o torna útil para pensar um fenômeno bem concreto da política brasileira: a recorrência do “outsider salvador”, o candidato que se apresenta como estranho ao sistema e vocacionado a resgatar o país de fora para dentro.

Jânio Quadros, Fernando Collor e Jair Bolsonaro ocuparam esse lugar, cada um a seu tempo. E é numa virada pouco lembrada do próprio filme que encontramos a chave para olhar essa figura com mais desconfiança: a ideia de que o “salvador de fora”, em vez de romper o sistema, pode ser uma peça que o próprio sistema fabrica para administrar suas crises.

Da caverna ao simulacro

A leitura mais óbvia de Matrix é a platônica: Neo é o prisioneiro que se liberta do mundo das sombras, encara a dor do sol real e tenta libertar os outros – enfrentando quem prefere o conforto da ilusão, como Cypher, que troca a verdade pelo bife simulado.

Há também Descartes: a Matrix é a hipótese do “gênio maligno” em versão high-tech, um sistema de engano sensorial total contra o qual só resta a certeza de pensar. E há Baudrillard – Neo guarda seus discos dentro de um exemplar de Simulacros e Simulação[1] –, cuja tese é que vivemos cercados de signos que já não representam nada além de si mesmos.

Por fim, o filme é um relato quase religioso: um mundo falso criado por um demiurgo (as Máquinas), um conhecimento secreto guardado por iniciados (Morpheus) e um Escolhido – The One, anagrama de Neo – cuja jornada passa por morte, ressurreição e ascensão. A Oráculo introduz uma nota a mais: ela sabe o futuro, mas exige que Neo escolha por si mesmo quem é. Mesmo dentro de um sistema que fabrica seus próprios “escolhidos”, sobra a pergunta sobre o que significa agir – ou votar – como se a escolha importasse.

A virada do Arquiteto

O que a cultura pop costuma esquecer é a reviravolta de Matrix Reloaded. Ao encontrar o Arquiteto, Neo descobre que não é uma exceção: é a sexta versão de um programa de controle. A cada ciclo, a Matrix produz uma “anomalia messiânica”, permite que ela liberte um pequeno grupo de rebeldes e utiliza esse processo como uma válvula de escape. O Escolhido não está fora da engrenagem – é uma peça prevista por ela.

O filme também carrega camadas bem menos filosóficas: a estética cyberpunk e hacker do fim dos anos 1990, o wire-fu do cinema de Hong Kong, e – lida hoje – uma alegoria sobre a transição de gênero de suas diretoras. Já nos anos 2010, o símbolo da “pílula vermelha” foi sequestrado pela extrema-direita e pela manosfera como metáfora do “despertar” – uso que as Wachowski repudiam, mas que mostra como o mito ficou disponível para qualquer lado usar.

Foto: Reprodução/Matrix

O mito do “salvador de fora” no Brasil

Diante do esgotamento da representação tradicional, a democracia brasileira tende a abrir espaço para figuras que se vendem como imunes à lógica do establishment.

Jânio Quadros (1960) usou a vassoura como símbolo do combate à corrupção – apesar de já ter sido prefeito e governador de São Paulo. Renunciou sete meses depois, alegando pressão de “forças ocultas”: um messianismo que preferiu abandonar a cena a lidar com as contradições de governar.

Fernando Collor (1989) foi projetado pela TV como o “caçador de marajás”, o jovem governador de Alagoas contra o “Brasil velho”. Dois anos depois, o impeachment revelou que o perseguidor de marajás operava dentro das mesmas engrenagens que prometia destruir.

Jair Bolsonaro (2018) capitalizou o esgotamento pós-Lava Jato mesmo com sete mandatos de deputado federal nas costas. Sua marginalidade dentro do próprio Congresso, mais que qualquer distância real do sistema, foi o que permitiu lê-lo como anomalia disruptiva.

O caso MBL: a novidade como engenharia

Se nas eleições presidenciais o rótulo de outsider funcionou como estratégia discursiva, o Movimento Brasil Livre oferece um indício mais direto de fabricação deliberada.

