POLÍTICAS PROTECIONISTAS DOS ESTADOS UNIDOS

A volta do “Tarifaço” e a nova política externa dos EUA

As ações dos EUA fazem parte de uma competição estratégica global que subordina as regras coletivas a interesses domésticos e geopolíticos. Nesse contexto, o Brasil precisa manter uma postura independente e defender seus próprios interesses

O novo endurecimento da política comercial dos Estados Unidos contra o Brasil representa mais do que uma controvérsia estritamente comercial. O chamado “tarifaço” é manifestação de uma nova lógica guiando a economia internacional, mas, sim, na qual segurança nacional, competição tecnológica e alinhamentos estratégicos passam a ocupar espaço que antes era dominado pelas regras multilaterais da Organização Mundial do Comércio (OMC).

As medidas anunciadas pela administração Trump impõem tarifas de 25% sobre uma ampla lista de produtos brasileiros – incluindo açúcar, etanol, máquinas, móveis e calçados –, mas mantém isenções para itens considerados estratégicos para a economia norte-americana, como café, carne bovina, suco de laranja e componentes aeronáuticos. Apesar do impacto relevante sobre alguns setores da economia brasileira, ele tende a ser limitado do ponto de vista do conjunto desta. Os Estados Unidos continuam sendo um parceiro comercial importante, porém deixaram há muito tempo de ser o principal destino das exportações brasileiras. Nas últimas duas décadas, a crescente participação da China e de outros mercados asiáticos reduziu significativamente a dependência brasileira em relação ao mercado norte-americano, o que limita os efeitos macroeconômicos imediatos das tarifas.

Entretanto, reduzir a discussão aos efeitos comerciais seria um erro de interpretação. O elemento mais relevante do episódio é sua dimensão política. A utilização de tarifas para pressionar parceiros comerciais rompe com uma tradição construída desde o pós-guerra, quando predominava a ideia de que disputas comerciais deveriam ser resolvidas por meio de instituições multilaterais. O retorno do protecionismo americano, intensificado com o primeiro governo Trump e aprofundado em seu segundo mandato, revela uma mudança estrutural na política externa dos Estados Unidos.

Essa mudança decorre da percepção por setores da sociedade estadunidense de que a globalização produziu efeitos adversos sobre parte da indústria do país. Ao longo das últimas décadas, sucessivos governos passaram a utilizar tarifas, subsídios e restrições comerciais para estimular a reindustrialização doméstica, reduzir dependências estratégicas e disputar liderança tecnológica com a China. Nesse contexto, parceiros tradicionais também passaram a ser alvos de medidas unilaterais. Em relação especificamente à América Latina, as exigências comerciais e acordos são vistos pelo governo estadunidense como uma forma de assegurar o seu domínio geopolítico mantendo o poder em relação aos vários países de nossa região.

Foto: Alan Santos/PR

O Brasil acabou inserido nessa estratégia por diferentes razões. Além das alegações comerciais formais, Washington passou a incorporar temas ambientais, comércio digital, políticas industriais, a questão dos minerais estratégicos e terras raras e até aspectos institucionais ao debate econômico bilateral. A agenda bilateral passa a ser efetivamente muito mais ampla, e mais política, para além de questões meramente comerciais. Vale observar que alguns desses temas, como a questão do comércio digital, já havia aparecido no embate direto entre Brasil e EUA em outros espaços de discussão, como a OMC, onde o impasse em torno da questão da moratória de tributação em comércio digital gerou o travamento da última Ministerial, em Camarões, aprofundando a maior crise que o sistema multilateral atravessa desde a sua criação, e segue provocando problemas, com os EUA insistindo em garantir condições privilegiadas para suas “Big Techs”.

Há também uma dimensão geopolítica difícil de ignorar. O fortalecimento dos BRICS, a crescente aproximação econômica entre Brasil e China e a defesa brasileira de uma ordem internacional mais multipolar são frequentemente percebidos com desconfiança por setores políticos nos EUA, em especial no universo conservador republicano.

Do lado brasileiro, o episódio evidencia outro desafio: a necessidade de ampliar a diversificação comercial, reduzir vulnerabilidades externas e defender a soberania nacional. Nos últimos anos, o país avançou na expansão de mercados na Ásia, Oriente Médio e África, mas continua dependente da exportação de produtos primários e de baixo valor agregado. Para reduzir a exposição a medidas unilaterais como a do governo Trump, a política comercial brasileira deve ser articulada com uma política industrial consistente, além da expansão do mercado interno com o aumento da renda da população brasileira e a utilização de mecanismos de compras públicas. Esse tipo de agenda, no entanto, está ameaçada pela atual oposição de extrema-direita, que critica a condução da política externa e defende uma aproximação mais submissa a Washington, com elementos de alinhamento automático aos EUA.

O comércio internacional parece ter se tornado explicitamente um espaço de competição estratégica entre Estados nacionais. Tarifas, investimentos, tecnologia, economia digital, energia, minerais estratégicos e cadeias produtivas passaram a integrar uma agenda de segurança econômica. Países que não desenvolverem capacidade tecnológica, base industrial competitiva e ampla diversificação de mercados estarão cada vez mais expostos às estratégias de outros na geopolítica e no comércio internacional.

A era da globalização baseada fundamentalmente na liberalização comercial parece estar sendo substituída pelo retorno de políticas industriais ativas, pelo protecionismo e pela competição geoeconômica entre as grandes economias e seus aliados possíveis. Para o Brasil, a resposta mais eficaz dependerá de uma estratégia de longo prazo que combine defesa da soberania, fortalecimento da indústria nacional, redução das desigualdades, ampliação da inovação, diversificação de mercados externos e maior capacidade de inserção em uma economia internacional complexa e com forte disputa geopolítica.

 

Adhemar S. Mineiro é economista, Assessor da REBRIP.

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