BRASIL E ESTADOS UNIDOS

A interferência estrangeira e o voto dos indiferentes

As eleições de 2026 serão disputadas também fora das urnas. Em meio à crescente interferência estrangeira, à disputa política entre Brasil e Estados Unidos e a uma parcela significativa da população indiferente ou indecisa, o resultado pode depender menos dos decididos e mais daqueles que preferem não se posicionar

As eleições nacionais de 2026 ocorrem em um cenário de instabilidade política sem equivalente nas últimas décadas. No plano nacional, as instituições são contestadas; o Supremo Tribunal Federal enfrenta uma crise intensa que deslegitima a justiça brasileira; o Congresso se torna uma força que desafia o sistema constitucional de freios e contrapesos com legisladores radicalizados e um sistema de emendas parlamentares que movimenta recursos bilionários de maneira pouco transparente, enquanto o governo federal se vê desafiado por forças opositoras e pela insatisfação popular por não conseguir entregar o mesmo Estado de bem-estar social construído por Lula na primeira década do século. Para além disso, a sociedade brasileira também se vê imersa em um debate intenso e aparentemente inconciliável, presente no país desde julho de 2013.

O cenário internacional é igualmente turbulento. A crise de hegemonia da grande potência norte-americana resulta em atitudes extremadas para garantir a manutenção de sua posição. Donald Trump questiona a ordem liberal estabelecida visando a assegurar os interesses dos Estados Unidos e do sistema capitalista neoliberal, promovendo guerras, tarifaços, o desmonte de regimes e organizações internacionais e golpes de Estado. Em 2026, a América Latina voltou a ocupar papel central nesta tentativa de manutenção do status quo norte-americano, e agora, em especial, também o Brasil.

Lançamento da campanha do senador Flávio Bolsonaro, candidato à presidência da República, com vice Alfredo Gaspar, em comício do Partido Liberal (PL) na praia de Copacabana.
Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

Em seu discurso à 81ª Assembleia Geral da ONU, na última semana, o presidente Lula foi claro ao reconhecer que forças estrangeiras procuram interferir no processo eleitoral brasileiro. Também foi transparente sua interpretação de que tal inferência teria como objetivo boicotar a democracia brasileira, privilegiando agentes políticos ligados ao passado autoritário da ditadura militar, forte aliada aos EUA. Lula se referia aos constantes movimentos que membros da família Bolsonaro vêm realizando para garantir sua vitória nas eleições de 2026, com diversas tentativas diplomáticas extraoficiais de atentar contra a soberania nacional.

Não seria a primeira vez que os Estados Unidos interferem tão diretamente na política local. Os militares brasileiros responsáveis pelo golpe de 1964, tiveram o apoio direto do governo norte-americano para realizá-lo, contando inclusive com suporte logístico-militar. No entanto, não é necessário movimentar exércitos para garantir a influência de Donald Trump sobre as eleições brasileiras de 2026: há outros mecanismos mais discretos à disposição. Para analisar essa viabilidade, precisamos separar duas dimensões:

O método da interferência: apoio aberto

A primeira dimensão se refere ao que se vê há meses ocorrendo entre a família Bolsonaro e a Casa Branca. Em março de 2026, o então deputado Eduardo Bolsonaro fugiu para os Estados Unidos evitando uma possível prisão por ordem do ministro Alexandre de Moraes. Seu trabalho, desde então, tem sido orquestrar junto de autoridades norte-americanas um boicote ao governo brasileiro, principalmente por meio da articulação para a imposição de tarifas que prejudicariam a economia nacional. Igualmente, nos últimos meses, o senador e candidato Flávio Bolsonaro fez seis viagens aos Estados Unidos para tratar de assuntos políticos e comerciais entre os dois países.

Esses dois casos correspondem ao que a literatura denomina intervenção eleitoral aberta[1], na qual se busca que a opinião pública esteja ciente dos interesses de um país estrangeiro em apoiar determinado candidato em outro país. Estudos indicam que essa prática é mais eficaz que uma intervenção eleitoral encoberta e sem o conhecimento do público, podendo aumentar significativamente a votação do candidato apoiado – neste caso, Flávio Bolsonaro.

