INTELIGÊNCIA ARTICIAL

O perfil derrubado do Porchat, o impulsionamento do X e as intervenções eleitorais da IA que a gente não vê

Como controlar o impacto das Inteligências Artificiais que nós não vemos?

Dia desses acordei com uma notícia um tanto preocupante: o perfil no Instagram da Boutique das Pretas, loja de roupa de uma grande amiga, havia sido suspenso. O fato era preocupante porque a loja é seu ganha pão e o Instagram o principal meio de divulgação. Me disponibilizei para ajudar a recuperar o perfil, usando dos meios necessários, especialmente auxiliando-a a redigir uma reclamação para os órgãos de defesa do consumidor. O que mais me chamou a atenção na situação foi a alegação da empresa, que dizia:

“Nossa tecnologia detectou que sua conta (ou a atividade nela) não segue nossas regras e, por isso, tomou uma medida” – grifos meus.

“Nossa tecnologia”, guardem isso. Nossa (é propriedade de alguém), Tecnologia (um sistema sociotécnico que toma decisões automatizadas). A decisão não foi de uma pessoa. Não foi uma denúncia de alguém. Quem detectou a suposta irregularidade foi a “nossa tecnologia”. A repetição neste início é proposital e essencial “NOSSA TECNOLOGIA”: este é o ponto de interesse deste artigo.

A justificativa de suspensão, extremamente genérica, de desacordo com as “políticas e padrões” da plataforma, foi semelhante àquela dada para a derrubada do perfil da série de Fábio Porchat que tratava da relação entre o banco Master, a igreja Lagoinha, a família Bolsonaro e outros nomes da extrema direita brasileira. Genérico, também, foi o pronunciamento da Meta após decidir pela restauração do perfil:

“Após uma revisão interna, restauramos a conta mencionada pela reportagem. Pedimos desculpas pela inconveniência.”

Mas o que lastreou a decisão de derrubada? O que lastreou a decisão de retomada? Qual política tinha sido supostamente desrespeitada? Foi, novamente, um “erro”? Uma decisão equivocada tomada por “nossa tecnologia”? Ocorre que, como ensina o professor André Lemos, da Faculdade de Comunicação da UFBA, em obra recente[1], tais “erros”, mais do que eventos improváveis, revelam porosidades e entrelaçamentos entre os domínios técnicos, sociais, jurídicos, políticos, etc. Por vezes, o “erro” pode revelar aquilo que não foi dito nas explicações genéricas.

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

Tanto o argumento da identificação de uma irregularidade por “nossa tecnologia”, no caso particular da Boutique das Pretas, quanto os argumentos genéricos para suspensão e/ou retomada identificados, também, na suspensão do perfil sobre a nova série de Fábio Porchat, cumprem uma função muito bem definida: revelar o mínimo possível sobre as decisões internas das empresas que trabalham para controlar o conteúdo que circula em suas plataformas.

Como afirmado, o erro, por vezes, revela mais do que o dito genericamente. Conforme artigo recente publicado junto com o professor André Lemos[2], que analisou a decisão do STF de decidiu responsabilizar as plataformas digitais por conteúdos de terceiros, a atual dinâmica algorítmica das plataformas tem o controle do conteúdo como pressuposto de seu funcionamento. A “liberdade de expressão”, principal argumento dos ministros vencidos no julgamento (8 a 3), parte da ideia enganosa de que redes sociais como Instagram, Facebook ou X distribuem informação sem nenhum controle, sendo simples meio pelo qual as ideias circulam entre seres humanos conectados. Mas a realidade é outra, pois o controle sobre a produção e distribuição de conteúdos é parte elementar do funcionamento destas redes. Elas decidem qual conteúdo vai ter alcance, porque vai ter alcance e quem vai alcançar. Tudo isso é controlado por uma entidade quase fantasmagórica: o algoritmo, um tipo de Inteligência Artificial (IA).

A ascensão meteórica das tecnologias de Inteligências Artificiais Generativas (GenIA) entre 2022 e 2026, tornou o impacto destas técnicas uma das principais preocupações da Justiça Eleitoral para as eleições do ano corrente. Saber como lidar com os conteúdos que circulam na internet, na válida preocupação de compreender se são verdadeiros ou sintéticos (criados por GenIA) é um paradigma importantíssimo, tendo sido alvo de uma série de regulamentações do TSE. Mas o assunto que quero explorar mais um pouco aqui é outro: como controlar o impacto das Inteligências Artificiais que nós não vemos? Como auscultar as inteligências artificiais que permanecem como “caixas-pretas”, determinando decisões sobre conteúdos que circulam em território nacional em pleno período eleitoral?

