Angela Chaves conta sobre a criação da coletânea que dá vida a monumentos do Rio de Janeiro
Em Histórias de Ferro e Pedra, a roteirista traz histórias que convidam o leitor a redescobrir a cidade carioca por meio da imaginação
A cidade do Rio de Janeiro é permeada de estátuas, imagens e construções que guardam muitas histórias. Mas, e se estátuas observassem os passantes? O que elas pensariam? É exatamente essa pergunta que levou Angela Chaves, autora e colaboradora em séries e novelas premiadas como Éramos Seis, Os Dias Eram Assim e Maysa – Quando Fala o Coração e mais recentemente, Pedaço de Mim (da Netflix); a criar uma coletânea de contos em que estátuas, imagens, calçadas e monumentos cariocas são transformados em personagens de narrativas de realismo mágico.
Em Histórias de ferro e pedra (Editora Mordru), cada conto traz um universo fantástico construído a partir de cenários reais que resgatam a história da cidade e geram no leitor o ímpeto de olhar para o cotidiano com lentes imaginativas. Ao final, traz ainda um QR Code que direciona o leitor para um mapa interativo no Google Maps, a fim de que possa viajar pelos espaços urbanos enquanto a lê.

Angela Chaves nasceu no Rio de Janeiro e cresceu na Zona Norte da cidade. Atualmente divide seu tempo entre a Zona Sul carioca e o sertão do Nordeste. É formada em Letras e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Possui cinco livros infantis e infantojuvenis publicados. Construiu uma carreira consolidada na televisão e no streaming como autora e colaboradora de séries, novelas e minisséries, e assina também, com a roteirista Mariana Torres a adaptação do romance Véspera, de Carla Madeira, para a Max (HBO).
Confira uma entrevista pingue-pongue com a autora
O livro traz a premissa de dar voz aqueles que tudo observam e são praticamente invisíveis. De onde você tirou inspiração para essa premissa? E por que desenvolver esses temas?
Esse livro começou com o encanto pela estátua Inverno e sua história real, quando supostamente esteve desaparecida do Passeio Público e depois retornou ao seu lugar de origem. A partir daí, e, ao fazer um curso de leitura e escrita com Rona Hanning, comecei a pensar em vários contos que resgatassem algum aspecto da memória da cidade. Desenvolvi as narrativas em cenários diversos, com gêneros diferentes, buscando usar a imaginação ao olhar o cotidiano em paisagens pouco notadas.
A imaginação é um ponto importante para essa obra, certo? Qual a importância que você vê neste ato de imaginar? O que ele representa para você?
Acredito que imaginar é uma forma de conhecimento, do mundo e também individual. Nesse mundo atual inundado de imagens prontas, até de inteligências artificiais que preparam tudo, não devemos perder a capacidade de criar nossas próprias imagens e histórias, ver de olhos fechados, enxergando de um outro jeito a nós e ao mundo. Uma influência bem grande da leitura de Italo Calvino, Seis propostas para o próximo Milênio, que não por acaso está na minha epígrafe, uma frase do capítulo que trata do tema: Visibilidade.
Você tem cinco livros infantis e infantojuvenis publicados. A experiência com o universo lúdico de escrever para crianças e jovens te auxilia nesta construção imaginativa?
Sim, me ajudou muito, assim como a experiência audiovisual e a escrita mais concisa e imagética. O livro, embora tenha um tom lúdico muito presente, não se direciona apenas ao público infanto-juvenil, embora jovens leitores possam gostar e se envolver com os personagens também.
Além de Calvino, houve outras inspirações na construção da história e de sua narrativa? Por que escolher o formato de contos?
Sou apaixonada por contos e por literatura fantástica. Sempre li muito Borges, H G WELLS, Melville e tantos outros. Assim como Memórias Póstumas é sempre uma referência e a narrativa gótica de O Morro dos Ventos Uivantes não sai da minha cabeceira…. Portanto criar histórias onde uma estátua, uma mosca, uma lagartixa ou uma falecida sejam protagonistas da ação narrativa e observem o mundo segundo seu ponto de vista peculiar, me pareceu algo muito promissor e natural.
Falando um pouco de sua carreira, você é autora e roteirista de importantes obras audiovisuais, tendo escrito um grande sucesso como Pedaço de Mim, Netflix. Quais as principais diferenças entre escrever para uma linguagem audiovisual e um livro? Qual das duas escritas é mais desafiadora para você?
São formatos tão diferentes, cada um com seu desafio particular. Escrever um livro é um projeto mais pessoal. A narrativa audiovisual é um processo mais coletivo. Várias vozes atuam e são responsáveis pelo produto final, mesmo quando se trata de uma obra original como Pedaço de Mim, por exemplo. Há o diretor, os atores, a produtora, tudo influencia numa obra que tem que ser escrita em prazos estabelecidos e segundo regras necessárias.
De que maneira suas produções audiovisuais e literárias anteriores te auxiliaram na escrita de Histórias de ferro e pedra?
As produções audiovisuais me auxiliam sempre porque é o que mais faço: escrever para uma narrativa audiovisual, então não dá para separar uma coisa da outra. O olhar é de uma roteirista que escreve literatura (também). Sendo assim, tudo se mistura. A palavra é a minha forma de expressão e é isso que une as duas pontas. Ouvir, ver e contar histórias é o caminho que eu sigo – e minha forma de estar no mundo.
O que esta obra representa para você? O processo de escrita dela te modificou de alguma maneira?
Acredito que a obra representa liberdade e experimentação. Escrever é uma forma de expressão importante para mim. Trabalho com isso o tempo todo. Mas com esse livro pude ter liberdade para escrever como quis, cada conto de um jeito, cada personagem representa uma parte de mim. Essa liberdade só a literatura traz.
Ana Ferrari é uma jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduanda em Edição e Gestão Editorial pelo Núcleo de Estratégias e Políticas Editoriais (NESPE). Sempre teve forte ligação com a literatura e às vezes se aventura a escrever textos ficcionais.

