DESIGUALDADE SOCIAL

As possibilidades econômicas de Keynes em um mundo de mudanças disruptivas

Embora o crescimento da renda média global tenha alcançado patamares próximos aos previstos por Keynes, a expectativa de uma redução significativa da jornada de trabalho e de uma sociedade mais solidária, capaz de distribuir os frutos da prosperidade, não se concretizou. Ao contrário, persistem elevados níveis de concentração de riqueza e de fome, enquanto novas tecnologias, em vez de necessariamente ampliarem o bem-estar, também podem contribuir para a precarização das relações de trabalho

Entre 1928 e 1930, o economista britânico John Maynard Keynes escreveu o ensaio Possibilidades econômicas de nossos netos, no qual especulou sobre a realidade econômica de cem anos depois, isto é, dos dias de hoje. Em um contexto marcado por mudanças (ambientais e tecnológicas) disruptivas, revisitar tal ensaio configura um exercício extremamente interessante.

Keynes previu que o progresso tecnológico e a acumulação de capital fariam com que o padrão de vida hoje fosse entre quatro e oito vezes maiores do que em seu tempo. Com isso, as sociedades se tornariam cada vez mais solidárias, compartilhando a prosperidade, de modo que o trabalho se tornaria cada vez menos necessário, e jornadas semanais de 15 horas seriam mais do que suficientes.

Em termos de padrão de vida, a previsão de Keynes foi bastante acertada. Segundo dados do World Inequality Database[1], a renda per capita do mundo (medida pela paridade do poder de compra) em 2025 era 6,4 vezes maior (em termos reais) do que em 1930 (WID, 2026). Mas será que esta renda pode continuar a crescer?

Em um contexto marcado por uma inegável crise climática, no qual o planeta está mais quente – entre 2013 e 2022 (em média) 1,15 ºC acima do período pré-industrial (1850-1900)[2] – e as catástrofes ambientais se tornam mais intensas e frequentes, será que a continuidade do crescimento econômico é possível? E, se for, ela é desejável?

Para que haja crescimento, é preciso que estejam disponíveis os chamados “fatores de produção”, isto é, capital e trabalho. No mundo, a falta de mão de obra não configura um problema, dada sua subutilização (fora da força de trabalho, desempregada, subempregada, na informalidade, etc.), enquanto o capital – entendido como meios de produção, fábricas, máquinas, insumos, etc. – é produzido no próprio processo produtivo. Portanto, caso não faltem recursos naturais, é possível dar continuidade ao crescimento econômico.

Diferentemente de visões catastrofistas, entende-se que é possível continuar a crescer, uma vez que os recursos naturais são finitos, mas estão longe de ser escassos (quanto mais se esgotarem) frente à sua demanda. Para além dos recursos naturais já disponíveis, novos recursos e novas reservas de recursos podem ser encontrados, bem como podem ser desenvolvidos novos métodos, mais produtivos, de utilizá-los e reciclá-los.

Assim, a questão que se coloca é se o crescimento é desejável, e, em caso afirmativo, que forma ele deveria assumir. Aqui entra a conveniência do crescimento: ele continua sendo particularmente importante para os países mais pobres, nos quais níveis mais elevados de renda per capita ainda são necessários para garantir padrões de vida dignos e reduzir desigualdades. Esse crescimento, contudo, deve ser orientado na direção da mudança técnica que reduza seu impacto ambiental, em um primeiro momento, e em seguida caminhe para a regeneração do meio ambiente.

Ademais, o crescimento é desejável em termos distributivos. Desconsiderando eventos disruptivos como guerras ou revoluções, tem-se que é muito mais difícil reduzir a concentração de renda fora de contextos de crescimento econômico, nos quais o mercado de trabalho aquecido aumenta o poder de barganha da classe trabalhadora e sua parcela na renda nacional.

Isso nos remete à segunda parte – bastante equivocada – da previsão de Keynes. As sociedades não se tornaram mais solidárias; pelo contrário, a concentração de renda permanece hoje extremamente elevada. Mesmo em um contexto de abundância material, a miséria e a fome persistem. Para se ter uma ideia, em 2024, cerca de 673 milhões de pessoas passaram fome no mundo, o que representa 8,2% da população global (FAO et al., 2025). Esta desigualdade também se manifesta nas jornadas de trabalho, que estão muito distantes das 15 horas previstas por Keynes.

De acordo com Huberman e Minns (2007)[3], a jornada média de trabalho no mundo em 1929 era de 47,8 horas semanais, número que caiu para pouco menos de 40 horas nos últimos anos, segundo dados da International Labour Organization (ILO, 2026)[4]. E esta média esconde disparidades. Mais de 36% da força de trabalho trabalha mais de 48 horas por semana, enquanto as jornadas inferiores a 35 horas semanais concentram-se entre as mulheres, em grande medida em razão de sua participação desproporcional no trabalho doméstico e de cuidado não remunerado.

