Ode a Nova York
Mamdani com certeza terá muito trabalho pela frente
É uma hora da manhã de uma sexta-feira, nas últimas semanas do verão de 2026, e eu estou em frente à janela voltada para a sétima avenida, algo chuvosa, ouvindo Chopin, no mesmo tablet em que escrevo esta ode a Nova York.
A imagem que aparece no vídeo do Chopin é de uma solitária pessoa sentada junto a um piano de cauda, em um amplo cais com gaivotas, em círculos, sobrevoando o mar ao fundo, no compasso da música… e inúmeras imagens rondam a minha mente, surgem e desaparecem.
Manhattan, embora uma ilha, vive para dentro, faz pouco caso dos caudalosos Hudson e East rivers, que deságuam logo adiante no Atlântico. As águas só aparecem como pedestal para a cidade fotografada a partir do Brooklyn, o vizinho distrito encravado em Long Island. Aparecem também rodeando a Estátua da Liberdade, presenteada pela França Revolucionária. As águas não fazem parte da cidade, das águas vieram os imigrantes no final do século XIX e início do XX – todos querendo esquecer tanto suas terras, que deixaram para trás, como as águas que os trouxeram para o Novo Mundo.
Há quarenta anos, neste mesmo prédio que ora habito, eu trocava o dia pela noite, debruçado sobre números e textos relacionados ao sistema financeiro internacional pós crise do dólar de 1971, enquanto se ensaiava a futura moeda europeia – o euro. O clima na New School, que abrigou Hannah Arendt, era de apreensão, dada a Perestroika e a iminente desestruturação da União Soviética.
Eric Hobsbawm estava absorto com a questão das nações e dos nacionalismos e, por acaso, morávamos no mesmo prédio da sétima avenida com a rua 15, a duas quadras da New School. Tudo isso junto me remete ao Rei da Polônia ocupada pelo Terceiro Reich, Hans Frank, que, ao piano, com alma, dedilhava Chopin no Castelo de Wawel, em Cracóvia, enquanto administrava a submissão e o massacre dos poloneses – o virtuoso pianista foi condenado por crimes contra a humanidade e executado em 1946. O mesmo Terceiro Reich que havia levado Hannah Arendt ao exílio da Alemanha em 1933, após sua detenção pela Gestapo. A mesma Hannah Arendt que foi amaldiçoada pelos sionistas, por conta de sua cunhagem do conceito de banalidade do mal, por ocasião do julgamento de Eichmann em Jerusalém em 1961.
Voltando para a nostálgica Nova York, a modernidade, que acompanha a cidade desde sempre, milagrosamente consegue preservar o seu caráter eminentemente humano. Suas largas avenidas e a romântica Brooklyn Bridge – com seis pistas para bondes e outros veículos puxados por cavalos e uma passarela suspensa para pedestres – foram traçadas no século XIX, antes mesmo do advento do automóvel. Não há no planeta cidade com maior diversidade étnica e cultural – Zohran Mamdani, imigrante muçulmano nascido em Uganda, de origem indiana, que o diga.

Uma alegria contagiante emana da cidade, de seus bravos e irreverentes doces bárbaros. Só duas vezes na vida vi Nova York cair em depressão – depois que as duas torres do World Trade Center desabaram em 2001, quando downtown ficou por mais de um mês envolta em uma espessa nuvem de concreto pulverizado; e durante a pandemia do coronavírus, que também derrubou a cidade. Hoje, Nova York está novamente radiante, com as pessoas esbanjando bom humor, interagindo em suas mais diversas indumentárias, costumes, línguas e sotaques, se permitindo estabelecer diálogos fortuitos e espirituosos com qualquer um. E, desde 2022, a maconha para uso recreativo é comercializada em lojas licenciadas, que garantem a qualidade do produto a preços competitivos com o mercado ilegal.
A companhia de águas e esgotos da cidade está trocando os encanamentos da rua e avisou que todo o quarteirão ficaria sem água por 8 horas, em dois dias consecutivos. Mas, antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, caí na gargalhada ao ser presenteado pela companhia com um imenso balde, devidamente reforçado.
Do alto das minhas 75 primaveras, sou hoje a pessoa mais antiga no prédio de 100 apartamentos, incluindo moradores e funcionários, que vi ingressarem jovens e hoje são respeitáveis adultos que não perderam o humor – iranianos, indianos, haitianos, malaios etc. Em nossos reencontros, relembrando os velhos tempos, uma alegre algazarra toma conta da portaria. Entre 1985 e 1987, época em que morei full time em Nova York, uma senhorinha magra e frágil administrava o prédio, sozinha, com o auxílio de folhas de papel almaço quadriculado, emendadas e dobradas em pregas. Desde 1988, volto anualmente para passar um mês nesta cidade que amo de paixão. A administradora, que foi substituída por um exército de funcionários computadorizados, faleceu aos 106 anos de idade.
Nesta megalópole precisamente planejada, que prima pela eficiência e na qual as pessoas não repetem números nem informações, meu endereço se resume a 6 dígitos – 205W15. Enganam-se os ávidos turistas – ocupados em comprinhas e em colocar a cidade no bolso – que acham que os novaiorquinos vivem para o trabalho. Marquei um encontro com a minha nova gerente do banco e, entretidos em conversas pessoais e sobre a China, quase nos esquecemos de tratar de negócios – a eficiência no trabalho permite que as relações sejam prazerosas. Falando em turistas, o Chelsea, bairro pobre, industrial, decadente e desolado até as últimas décadas do século passado, é hoje um espaço sofisticado e badalado, com forte apelo cultural – Whitney Museum of American Art, Chelsea Art Gallery District, Arte Museum New York, The Shed, High Line, Chelsea Piers, Pier 57, Little Island – além dos arrojados edifícios, projetados por alguns dos mais consagrados arquitetos de vanguarda do mundo. E, às margens do Hudson River, corre hoje um bando de pedestres – que antigamente evitavam a região por considerá-la tenebrosa – mesmo sem cachorros ou a polícia atrás deles.
Nem tudo são flores
Será que este autor vive no mundo da lua? Não está acompanhando as aventuras de Donald Trump pelo planeta?
Então, vamos lá! Mamdani com certeza terá muito trabalho pela frente. O Dia do Trabalhador é oficialmente comemorado em 1º de Maio – Chacina de Chicago – em todos os países do mundo, menos nos Estados Unidos, que o comemoram na primeira segunda-feira de setembro. O decadente Império Americano, ao contrário da maior parte dos países, também nunca regulamentou férias para os trabalhadores. As empresas costumam oferecer férias do tipo 1 semana nos primeiros 5 anos de trabalho, 2 semanas de 5 a 10 anos, 3 semanas de 10 a 20 anos e 4 semanas após 20 anos de serviço (a contagem do tempo de trabalho para efeito das férias recomeça do zero a cada novo emprego). Um amigo americano, cansado de não gozar de férias plenas, me disse que iria abrir um “negócio próprio”. Aí eu observei – “Ótimo, assim você nunca mais terá férias pelo resto da sua vida”.
Outro dia, passando pela Washington Square, o quartel-general da contracultura novaiorquina, parei num stand com panfletos revolucionários e perguntei ao rapaz da banca o que ele achava do Mamdani – “Fine!” Aí eu disse – “Só isso?” E ele – “Mamdani não é a revolução!”
Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de New York, New York.

