A PRINCIPAL LIÇÃO QUE CHEGA DE KULE

Brincar como política do cuidado

Quando uma criança deixa de brincar, não perde apenas uma brincadeira. Perde uma forma de existir

Há uma cena que dificilmente ocupará as manchetes dos jornais. Em um campo de refugiados na Etiópia, uma criança volta a brincar. Depois de dias internada em um centro terapêutico para tratamento da desnutrição, segura novamente uma bola. A avó observa o gesto com surpresa. Poucos dias antes, a menina mal conseguia mover as mãos. Agora pede para brincar outra vez. Nada de extraordinário. Afinal, brincar é o que as crianças fazem. Mas reside justamente aí um dos equívocos produzidos pela modernidade, que é transformar o brincar em um acontecimento banal, secundário, quase decorativo, quando, em determinadas circunstâncias, ele constitui um dos sinais mais profundos de que a vida está voltando a acontecer.

A experiência conduzida por Médicos Sem Fronteiras (MSF) no campo de refugiados de Kule não trata o brincar como passatempo. Ao incorporar a ludoterapia ao cuidado de crianças pequenas internadas por desnutrição grave, desloca uma compreensão historicamente dominante na biomedicina. Recuperar uma criança significa, obviamente, estabilizar seus parâmetros clínicos ou restabelecer seu peso corporal, mas também devolver-lhe condições para voltar a desejar o mundo, produzir confiança onde a guerra gerou medo, reconstruir vínculos onde o deslocamento forçado produziu ruptura, permitir que a imaginação sobreviva onde a violência tentou converter toda experiência em ameaça.

Essa constatação, embora aparentemente restrita a um campo de refugiados, diz muito sobre o nosso tempo. Vivemos sob uma racionalidade política que aprendeu a administrar a vida, mas esqueceu como produzi-la. Multiplicamos tecnologias diagnósticas, aperfeiçoamos protocolos clínicos, desenvolvemos algoritmos capazes de prever riscos individuais e coletivos. Entretanto, quanto mais sofisticadas se tornam nossas formas de governar os corpos, mais difícil parece reconhecer aquilo que faz uma vida ser vivível.

A tradição biomédica produziu conquistas inegáveis. A redução da mortalidade infantil, a ampliação da cobertura vacinal, os avanços terapêuticos e diagnósticos transformaram profundamente a história da saúde pública. O problema não reside nesses avanços, mas na redução progressiva do cuidado à intervenção técnica sobre um organismo. A vida passou a ser compreendida como funcionamento biológico e cuidar converteu-se, muitas vezes, em corrigir déficits fisiológicos. O corpo tornou-se objeto de administração, enquanto as relações, os afetos, a imaginação e o desejo foram deslocados para um lugar secundário, quase sempre identificado como complemento ou humanização do cuidado.

É precisamente essa hierarquia que a experiência de Kule desestabiliza. O brincar não aparece depois do tratamento. Ele faz parte do tratamento. Não porque distraia as crianças da dor, mas porque reorganiza sua experiência do mundo. A ludoterapia devolve às crianças a possibilidade de explorar, criar, confiar, comunicar-se, experimentar novamente a presença do outro como fonte de segurança e não de ameaça. O que está em jogo é uma política da vida.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A maioria dos pacientes pediátricos em Kule é tratada no Centro Terapêutico de Alimentação em regime de internação, onde crianças com diferentes níveis de desnutrição recebem cuidados nutricionais especializados. “Um dos maiores desafios no tratamento de crianças com desnutrição grave é que elas perdem o apetite e se tornam retraídas ou apáticas”, explica Liya Jemal, gerente de atividades de saúde mental de MSF. “As atividades baseadas em brincadeiras criam um ambiente estimulante e acolhedor, onde as crianças podem gradualmente voltar a se engajar com seus cuidadores, com profissionais de saúde e com outras crianças”, conta.

Donald Winnicott[1] talvez tenha sido um dos autores que melhor compreenderam essa dimensão. Para ele, brincar é o espaço potencial onde o sujeito cria o mundo e, ao mesmo tempo, cria a si próprio. A criatividade cotidiana, a experiência cultural, a capacidade de estabelecer relações e produzir sentido nascem desse território intermediário entre realidade e imaginação. Quando uma criança deixa de brincar, não perde apenas uma brincadeira. Perde uma forma de existir.

