A clareira, os rios e o pacto dos silêncios
Há quem pense que a violência de gênero começa quando alguém levanta a mão. Mas ela costuma começar muito antes
No momento em que o país volta a debater os caminhos de enfrentamento à violência contra a mulher no agosto lilás, deparei-me com uma frase dita em tom de brincadeira em uma coluna sobre política: “É melhor vestir saias do que calças que não se sustentam na hora de correr da polícia.” A aparente banalidade da expressão revelou algo mais profundo: a violência contra a mulher raramente começa no corpo ferido que ocupa as manchetes. Antes do golpe, existe o gesto que diminui, a palavra que desautoriza e o aprendizado silencioso de que algumas de nós precisarão justificar, continuamente, o direito de ocupar determinados espaços de poder.
Foi então que me lembrei de uma história contada aqui na Amazônia. Naquela parte da floresta onde os rios se alargavam, havia uma clareira em que tudo se decidia: quem guardaria os caminhos, quem falaria por todos. Mas a clareira não era apenas um lugar de decisões; era, sobretudo, um espaço de reconhecimento. Por gerações, as onças ocuparam o centro. Não por determinação legal, mas por um pacto antigo e invisível sobre quem parecia nascer destinado àquele lugar. Nas sombras, quase imperceptíveis, as grandes jiboias sustentavam o compasso. O poder ali era menos uma questão de força do que de hábito, memória e silêncio.
Foi nesse equilíbrio que uma coruja chegou ao centro. Nada mudou nos pergaminhos. As decisões seguiram sendo tomadas, os rios continuaram correndo e a floresta permaneceu de pé. Ainda assim, instalou-se um desconforto. Não porque a coruja governasse mal, mas porque sua presença deslocava uma certeza antiga. Vieram os murmúrios: “Está pronta?”, “Tem firmeza?”, “Decide ou apenas ocupa o lugar?”. As perguntas, que pareciam inocentes, jamais eram dirigidas às onças. Pouco a pouco, a floresta deixou de discutir as decisões para discutir quem as tomava.

O padrão consolidou-se. A hesitação da onça era prudência; a ponderação da coruja, fraqueza. A firmeza da onça era liderança; na coruja, transformava-se em arrogância. Se demonstrava sensibilidade, era frágil; se exercia autoridade, era autoritária. E as jiboias, silenciosas, apertavam. Não pela força, mas pelas insinuações, pelas dúvidas semeadas e pelas pequenas desqualificações que, somadas, estreitavam o espaço sem jamais se declararem violência. A clareira pesava com duas balanças: uma visível, outra escondida. E era a segunda que sempre decidia primeiro.
Foi assim que a suspeita deixou de ser exceção e passou a ser método. Já não era necessário impedir a chegada das corujas aos espaços de decisão; bastava transformar sua liderança em prova permanente. Exigia-se delas uma excelência que nunca se cobrava dos outros. Cada erro confirmava antigas desconfianças; cada acerto era tratado como exceção. A exclusão já não dependia de portas fechadas. Bastava que o pertencimento jamais fosse plenamente reconhecido.
Há quem pense que a violência de gênero começa quando alguém levanta a mão. Mas ela costuma começar muito antes: quando uma profissional percebe que sua competência nunca basta; quando uma mulher é interrompida antes de concluir uma ideia; quando sua autoridade depende da aprovação de quem jamais precisou pedi-la. A agressão física, tantas vezes, apenas torna visível uma violência que já vinha sendo construída em silêncio.
Um dia, alguém que caminhava pela margem do rio – de onde o centro raramente olha – perguntou baixinho: “E se o defeito nunca tivesse sido da coruja?”. A pergunta atravessou a floresta como vento antes da chuva. Respondê-la exigiria admitir que a clareira nunca foi apenas um espaço de decisões, mas também um lugar onde nem toda autoridade recebia o mesmo reconhecimento. E talvez continue sendo.
A violência de gênero deixa marcas que nem sempre aparecem na pele. Ela também se instala nos gestos cotidianos que definem quem inspira confiança, quem é levado a sério e quem precisa provar, todos os dias, que merece estar onde está. Quando uma mulher ultrapassa os lugares que a tradição lhe reservou, sua competência deixa de bastar, sua autoridade passa a ser questionada e sua presença precisa ser continuamente justificada. Enquanto isso permanecer natural, os rios continuarão correndo como se nada tivesse mudado. E o pacto dos silêncios continuará parecendo apenas parte da paisagem da clareira.
Marta Renata da Silva Freiras Alves é mestre em Direitos Humanos pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Coronel da Polícia Militar do Acre, primeira mulher a comandar a corporação e pesquisadora das relações entre gênero, poder e instituições de segurança pública.


Fantástico! Uma reflexão da realidade enfrentada diariamente.