Zohran Mamdani rompe o silêncio sobre Gaza e exige que os EUA respondam diante da justiça internacional
Quando o prefeito de Nova York denuncia a dimensão humana da destruição de Gaza e exige que o governo norte-americano reconheça a autoridade do Tribunal Penal Internacional, a cidade-sede das Nações Unidas transforma-se no palco de uma pergunta que o mundo já não pode evitar: a lei internacional vale também quando alcança os aliados dos poderosos?
Há momentos em que uma manifestação política ultrapassa inteiramente a autoridade formal de quem a pronuncia. Não porque seja capaz de interromper imediatamente uma guerra ou modificar, por si só, a política externa de uma grande potência, mas porque algumas palavras conseguem expressar aquilo que milhões de pessoas já enxergam e que as estruturas de poder procuram transformar em ruído, controvérsia ou silêncio. Foi essa dimensão que adquiriu a manifestação pública do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, ao denunciar a devastação de Gaza, responsabilizar politicamente Benjamin Netanyahu e defender que os Estados Unidos reconheçam a autoridade da justiça internacional diante do mandado expedido pelo Tribunal Penal Internacional.
A importância dessa manifestação começa pelo lugar de onde ela surge. Nova York não é simplesmente uma das maiores cidades do planeta. É a cidade de Wall Street, centro fundamental das finanças globais, sede de conglomerados econômicos e grandes meios de comunicação, ponto de convergência de algumas das mais poderosas estruturas empresariais e políticas do mundo. Mas Nova York é também a cidade-sede das Nações Unidas, o espaço onde, todos os anos, presidentes, primeiros-ministros e representantes de praticamente todos os povos entram na Assembleia Geral para falar sobre paz, soberania, direitos humanos, democracia e respeito ao Direito Internacional. É precisamente dessa cidade que emerge agora uma cobrança dirigida ao próprio governo dos EUA: se existe uma ordem internacional baseada em regras, essas regras precisam valer também quando atingem os aliados da maior potência militar do planeta.
Essa pergunta tornou-se impossível de evitar diante de Gaza. O que se passa naquele território já não pode ser reduzido à linguagem convencional de uma operação militar. Estamos diante de uma catástrofe humanitária acompanhada praticamente em tempo real pela humanidade. Mortes em massa, deslocamentos sucessivos, destruição de bairros inteiros, hospitais incapacitados, famílias soterradas, crianças mutiladas, fome, colapso sanitário e devastação de uma infraestrutura indispensável à reprodução cotidiana da vida compõem uma realidade documentada por organismos internacionais, jornalistas, profissionais de saúde e organizações humanitárias. A dimensão da tragédia tornou-se pública e notória a tal ponto que a tentativa de descrevê-la apenas como consequência inevitável de uma guerra já não resiste ao peso das imagens, dos testemunhos e dos próprios dados produzidos pelas instituições internacionais.
É exatamente contra essa normalização que a fala de Mamdani ganha força. Ao mencionar dezenas de milhares de mortos, a destruição do sistema de saúde, o sofrimento das crianças, as amputações realizadas em condições extremas e as restrições à ajuda humanitária, ele não apresentou simplesmente uma coleção de números. Recolocou seres humanos dentro das estatísticas. Essa talvez seja uma das disputas políticas e morais mais importantes do nosso tempo, porque uma das formas mais eficazes de tornar suportável o intolerável é transformar pessoas em números e tragédias em boletins administrativos.
Uma criança mutilada não é uma estatística. Uma mãe procurando seus filhos entre escombros não é uma abstração militar. Uma família que foge repetidamente de um bairro para outro não pode ser reduzida à expressão burocrática “população deslocada”. Quando a linguagem perde a capacidade de reconhecer seres humanos concretos, abre-se o caminho para que a violência seja incorporada à normalidade.
Por isso Gaza se tornou uma questão que ultrapassa Israel e Palestina. Tornou-se um teste sobre a própria ideia de humanidade universal. Existe algo profundamente perturbador quando a morte de milhares de crianças pode ser assimilada durante meses ou anos ao funcionamento ordinário da diplomacia internacional. Existe algo moralmente insustentável quando hospitais são destruídos, populações inteiras são deslocadas, a fome se espalha e ainda assim a discussão internacional permanece frequentemente aprisionada à pergunta sobre qual vocabulário seria suficientemente prudente para descrever aquilo que todos estão vendo. A precisão jurídica é indispensável, mas não pode ser utilizada como instrumento de paralisia moral.
