Ciro, de volta às origens
O político representa um retorno às origens conservadoras, priorizando o ego em detrimento de um projeto coletivo coerente. Suas escolhas políticas recentes resultaram em um isolamento partidário, enfraquecendo sua relevância no cenário nacional brasileiro
É difícil imaginar, mas líderes extravagantes geralmente se impõem autoderrotas. O ano era 1979, e a ditadura civil-militar no Brasil agonizava. A Universidade respirava novos ares. E, após duas décadas, o movimento estudantil voltava a ganhar força. Na Universidade Federal do Ceará (UFC), um jovem acadêmico era eleito para assumir o Centro Acadêmico da Faculdade de Direito. Embalado por seu ufanismo peculiar, o audacioso estudante bradou: “ainda serei presidente da República.” Não fosse o período de abertura da ditadura, aquele grito seria interpretado por seus pares como uma autoderrota.
O jovem era Ciro Ferreira Gomes, que, a despeito da pouca idade, figurava nas fileiras da Arena, berço político da ditadura militar. De fato, sua trajetória política mostrou-se auspiciosa. Em menos de uma década, foi eleito deputado estadual, prefeito da capital e governador. Tudo isso dentro de um arco de aliança com o centro, a direita e, claro, os conservadores que, nos idos dos anos 1990, ainda mantinham ligados os aparelhos do carcomido sistema opressor.
Desde então, Ciro colecionou autoderrotas. A primeira delas é sua famosa inconsistência em terminar projetos. Estando deputado, virou prefeito, que virou governador, que virou ministro, que virou…. Tudo isso sem concluir o que havia iniciado. Já como primeiro-ministro do Interregno governo Itamar, bradou em rede nacional que “quem paga ágio é burro e quem cobra é ladrão.” Estava certo, mas faltou-lhe diplomacia, e Brasília não perdoou. Em nome de uma suposta coerência, para manter-se fiel a Tasso Jereissati, que, à época, articulava ser vice na chapa de Lula, negou participar do governo FHC. Autoexilou-se à sombra do famoso professor Mangabeira Unger num curso de verão na prestigiada Harvard, de onde retornou para sua primeira candidatura à presidência em 1998.
Acumulou musculatura para alçar voo próprio, criando em seu entorno um robusto reduto eleitoral. Do menor a maior, falava-se de Sobral, Ceará, e do Nordeste, que parecia acreditar piamente em suas ideias. Nesse imbróglio, ainda ministro de Lula, tratou de opor-se a Tasso Jereissati. E, depois de fazer seu irmão governador por duas vezes, fez também, por duas vezes, seu sucessor, o desconhecido Camilo Santana. De onde também elegeu o prefeito da capital, hoje seu fiel escudeiro, Roberto Claúdio.
Nesse ínterim, colecionava derrotas, chegando ao limite de perder no Ceará e até mesmo em sua cidade, Sobral.

A velha retórica do antigo estudante, ainda em vigor, em vez de aproximar, parecia distanciar do planalto. Em 2018, fez um malabarismo imenso para namorar com os órfãos do então preso político Lula da Silva. Acabou viajando para Paris, abandonando seu reduto à extrema-direita. Quando todos pensavam que faria um gesto à democracia, inclusive seu irmão, Ciro negou-se no subir no palanque improvisado no Aeroporto Internacional de Fortaleza, ainda que aquele gesto fosse meramente simbólico. Estabeleceu, aqui, sua autoderrota com a esquerda, pois permitiu que o ego falasse mais do que sua suposta coerência.
Hoje, de olho no naco político de Bolsonaro, Ciro age por ego. Declara guerra a antigos aliados e alia-se a antigos inimigos. Vomita números para dar a impressão de inteligência, mas seu projeto é cada vez mais seu.
Como um insólito, aliou-se às pessoas que até ontem gravavam vídeo esfaqueando uma caixa de papelão, em analogia à namorada. Agregou-se a um certo tipo de gente que ele mesmo acusava de fazer motim e, por isso, ser contra o povo cearense.
Ciro voltou às origens, agora no discurso e na prática. Se a premonição do antigo estudante funcionasse, não sei qual seria seu limite. O fato é que ele nunca entregou o que prometeu. Para ser justo, o único mandato que terminou foi o de deputado federal, em 2006, quando, segundo o site da Câmara Federal, foi o deputado mais faltoso daquela legislatura. O certo é que a candidatura ao governo do estado é, em princípio, mais uma autoderrota. Independentemente do resultado eleitoral, Ciro já perdeu por ter voltado às origens.
Rafael dos Santos da Silva é professor na Universidade Federal do Ceará. Doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra e autor do Livro A Dinâmica Social da Pobreza.