A reconstrução mais rigorosa dessa origem é de Camila Rocha[2], cuja pesquisa de campo dentro das próprias organizações ultraliberais rastreia o MBL até uma rede de institutos ligados à Atlas Network – a mesma que financia think tanks de livre mercado em dezenas de países. Não houve efervescência espontânea de rua: houve arquitetura organizacional prévia. Uma reportagem[3] da época acrescenta um detalhe: segundo um dos fundadores do Estudantes pela Liberdade, braço brasileiro dessa rede, o MBL nasceu como uma “marca” separada da entidade financiadora para contornar as restrições da legislação tributária dos Estados Unidos à atuação política direta. Vale registrar que o texto adota um ponto de vista politicamente engajado, mas essa informação específica decorre do relato do próprio fundador. Mais tarde, diante da baixa adesão popular às pautas neoliberais, o grupo deslocou seu discurso para a chamada “guerra cultural” e para o conservadorismo moral.

O quarto ciclo: Renan Santos

Há um desdobramento recente que fecha esse argumento com ironia quase perfeita. Renan Santos, cofundador do MBL, desponta em 2026 como pré-candidato à Presidência pelo partido Missão, subindo nas pesquisas como opção “antissistema”.

Seu discurso reproduz o padrão descrito neste texto quase à risca: recusa em “se polir” ou moderar declarações antigas, a trajetória descrita como uma espécie de “sacerdócio”, a promessa de representar uma direita “sem rabo preso” com o establishment – a mesma reivindicação de pureza que marcou Jânio, Collor e Bolsonaro. A diferença é que, desta vez, quem tenta vestir a máscara do “Escolhido” é o próprio operador reconhecido de uma engenharia de marca política. Não dá para prever o desfecho eleitoral – mas dá para ver, em tempo real, alguém tentando trocar o papel de arquiteto pelo de anomalia.

Os limites da metáfora

O sistema de Matrix é uma inteligência centralizada; o sistema político brasileiro, por sua vez, é fragmentado e disputado por forças antagônicas. Não há um Arquiteto planejando ou controlando cada anomalia.

A ciência política já tem seu próprio vocabulário para isso. Miguel Carreras[4] propõe uma escala de outsiderismo – do “pleno” (sem qualquer carreira prévia) ao “maverick” e ao “amador” – e mostra que essas candidaturas surgem menos de rupturas espontâneas do que de fatores institucionais concretos: crise dos partidos, más condições econômicas, eleições que baixam a barreira de entrada para candidatos independentes.

Por essa régua, nenhum dos três presidentes discutidos aqui seria um outsider pleno: Jânio e Collor já tinham sido governadores; Bolsonaro, deputado por quase trinta anos. “Outsider” funciona mais como recurso de campanha do que como descrição fiel de trajetória. Robert Barr[5] acrescenta uma distinção útil: nem todo outsider é populista, nem todo populista é outsider – os três casos brasileiros não devem ser tratados como fenômeno único.

Vale uma última ressalva: reduzir tudo a “engenharia de cima para baixo” apaga o componente de insatisfação popular genuína que essas figuras capturam. A demanda por representação não é fabricada, mesmo quando a resposta a ela é. As duas coisas coexistem.

O valor de Matrix aqui não está na promessa ingênua do primeiro filme – a de um herói que desliga a máquina sozinho –, mas na sobriedade das sequências: sistemas em crise tendem a produzir periodicamente suas próprias anomalias messiânicas para descarregar pressão popular e se recompor. Reconhecer esse mecanismo não substitui a construção democrática, incerta e coletiva – mas talvez ajude a parar de esperar, ciclicamente, por alguém de fora para fazer o que só pode ser refeito por dentro.

 

Daniel Angelim é militante do MTST e doutorando em Economia Política Mundial pela Universidade Federal do ABC

 

Notas

[1]Jean Baudrillard, Simulacros e Simulação (Relógio d’Água, 1991).

[2] Camila Rocha, “Menos Marx, mais Mises”: uma gênese da nova direita brasileira (2006-2018), tese de doutorado, USP, 2019; publicado em livro pela Todavia, 2021.

[3] Gabriel Barcelos, “O conservadorismo moral como reinvenção da marca MBL”, Le Monde Diplomatique Brasil, 1 out. 2017.

[4] Miguel Carreras, “The Rise of Outsiders in Latin America, 1980–2010”, Comparative Political Studies, v. 45, n. 12, 2012.

[5] Robert R. Barr, “Populists, Outsiders and Anti-Establishment Politics”, Party Politics, v. 15, n. 1, 2009.

 

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