Ciro, de volta às origens
O político representa um retorno às origens conservadoras, priorizando o ego em detrimento de um projeto coletivo coerente. Suas escolhas políticas recentes resultaram em um isolamento partidário, enfraquecendo sua relevância no cenário nacional brasileiro
É difícil imaginar, mas líderes extravagantes geralmente se impõem autoderrotas. Em 1979, a ditadura civil-militar brasileira agonizava. A Universidade Federal do Ceará (UFC) respirava novos ares. O movimento estudantil ganhava força e o Centro Acadêmico Clovis Bevilaqua elegia à presidência o altivo João Alfredo Telles Melo. Todavia, reavivando a velha expressão escolástica de “contradição em termos”, um jovem acadêmico pregava boicote àquelas eleições estudantis bradando: “ainda serei presidente da república.” Talvez sem perceber, a pachorra do neófito político tragava-o à sua primeira autoderrota.
O jovem em questão era Ciro Ferreira Gomes, que, a despeito da pouca idade, derivava das fileiras da Arena, berço político da ditadura militar, e de seu pai, José Euclides. A princípio sua trajetória política mostrou-se auspiciosa. Em menos de uma década foi eleito deputado estadual, prefeito da capital e governador. Tudo isso, dentro de um amplo arco de aliança com o centro, a direita e a “direita da direita” que ainda mantinham ligados os aparelhos do carcomido sistema opressor.
Com o tempo, Ciro acumulou musculatura política criando em seu entorno um robusto reduto eleitoral. De menor a maior, articulava seu palco entre Sobral e o Nordeste, com não raros voos nacionais.

Contudo, Ciro passou a colecionar autoderrotas. A mais famosa delas é a inconsistência dos seus projetos. Ao longo de nove filiações, virou deputado, que virou prefeito, que virou governador, que virou ministro, que virou…. que virou… No governo interregno de Itamar, foi ministro da Fazenda, mas faltou-lhe diplomacia e Brasília, que não é Sobral, não perdoou. Mais tarde, em nome de uma suposta coerência com Tasso Jereissati, que à época visava aboletar a vice na chapa de Lula, negou-se a participar do governo FHC. Em seguida, ao regressar de um curso de verão em Harvard, traiu o Tasso Jereissati para se tornar ministro de Lula.
Isso é Ciro!
De verdade, a velha retórica do antigo estudante mais distanciou do que o aproximou do planalto. Em 2018, após um imenso malabarismo intelectual, desejou, sem sucesso, assumir o espólio político de Lula. Como resposta, embarcou para Paris abandonando um respeitado reduto eleitoral de mais de dois dígitos. Nesse ínterim, Ciro colecionou derrotas. Perdeu eleições, argumentos, e até o irmão, a quem jurava fidelidade. Aqui estabeleceu sua autoderrota mais evidente.
Hoje, de olho no naco bolsonarista, amplia mais um pavimento de sua autoderrota. Declara guerra aos antigos aliados e alia-se aos antigos inimigos. Hoje, bate continência para a liderança de um motim e abraça o blogueiro extremista e bolsonarista que até ontem fazia live esfaqueando uma caixa em analogia à sua namorada. Fala números para dar a impressão de desenvolvimentista, mas sua inteligência mira num projeto cada vez mais pessoal.
Se a premonição do antigo estudante funcionasse, não sei qual seria seu limite. O certo é que sua candidatura ao governo do Estado do Ceará é, por princípio, mais uma autoderrota.
Independentemente do resultado eleitoral, Ciro já perdeu porque voltou às origens. Agora no discurso e na prática.
Rafael dos Santos da Silva é professor na Universidade Federal do Ceará. Doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra e autor do Livro A Dinâmica Social da Pobreza.


Parabéns Professor Rafael. Amei a narrativa dessa figura política. Que dia à dia desgasta-se por sua escolhas e opções políticas. Obrigado pelo excelente artigo.