A palavra genocídio, por exemplo, deixou há muito tempo de pertencer exclusivamente à linguagem das ruas ou dos movimentos de solidariedade à Palestina. Organismos e especialistas internacionais passaram a sustentar essa caracterização, enquanto a Corte Internacional de Justiça continua examinando o processo apresentado pela África do Sul contra Israel com fundamento na Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio. Não existe ainda uma sentença final de mérito da Corte nesse processo, e essa precisão deve ser preservada. Entretanto, reconhecer que um julgamento definitivo demanda tempo não significa exigir da humanidade que suspenda sua consciência até o último recurso judicial. Tribunais precisam produzir provas, observar procedimentos e estabelecer responsabilidades individuais ou estatais com rigor. A fome, as bombas e a morte, porém, não aguardam o calendário.
O mesmo rigor é necessário quando falamos de Benjamin Netanyahu. O primeiro-ministro israelense é alvo de mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional no contexto de acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Isso não equivale a uma condenação definitiva. Israel contesta a jurisdição do Tribunal e rejeita as acusações. Mas o mandado existe, e é precisamente sua existência que torna a posição de Mamdani politicamente explosiva. O prefeito reconhece que a cidade de Nova York não pode simplesmente substituir o governo federal ou criar unilateralmente uma política internacional própria. O que ele faz é mais importante: recusa transformar essa limitação jurídica em desculpa para a omissão e desloca a responsabilidade para Washington.
A contradição torna-se então monumental. É possível que um governante procurado pelo Tribunal Penal Internacional chegue à cidade-sede das Nações Unidas, atravesse as estruturas diplomáticas de uma potência que proclama reiteradamente seu compromisso com uma ordem internacional baseada em regras e fale diante da comunidade internacional enquanto o mandado que pesa contra ele permanece politicamente neutralizado? Essa questão não pode ser respondida apenas com a lembrança de que os EUA não integram o Estatuto de Roma. Essa é uma informação juridicamente relevante, mas insuficiente para responder ao problema político. A pergunta é outra: por que Washington reivindica universalidade para determinadas regras quando elas alcançam adversários e enfatiza imediatamente todos os limites possíveis da jurisdição internacional quando essas mesmas instituições alcançam aliados estratégicos?
É nesse ponto que Nova York adquire uma força simbólica extraordinária. A mesma cidade que abriga a ONU torna-se o espaço onde a credibilidade do próprio sistema internacional é colocada em julgamento. Não se trata apenas da hipótese concreta de uma prisão. Trata-se de saber se as instituições criadas para limitar os crimes mais graves possuem autoridade efetiva diante daqueles que contam com a proteção política das maiores potências. Se a resposta depender da identidade do acusado, de suas alianças militares ou de sua utilidade geopolítica, então o problema já não é simplesmente uma falha pontual do Direito Internacional. Estamos diante de uma crise de legitimidade de toda a arquitetura construída depois da Segunda Guerra Mundial.

O contraste com o caso venezuelano torna essa questão ainda mais incômoda. Em 2026, a captura de Nicolás Maduro e sua condução aos Estados Unidos demonstraram até onde Washington está disposto a projetar sua própria jurisdição quando considera que seus interesses e suas decisões judiciais justificam uma ação extraterritorial. Maduro e Netanyahu evidentemente não se encontram na mesma situação jurídica, e qualquer tentativa de igualar mecanicamente os dois casos seria intelectualmente pobre. As acusações, as jurisdições e os procedimentos são distintos. Mas justamente por serem diferentes, eles permitem enxergar uma mesma estrutura de poder: quando se trata de um adversário estratégico, a jurisdição norte-americana demonstra capacidade de atravessar fronteiras; quando se trata de um aliado protegido por Washington, a jurisdição internacional encontra repentinamente obstáculos apresentados como praticamente intransponíveis.
Não é necessário defender Nicolás Maduro para perceber a gravidade desse problema. É perfeitamente possível criticar seu governo, denunciar práticas autoritárias, exigir pluralismo, direitos humanos e eleições livres e, simultaneamente, rejeitar a transformação da jurisdição doméstica de uma grande potência em autorização universal para intervenções sobre outros Estados. A soberania não existe apenas para os governos com os quais concordamos. Se aceitarmos que somente países considerados politicamente aceitáveis pelas grandes potências possuem direito pleno à soberania, então já não estaremos falando de uma ordem jurídica internacional, mas de uma hierarquia imperial na qual alguns Estados possuem direitos e outros apenas permissões provisórias.
Essa lógica precisa ser universalizada para revelar sua incoerência. Os EUA aceitariam que forças de outra potência ingressassem em seu território para capturar uma autoridade norte-americana acusada por um tribunal estrangeiro? Evidentemente não. E aquilo que uma potência jamais aceitaria aplicado contra si dificilmente pode ser apresentado como princípio universal quando aplicado aos demais. É exatamente essa assimetria que corrói a legitimidade internacional. Uma regra não se torna universal porque é repetida em discursos; torna-se universal quando também limita quem possui força suficiente para violá-la.