Isso traz à tona a discussão sobre o avanço tecnológico, ponto particularmente interessante no contexto de disseminação da Inteligência Artificial (IA). Indiscutivelmente, ele contribuiu para o aumento da produtividade. Mas há também sua face negativa, tanto no que tange ao desemprego tecnológico (substituição de trabalhadores por máquinas), quanto – surpreendentemente – na deterioração das condições de trabalho.

Crédito: Vilar Rodrigo/Wikimedia Commons

Novas tecnologias que impactam significativamente o processo produtivo tendem a suprimir empregos e gerar outros. Não seria implausível supor que, a exemplo do que se observou com a revolução industrial, o aumento da produção mais que compense os impactos iniciais negativos nos níveis de emprego.

Se o avanço tecnológico aumenta a capacidade de geração de riquezas, ele poderia facilitar o trabalho e reduzir a jornada necessária para se produzir o mesmo. Mais recentemente, o que tem se observado é a tecnologia – em especial as Tecnologias de Informação e Comunicação – sendo utilizada em diferentes casos para tornar ainda piores as condições laborais.

Observa-se, em diversos setores, o aumento do controle sobre as condições de trabalho, a dissolução entre o trabalho e o lazer, e a disseminação de relações trabalhistas mais flexíveis e instáveis, bem como de contratos intermitentes, zero-hora, nos quais o trabalhador permanece quase sempre disponível e só recebe pelas horas trabalhadas, muitas das vezes com poucos direitos trabalhistas. Isso em muitos casos implica jornadas de trabalho ainda  maiores, em especial, nas áreas periféricas e nos trabalhos de menor qualificação. E esta é uma tendência que pode ainda ser acentuada pela IA.

Assim, tem-se que as previsões formuladas por Keynes há cem anos mostraram-se apenas parcialmente corretas. A produção multiplicou-se de forma considerável, mas isso não se traduziu em uma sociedade mais solidária, capaz de compartilhar os frutos da prosperidade e estendê-los a todos.

Talvez a melhor imagem que sintetize isso tenha se observado durante a pandemia, quando bilionários – alguns deles, não por acaso, donos de gigantes big techs – foram para o vácuo do espaço, enquanto milhões de pessoas morriam na Terra sem ar, em grande medida em razão da má distribuição dos recursos disponíveis. Trata-se de um exemplo simbólico: a prosperidade gerada é impressionante, os avanços tecnológicos são inimagináveis, mas a divisão dos frutos gerados é mesquinha.

 

Luciano Alencar Barros é professor do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.

 

[1] World Inequality Database (WID). 2026. Gross Domestic Product (GDP), Average Income, 1800–2024. Accessed June 4, 2026. https://wid.world/world/#anninc_p0p100_999_i/WO-PPP/last/eu/k/p/yearly/a/false/1222.85/20000/curve/false/country

[2] IPCC, 2023: Climate Change 2023: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Core Writing Team, H. Lee and J. Romero (eds.)]. IPCC, Geneva, Switzerland, 184 pp., doi: https://doi.org/10.59327/IPCC/AR6-9789291691647.

[3] Huberman, M. e Minns, C. 2007. The times they are not changin’: Days and hours of work in Old and New Worlds, 1870–2000. Explorations in Economic History, v. 44, n. 4, p. 538-567.

[4] International Labour Organization (ILO). 2026. ILOSTAT: Wages and Working Time Statistics (COND) Database. Geneva: International Labour Organization. Accessed June 3, 2026. Website: https://ilostat.ilo.org/topics/working-time/?utm

 

[1]World Inequality Database (WID). 2026. Gross Domestic Product (GDP), Average Income, 1800–2024. Accessed June 4, 2026. https://wid.world/world/#anninc_p0p100_999_i/WO-PPP/last/eu/k/p/yearly/a/false/1222.85/20000/curve/false/country

[2]IPCC, 2023: Climate Change 2023: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Core Writing Team, H. Lee and J. Romero (eds.)]. IPCC, Geneva, Switzerland, 184 pp., doi: https://doi.org/10.59327/IPCC/AR6-9789291691647.

[3] Huberman, M. e Minns, C. 2007. The times they are not changin’: Days and hours of work in Old and New Worlds, 1870–2000. Explorations in Economic History, v. 44, n. 4, p. 538-567.

[4] International Labour Organization (ILO). 2026. ILOSTAT: Wages and Working Time Statistics (COND) Database. Geneva: International Labour Organization. Accessed June 3, 2026. Website: https://ilostat.ilo.org/topics/working-time/?utm

 

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