LITERATURA

“Hiperpolítica”, de Anton Jäger, mostra corpo politizado e cabeça vazia do século 21

Convivemos pouco, ou quase nada, com o outro. E essa parece ser a explicação mais adequada para a época que vivemos, que Jäger classifica como “hiperpolítica”

Crédito: Divulgação

O “fim da história”, anunciado por Francis Fukuyama, parece ter chegado ao fim, se é que, com a queda do Muro de Berlim, ela tenha de fato findado. O aceleracionismo nos expõe a fatos novos – e intensos – todos os dias. Guerras, genocídios, promessas de apocalipses climáticos ou tecnológicos, ascensão da extrema direita etc. 

Surgem, então, zilhões de diagnósticos do presente em livros, jornais e revistas, redes sociais. Da “crise da saúde mental” à “polarização”, algo está acontecendo. Mas – talvez graças à fragmentação do debate público – nomear se torna impossível. 

O novo livro do historiador Anton Jäger, Hyperpolitics, ainda sem tradução no Brasil, é mais uma iniciativa nesse sentido. Misturando crítica cultural com análise de conjuntura, o texto aponta boas explicações para os tempos atuais. O autor mostra que é impossível dissociar a cultura dos processos políticos. 

Com dados extraídos de pesquisas, ele mostra que existe uma epidemia de solidão e alto nível de volatilidade nas relações. A informação já se tornou senso comum. A geração ansiosa, do psicólogo social Jonathan Haidt, se tornou best-seller ao analisar transtornos mentais que impactam a geração Z. A misoginia dos jovens red pill tem sido explicada com um ressentimento pelo acesso das mulheres ao mercado de trabalho mas também pela crescente falta de oportunidades para os jovens da classe trabalhadora. 

Acima de tudo, os smartphones, serviços de delivery e streaming, enfim, a digitalização tornou a comunhão desnecessária e, inclusive, incômoda. Para que sair se tenho tudo à palma da mão em casa? Soma-se a isso os trabalhos remotos e o triunfo da ideia de que empreender – mesmo que seja uma ilusão – é melhor que o trabalho formal, visto como indigno por parte da sociedade. 

No século 21, convivemos pouco, ou quase nada, com o outro. E essa parece ser a explicação mais adequada para a época que vivemos, que Jäger classifica como “hiperpolítica”. 

O pesquisador analisa quatro momentos políticos que sucederam o fim da Guerra Fria.

O primeiro, “política de massas”, é marcado por um alto grau de politização acompanhado por alto grau de institucionalização. Os partidos – europeus – eram compostos por muitos membros, que compartilhavam espaços de socialização, como clubes. A identidade partidária, argumenta o autor se baseando na literatura de, por exemplo, Didier Eribon, era motivo de orgulho. 

Porém, o alto grau de mobilização teria cansado e, por consequência, erodido, dando espaço à “pós-política”, marcada pelo hedonismo do techno berlinês. Eis “o fim da história”. Sem politização e institucionalização, todos querem curtir a vida adoidados. A dessocialização tirou os cidadãos da vida coletiva para a esfera privada, diz o escritor. 

“A história era uma estória como outra qualquer repisada demais na memória, sua terra, uma loja de penhores”, sentencia Stephen Dedalus em Ulysses, de James Joyce. Tudo que vai volta? Talvez como farsa, diria Marx. A politização voltou com a “antipolítica”, explica Jager, porém o declínio dos laços sociais segue intenso. 

Em 2016, a partir da eleição de Donald Trump e do Brexit, a saída da Inglaterra da União Europeia, deu-se início, segundo o acadêmico, à “hiperpolítica”. Estaríamos sozinhos mas politizados. Dinâmicos, intensos e polarizados mas ideologicamente difusos. 

“O engajamento político é mais exigente, mais individual e curto do que era no século 20”, escreve o autor. 

Jäger mergulha em experiências políticas recentes, inclusive nos fracassos de movimentos populistas de esquerda, como os encabeçados por Bernie Sanders, nos Estados Unidos, Jeremy Corbyn, na Inglaterra; Jean Luc Mélenchon, na França; e Pablo Iglesias, na Espanha, etc. 

Para ele, a saída é uma: “reinstitucionalizar o engajamento político”. Se os trabalhos são remotos, a saída da escola ainda é presencial, assim como as visitas em asilos. É lá que a esquerda deveria voltar a mobilizar, propõe o autor. E ele segue: “outro ponto de entrada sugerido é localizado no nível das ruas e dos bairros, onde os efeitos da gentrificação e a inflação podem ser testemunhadas em primeira mão, onde há negação de moradia para a maioria da população enquanto um grupo seleto goza os frutos da especulação imobiliária”. 

Se as saídas são adequadas ou não, só o tempo poderá dizer. Fato é que os esquerdistas Zohan Mamdani e Elif Eralp ganharam as eleições em Nova York e Berlim com essa plataforma. 

Também é verdade que o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha venceu no estado da Saxônia-Anhalt com a mesma estratégia. 

Tempos confusos. 

 

Kalil de Oliveira é jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina com intercâmbio na Universidade de Buenos Aires, é mestrando pela Escola de Jornalismo da Universidade Autônoma de Madri e do jornal El País. Foi repórter da Folha de S.Paulo, onde começou como trainee, e colaborou com veículos como a revista piauí, o Estado de Minas, UOL, Portal Catarinas, canais de televisão e estações de rádio da Argentina etc. 

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