Mesmo com tal possibilidade no horizonte, emerge a dúvida de por que alguém apoiaria uma interferência estrangeira em seu próprio país, ou, em outras palavras, por que alguém votaria em um candidato que abertamente vem tentando fragilizar seu país frente a uma superpotência. A resposta a essa inquietação está na maneira com a qual os brasileiros se relacionam com a política.

Apoio popular: o que querem os brasileiros

A segunda dimensão a ser analisada diz respeito às preferências políticas dos brasileiros. Todo governo, por mais forte que seja, precisa de apoio popular. E no Brasil, atualmente, não faltam elementos que levariam à sustentação de um regime autoritário: a cultura política do Brasil é estranha aos valores liberais que fundamentam as instituições democráticas que foram importadas até aqui. Isso significa que há pouco apelo popular à garantia do Estado democrático de direito a longo prazo, expondo a fragilidade institucional nacional que há anos alguns consideravam consolidada.

Dados coletados, em 2018, pelo World Values Survey[2], no Brasil, indicam que 37,7% dos brasileiros consideram democrático o exército tomar o controle do país quando o governo é incompetente, frente a 37,5% que veem como antidemocrático e 25,1% que se mostraram indiferentes ou não souberam responder. Do mesmo modo, 56,4% dos brasileiros se mostraram favoráveis a ter um líder forte que não precisasse se preocupar com o Congresso ou com eleições, frente a 29,7% desfavoráveis e 13,9% que não souberam ou não quiseram responder. Esses dados ilustram as fortes tendências autoritárias dos brasileiros que favorecem a estratégia antidemocrática e entreguista da extrema-direita como campanha eleitoral.

Algo parecido já podia ser visto nas pesquisas que antecederam e sucederam o golpe militar de 1964: a sensação de medo do comunismo impulsionado pela direita era uma das justificativas centrais para a deposição de Jango[3] – algo que posteriormente foi contestado e interpretado como parte de uma estratégia para alterar o projeto de desenvolvimento nacional.

Eleições de 2026 e a cartada dos indiferentes

Assim como em 1964, em 2026, o Brasil conta com uma parcela da população indiferente à situação política do país. Mesmo com debates políticos e eleitorais mais efervescentes que nunca, diversas pesquisas de opinião têm apontado o empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro, acompanhado por um número elevado de intenções de votos nulos, brancos ou indecisos. Tal qual os dados voltados aos valores políticos dos brasileiros, os indiferentes são a peça central para definir uma maioria.

Se a extrema-direita brasileira e os Estados Unidos apostam em uma estratégia de interferência aberta para impactar a decisão dos eleitores, não se pode menosprezar o papel da opinião pública em legitimar ou rejeitar a interferência estrangeira no pleito nacional. Neste momento, a cartada final do destino do país pode caber aos indiferentes.

Em meados do século XVIII, Karl Marx já havia escrito que a história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa. Há 62 anos, a interferência dos EUA no governo brasileiro alterou o curso da história política do país para privilegiar os interesses norte-americanos sobre a América do Sul – mas não é preciso voltar tanto tempo ao passado. Em janeiro deste ano, um golpe de Estado promovido na Venezuela depôs o governo Maduro e o resultado vigente é a entrega total dos recursos financeiros provenientes da produção de petróleo diretamente à economia norte-americana. Em um contexto de crescimento da importância da exploração das terras raras, escassez de água pelas mudanças climáticas e reativação da relevância brasileira no cenário geopolítico, não restam dúvidas quanto ao interesse norte-americano em ter Brasília subserviente a Washington – e Trump já escolheu o candidato disposto a aplicar seu projeto.

 

Vítor Oliveira é doutorando e mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Bacharel em Relações Internacionais pela mesma instituição. Pesquisador associado à equipe brasileira do World Values Survey.

 

[1] LEVIN, D. When the great power gets a vote: The Effects of Great Power: Electoral Interventions on Election Results. International Studies Quarterly, v. 60, p. 189-202, 2016.

[2] WORLD VALUES SURVEY. Brazil – Round Seven. Disponível em: <https://www.worldvaluessurvey.org/WVSContents.jsp>. Acesso em 24 set. 2026.

[3] MOTTA, R. O golpe de 1964 e a ditadura nas pesquisas de opinião. Revista Tempo, v. 20, p. 1-21, 2014.

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