É nesse sentido que a manifestação de Mamdani ultrapassa Gaza. Ela toca no problema central da ordem mundial contemporânea: a distância crescente entre poder e legitimidade. Durante décadas, os Estados Unidos apresentaram sua liderança global como sustentada não apenas pela força militar e econômica, mas também por valores universais. Direitos humanos, democracia, liberdade, soberania e respeito às normas internacionais constituíram parte fundamental dessa narrativa. Mas uma ordem baseada em regras somente pode sobreviver se essas regras forem aplicadas com alguma coerência. Quando os tribunais são legítimos contra adversários e ilegítimos contra aliados, quando a soberania é absoluta para uns e relativa para outros, a linguagem jurídica começa a se confundir com a distribuição real do poder.
Esse fenômeno não é exclusivo dos EUA. Seria ingenuidade imaginar que a simples emergência de um mundo multipolar produzirá automaticamente uma ordem mais justa. Uma multipolaridade composta por potências que apenas disputam zonas de influência pode ser tão perigosa quanto uma hegemonia sem limites. China, Rússia, Estados Unidos ou qualquer outra potência precisam estar submetidos a regras universais. A verdadeira democratização das relações internacionais exige justamente o contrário da lógica imperial: exige que o Direito seja suficientemente forte para limitar inclusive aqueles que possuem poder militar, financeiro e tecnológico para desafiar suas instituições.
Essa discussão também se conecta à concentração econômica característica do capitalismo contemporâneo. Grandes bancos tornaram-se grandes demais para quebrar. Plataformas digitais tornaram-se grandes demais para serem reguladas com facilidade. Gestoras de ativos administram recursos equivalentes às economias de numerosos países. Gigantes tecnológicos controlam dados, infraestrutura de nuvem, semicondutores, inteligência artificial e estruturas essenciais de comunicação. Talvez estejamos entrando agora em uma fase ainda mais perigosa, na qual determinados Estados, corporações e centros de poder se tornam grandes demais para serem efetivamente responsabilizados.
O poder, nesse estágio, já não precisa simplesmente violar uma norma. Ele adquire capacidade para influenciar quando a norma será aplicada, contra quem será aplicada e quando sua aplicação será suspensa. É por isso que Gaza possui uma dimensão que ultrapassa dramaticamente seu território. Gaza tornou-se o lugar onde milhões de pessoas observam se existe de fato uma humanidade jurídica comum ou se estamos caminhando para um mundo no qual alguns povos possuem proteção efetiva e outros recebem apenas declarações de preocupação.
Nenhuma defesa dos direitos palestinos exige negar o sofrimento dos civis israelenses. Os ataques contra civis em 7 de outubro de 2023 devem ser condenados, assim como a tomada de reféns e qualquer violência deliberada contra pessoas que não participam das hostilidades. O princípio precisa ser exatamente o mesmo para todos. Uma criança palestina possui o mesmo valor que uma criança israelense, brasileira, norte-americana, ucraniana ou russa. Essa deveria ser a afirmação mais elementar de qualquer civilização que se pretenda fundada em direitos humanos. No entanto, tornou-se quase revolucionário insistir nessa igualdade.
É precisamente porque todas as vidas possuem o mesmo valor que nenhum crime pode ser utilizado para naturalizar outro. Nenhum massacre pode funcionar como autorização permanente para novos massacres. Nenhuma dor nacional concede licença para destruir indiscriminadamente outro povo. Nenhum trauma histórico pode justificar a produção de novos traumas em escala coletiva. O reconhecimento da humanidade das vítimas israelenses precisa caminhar ao lado do reconhecimento integral da humanidade palestina. Qualquer ética que funcione apenas para um dos lados deixa de ser ética e transforma-se em instrumento político.
A tragédia de Gaza demonstra também como a desumanização é construída. Primeiro, produz-se uma diferença absoluta entre “nós” e “eles”. Depois, generaliza-se o medo. Em seguida, desaparecem os indivíduos e surgem categorias coletivas. Por fim, a morte deixa de causar escândalo e passa a ser administrada como necessidade estratégica. Esse mecanismo não pertence a um povo específico, a uma religião ou a uma ideologia. Ele reaparece em diferentes momentos históricos sempre que sociedades aprendem a tolerar aquilo que, em circunstâncias normais, reconheceriam imediatamente como intolerável.