Talvez possamos ampliar essa hipótese. O neoliberalismo não sequestra apenas o trabalho, mas coloniza a imaginação. Produz sujeitos permanentemente convocados a performar eficiência, produtividade, desempenho e adaptação. O tempo livre converte-se em tempo de preparação para produzir mais. A infância torna-se investimento, a escola transforma-se em treinamento e o lazer passa a justificar-se por seus ganhos cognitivos. Até o brincar precisa demonstrar utilidade.

Não surpreende, portanto, que tenhamos naturalizado cidades onde brincar se tornou cada vez mais difícil. Praças vazias, ruas hostis, condomínios murados, escolas militarizadas, parques privatizados, infâncias atravessadas pelo medo e pela vigilância permanente. O espaço urbano se modifica, mas principalmente a gramática política dos encontros. Quanto menos convivemos, mais facilmente o outro torna-se ameaça.

Espinosa[2] talvez ofereça uma chave importante para compreender esse processo. Um corpo nunca existe isoladamente. Sua potência depende dos encontros que estabelece. Há encontros que ampliam nossa capacidade de agir e encontros que a diminuem, e a alegria não é um sentimento superficial, mas um aumento da potência de existir. A tristeza corresponde ao movimento inverso. Se tomarmos essa proposição a sério, talvez devêssemos reconhecer que políticas públicas não deveriam limitar-se à administração dos riscos, mas à produção de bons encontros.

É exatamente isso que acontece em Kule. A ludoterapia atua sobre as crianças, mas também sobre seus cuidadores. A avó que volta a brincar com a neta não participa apenas de uma atividade recreativa, mas reconstrói um vínculo interrompido pela guerra, pela fome e pelo deslocamento. O cuidado deixa de circular em uma única direção, do profissional para o paciente, e passa a constituir uma rede de relações na qual todos são simultaneamente cuidadores e cuidados.

Essa dimensão relacional do cuidado aproxima a experiência daquilo que a saúde coletiva brasileira produziu de mais potente nas últimas décadas. O SUS nasce da compreensão de que saúde é produzida nos territórios, nas relações sociais, na cultura, na moradia, na alimentação, no trabalho e nos afetos. Cuidar nunca significou apenas tratar doenças, mas criar condições para que diferentes formas de vida pudessem florescer.

Entretanto, essa concepção permanece sob permanente ameaça. A racionalidade neoliberal transforma direitos em serviços, cidadãos em consumidores e políticas públicas em contratos de desempenho. Hospitais passam a ser avaliados pelo giro de leitos, escolas por indicadores padronizados, universidades por métricas de produtividade, profissionais por metas quantitativas. O tempo do cuidado torna-se incompatível com o tempo da gestão.

Talvez por isso experiências aparentemente pequenas adquiram um significado político tão profundo. Uma criança que volta a brincar em um campo de refugiados desafia toda uma concepção contemporânea de saúde, pois nos lembra de que sobreviver não basta. A vida precisa reencontrar sua capacidade de imaginar.

Walter Benjamin[3] dizia que toda barbárie produz também uma pobreza da experiência. Talvez posso acrescentar que toda política autoritária produz igualmente uma pobreza da imaginação. Não é por acaso que guerras destroem escolas, museus, bibliotecas e parques infantis. Combate-se um território, mas também a possibilidade de que outro futuro venha a ser imaginado.

É nesse ponto que brincar deixa de ser uma atividade infantil e transforma-se em categoria política. Brincar significa experimentar mundos ainda inexistentes, inventar regras, suspender hierarquias, produzir cooperação, deslocar papéis, ensaiar futuros. Nenhum regime autoritário suporta por muito tempo uma sociedade capaz de imaginar outros modos de viver.

E é essa a principal lição que chega de Kule. A saúde não começa quando o organismo volta a funcionar. Começa quando alguém recupera a capacidade de criar vínculos, produzir confiança e desejar o amanhã. Uma criança que brinca depois da guerra está afirmando, silenciosamente, que a violência ainda não conseguiu vencer a vida.

E essa é uma das tarefas mais urgentes das políticas públicas contemporâneas, que é criar condições para que as pessoas possam voltar a brincar. Porque brincar, afinal, nunca foi o oposto da seriedade. É uma das formas mais radicais pelas quais a vida insiste em continuar.

 

Artigo escrito em colaboração com a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras

 

Roger Flores Ceccon é professor da Universidade Federal de Santa Catarina.

 

[1] WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

[2] ESPINOSA, B. Ética. Tradução de Tomaz Tadeu. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

[3] BENJAMIN, Walter. Rua de mão única; Infância em Berlim por volta de 1900. Tradução de João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

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