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) enviou um relatório no fim de agosto ao Palácio do Planalto, Ministério da Justiça e ao TSE em que elevou a possibilidade de influência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras a um “nível de criticidade”. O texto, segundo reportagem da CNN, cita documentos do governo Trump e afirma que os objetivos do presidente norte-americano são:

“Redução da influência de potências rivais dos EUA na América Latina e de negação do acesso dessas potências a ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas na região, em favor de seu controle, direto ou indireto, pelo governo dos EUA ou pelo capital privado estadunidense”.

Entre os principais ativos estratégicos estão, também, os chamados “minerais críticos”, essenciais para a fabricação de produtos estratégicos da indústria de tecnologia como semicondutores, sistemas de inteligência artificial, computadores e smartphones. Outro tema sensível na relação entre Brasil e Estados Unidos é a regulação das Big Techs[3]. Estas que se entrelaçam, inevitavelmente, com a mesma necessidade de exploração dos minerais críticos. A proximidade entre estas empresas de tecnologia e o governo dos EUA não é meramente ideológica ou de conveniência temporária: é uma convergência duradoura de interesses materiais, políticos e financeiros. Elas precisam de minerais críticos, o governo precisa de minerais críticos. Ao mesmo tempo em que elas precisam de construir mais data centers, precisam de menos regulação para lucrar mais. Já para o governo, a questão é também sobre vencer a corrida tecnológica contra a China. O entrelaçamento entre as pautas do governo e das corporações de tecnologia norte-americanas não é sobre mera convergência ideológica, não é sobre a defesa da liberdade de expressão nas redes, é sobre dinheiro e proeminência geopolítica.

Além de estar competindo com a China pelo desenvolvimento mais rápido de tecnologias de IA, os EUA querem garantias de fornecimento de terras raras como nióbio e lítio para reduzir a dependência da própria China, que hoje controla a maioria das reservas. Enquanto isso, o atual governo brasileiro quer diversidade de parceiros comerciais no setor de minerais críticos e tem forte proximidade com o grupo BRICS, do qual a China faz parte. Além disso, quer regular as plataformas digitais, tendo uma agenda própria de soberania digital sendo desenvolvida. Já o seu concorrente, convenientemente apoiado pelo governo dos EUA, promete o oposto: nenhuma regulação de plataformas digitais e entreguismo total dos minerais críticos para os EUA.

É neste contexto que foram identificados perfis estrangeiros fazendo impulsionamentos pagos de publicações no “X” favorecendo este mesmo concorrente. As publicações usavam dados da Polymarket, que tem o filho de Donald Trump (Trump Jr.) como um dos principais investidores. Porém, questiono: e os impulsionamentos que a gente não vê? Quantas decisões da “nossa tecnologia” são tomadas diariamente e não são auscultadas publicamente por não tratar da suspensão de um perfil com engajamento alto (como se deu com o da série do Porchat); não são passíveis de questionamento em órgãos de defesa do consumidor por não serem decisões tornadas visíveis pela suspensão do perfil de uma loja; e não chegam aos olhos da Justiça Eleitoral por não se tratar de nenhuma publicação específica usando GenIA e foi, por isso, denunciada?

Em resumo: e as decisões das “nossas tecnologias” que permanecem invisíveis nas caixas-pretas dos algoritmos? Como estão agindo, nas eleições brasileiras, as IAs que a gente não vê? Como estão agindo as “nossas tecnologias”? Ou, no caso, as tecnologias deles?

Walmir Estima é jurista, especialista em Relações Internacionais, mestre e doutorando em Comunicação e Cultura Digital na UFBA vinculado ao Lab404 – Laboratório de Mídias Digitais, Redes e Espaço.

 

[1] LEMOS, André. A comunicação precária: erros, falhas e perturbações na cultura digital. Edições 70, 2025.

[2] LEMOS, André; ESTIMA, Walmir. Responsabilidade civil das plataformas digitais no Brasil: a materialidade das plataformas na análise do julgamento do STF. Galáxia (São Paulo), v. 51, p. e73593, 2026.

[3] Grupo de grandes empresas de tecnologia estadunidenses formado principalmente por Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft.

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