A crise no STF nas disputas por quem é “cristão legítimo” nas redes evangélicas
Monitoramento mostra como a crise no STF mobilizou profecias, orações e referências bíblicas em defesa do ministro, em um momento de intensificação da mobilização anti-Lula e de novos apoios religiosos a Flávio Bolsonaro
A vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula entre eleitores evangélicos aumentou de 23 para 30 pontos percentuais em um eventual segundo turno, segundo a pesquisa Quaest divulgada em 21 de setembro. Flávio passou de 51% para 58% nesse segmento, enquanto Lula permaneceu com 28%.
Os números chegam em um momento em que lideranças religiosas tornam mais explícitos seus posicionamentos eleitorais. Mas parte dessa mobilização política acontece também fora dos púlpitos. Lideranças mais radicalizadas podem estar menos vocais dentro das igrejas, mas seguem usando as redes sociais e outros espaços para circunscrever o voto religioso à direita.

Nas últimas semanas, um dos episódios em que esse movimento apareceu com força não aconteceu diretamente na campanha eleitoral, mas no Supremo Tribunal Federal.
O embate entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes, no contexto das investigações relacionadas ao caso Master, mobilizou nas redes sociais discursos baseados em uma leitura espiritual dos acontecimentos na Corte. É o que mostra a oitava edição do monitoramento Narrativas Evangélicas e Contexto Eleitoral, realizado pela Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque.
Entre 31 de agosto e 13 de setembro, foram analisados 573 perfis de influenciadores evangélicos e lideranças religiosas e políticas. Nesse período, profecias, pedidos de oração, personagens bíblicos e referências à batalha espiritual foram mobilizados para interpretar a crise no Supremo. André Mendonça passou a ser apresentado como “escolhido”, “ungido” e “instrumento de Deus”, enquanto Alexandre de Moraes foi associado a um campo moral e espiritual adversário.
Mensagens religiosas publicadas anteriormente também voltaram a circular e passaram a ser reinterpretadas diante dos acontecimentos recentes. Uma profecia da pastora Valnice Milhomens feita meses antes foi recuperada como confirmação de que Deus estaria agindo por meio de Mendonça. Silas Malafaia voltou a compartilhar uma mensagem de setembro de 2025 em que afirmava que Deus derrotaria Moraes “no tempo certo”. Durante os atos de 7 de setembro, em São Paulo, Sônia Hernandes orou por Mendonça, enquanto ela e Estevam Hernandes convocaram correntes de oração em apoio ao ministro.
A mobilização também recorreu a personagens bíblicos. Mendonça foi comparado a Daniel na cova dos leões e associado, em conteúdos compartilhados pelo senador Magno Malta, à história de Ester. Moraes, por sua vez, apareceu relacionado ao rei Belsazar e, em algumas imagens favoráveis a Mendonça, recebeu representações demoníacas.
Essas referências compõem uma gramática religiosa em que Mendonça aparece como um cristão autêntico e verdadeiro, perseguido e injustiçado, enquanto Moraes ocupa o campo espiritual adversário. A disputa no Supremo passa, assim, a ser narrada também como uma batalha entre o bem e o mal.
Nessa narrativa, Mendonça enfrenta não apenas adversários individuais, mas um “sistema corrompido”, associado por essas lideranças à esquerda no Executivo e no STF. A controvérsia entre ministros passa, assim, a circular também por meio de categorias religiosas de bem e mal.
Essa mobilização, no entanto, não surgiu de forma orgânica no campo evangélico. Um dos gatilhos foi o próprio Mendonça. Em 4 de setembro, o ministro publicou um vídeo direcionado a aliados no qual faz uma oração. As lideranças reagiram ao material, contribuindo para ampliar a circulação das postagens em sua defesa.
A defesa de Mendonça acontece em um contexto em que o monitoramento também identifica maior explicitação dos posicionamentos eleitorais de algumas lideranças religiosas. Na mesma quinzena, cresceram tanto as manifestações de apoio a Flávio Bolsonaro quanto os conteúdos de mobilização contra Lula.
Estevam Hernandes declarou voto em Flávio Bolsonaro, que também esteve em igrejas durante o período. Cláudio Duarte intensificou a campanha “Lula não”, com um vídeo que alcançou mais de 1 milhão de pessoas. Valnice Milhomens também ampliou conteúdos contrários a Lula recorrendo a referências bíblicas, pautas morais e à linguagem da batalha espiritual.
É nesse contexto que Mendonça também ganha centralidade política. A mensagem que essas lideranças passam é a de que o cristão, para ser legítimo, não pode ser de esquerda, precisa ser de direita. Mendonça materializa, nessas narrativas, o lugar de uma liderança íntegra e associada ao bolsonarismo.
A movimentação ocorre enquanto as principais candidaturas buscam caminhos distintos de aproximação com o eleitorado evangélico. Flávio Bolsonaro tem frequentado igrejas e se vinculado a lideranças religiosas. Lula, por sua vez, afirmou que não pretende realizar atos políticos dentro de igrejas e sua estratégia tem sido menos visível. Algumas iniciativas de aproximação, como a participação de Janja cantando um hino gospel com o pastor Kleber Lucas no lançamento da campanha, soaram forçadas ao campo evangélico.
O monitoramento também mostra que o campo evangélico não se movimenta em uma única direção. André Janones, deputado federal e liderança política com identidade evangélica, publicou 151 conteúdos e alcançou 5,1 milhões de interações no período analisado. Nos últimos relatórios, percebemos uma reação maior da esquerda por meio de Janones, que também recorre a uma gramática de guerra e convocação em defesa de Lula. Benedita da Silva, Marina Silva, Henrique Vieira e Aava Santiago também aparecem entre as lideranças evangélicas à esquerda acompanhadas pelo levantamento.
Nada disso significa que a mobilização religiosa em torno de Mendonça explique o desempenho de Flávio Bolsonaro entre os evangélicos. Pesquisa eleitoral e monitoramento de redes medem fenômenos diferentes, e não há elementos nesses materiais para estabelecer uma relação de causa e efeito.
O que o monitoramento permite observar é a mensagem construída por determinadas lideranças nesse contexto, que tem associado suas posições políticas como decorrências naturais ou necessárias da fé cristã. O crescimento de reações no campo da esquerda, nesse contexto da crise no STF, demonstra como o evento aprofundou disputas pelo “voto evangélico” nas redes e reativou debates sobre quais cristianismos podem ocupar legitimamente o espaço público.
Flávio Conrado é diretor de Campanhas da Casa Galileia, antropólogo e doutor em Sociologia e Antropologia pela UFRJ.
Lorena Mochel é antropóloga, pesquisadora da Casa Galileia e pós-doutoranda na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