É por isso que o silêncio possui uma função política. Grandes tragédias nunca dependem apenas daqueles que executam diretamente a violência. Dependem também daqueles que justificam, relativizam, financiam, fornecem armas, constroem discursos de legitimação ou simplesmente transformam a prudência diplomática em método permanente de omissão. Romper esse silêncio, especialmente dentro de uma cidade como Nova York, não resolve a tragédia, mas altera os termos do debate. Mamdani não possui poder para redesenhar sozinho a política externa dos Estados Unidos, tampouco pode transformar por decreto municipal a arquitetura da justiça internacional. Mas sua voz demonstra que a naturalização da barbárie não é inevitável.
Há algo de profundamente simbólico no fato de essa cobrança surgir da cidade da ONU. Ali se encontra a instituição criada, depois das catástrofes da primeira metade do século XX, sob a promessa de que a humanidade tentaria construir limites para a guerra e para o poder absoluto dos Estados. Ali se proclamaram direitos, se firmaram convenções e se repetiu inúmeras vezes a promessa de “nunca mais”. O que Gaza pergunta hoje é quanto vale essa promessa quando sua aplicação alcança governos protegidos pelas estruturas centrais do sistema internacional.
O mundo está assistindo. Está assistindo às crianças palestinas, às famílias deslocadas, aos profissionais de saúde, aos jornalistas, aos trabalhadores humanitários, às cidades transformadas em ruínas e às pessoas que tentam sobreviver onde as condições materiais da vida foram profundamente destruídas. Está assistindo também às vítimas israelenses da violência contra civis e aos familiares marcados pelo terror e pela perda. A defesa radical da humanidade exige enxergar todas essas vidas, mas também exige reconhecer a enorme assimetria de poder e a dimensão concreta da devastação que se abateu sobre Gaza.
O mundo está assistindo ainda aos tribunais internacionais, às Nações Unidas, ao governo norte-americano e às grandes potências que durante décadas proclamaram fidelidade aos direitos humanos. A pergunta agora é simples e brutal: essas instituições existem para limitar realmente o poder ou apenas para administrá-lo seletivamente? Se a lei termina exatamente onde começa a força dos mais poderosos, então não temos uma ordem baseada em regras. Temos regras condicionadas pelo poder.
Por isso a posição de Zohran Mamdani importa tanto. Não porque devamos transformar um prefeito em herói de uma tragédia que pertence sobretudo ao povo que a sofre, mas porque sua manifestação demonstra que ainda é possível recusar o silêncio dentro do próprio coração institucional da potência que sustenta Israel diplomática, militar e financeiramente. Ao exigir que Washington enfrente a contradição entre sua defesa retórica da justiça internacional e sua proteção política a Netanyahu, Mamdani coloca uma questão que nenhum discurso diplomático poderá apagar.
Nenhum presidente pode estar acima da lei. Nenhum primeiro-ministro pode estar acima da lei. Nenhum exército, governo, corporação ou império pode reivindicar para si uma humanidade superior ou uma exceção permanente às normas que exige dos demais. Se a justiça internacional pretende sobreviver como ideia legítima, precisa ser universal. Se os direitos humanos pretendem conservar algum significado, uma criança palestina precisa valer exatamente o mesmo que qualquer outra criança.
Talvez seja essa a verdadeira pergunta que emerge hoje de Gaza e ecoa, pela voz do prefeito de Nova York, da própria cidade-sede das Nações Unidas: que espécie de civilização somos se conseguimos assistir publicamente à fome, à destruição, ao deslocamento e à mutilação de milhares de crianças e ainda encontramos razões políticas suficientes para adiar indefinidamente nossa indignação?
O século XXI será definido, em grande medida, pela resposta que dermos a essa pergunta. Ou construiremos uma ordem internacional capaz de impor limites também aos poderosos, ou aceitaremos definitivamente uma velha regra imperial travestida de modernidade: a lei para os inimigos e a exceção para os aliados.
Se escolhermos esse segundo caminho, talvez aquilo que esteja sendo soterrado sob os escombros de Gaza não seja apenas a vida de um povo e a possibilidade de um futuro compartilhado entre palestinos e israelenses. Estará sendo soterrada também uma das promessas mais fundamentais construídas depois das maiores tragédias do século XX: a ideia de que nenhuma potência, nenhum governo e nenhuma razão de Estado pode valer mais do que a humanidade de uma criança.
E, quando essa ideia desaparece, não é apenas Gaza que está em perigo.
É a própria humanidade.
Flaviano Correia Cardoso é advogado, empregado da Caixa Econômica Federal, pesquisador independente e escritor. Autor de artigos sobre trabalho, saúde mental, democracia, soberania, inteligência artificial, geopolítica e crítica do capitalismo contemporâneo.

