O VÁCUO E A FERA

O projeto que nos devolve à jaula

A extrema direita brasileira prospera explorando o que há de mais primitivo no humano. Encontra terreno fértil num país de formação crítica rarefeita, cujo espaço público foi entregue a algoritmos estrangeiros 

O primeiro turno de 4 de outubro mostrou que a doença não passou. O projeto político que tentou romper a ordem democrática terminou a apuração à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do atual presidente. Seu fundador cumpre pena de 27 anos por tentativa de golpe, sem direitos políticos. Ainda assim, o projeto sobrevive a ele. Não estamos diante de um líder, mas de um modo de organizar afetos: um sistema que não convence pela razão, e sim pelo estímulo ao medo, ao ódio e ao gozo da humilhação alheia. 

Crédito: Bernardott/Wikimedia Commons

Freud descrevia a civilização como um esforço permanente de contenção da agressividade. Em Psicologia das massas e análise do eu (1921), mostrou o que acontece quando um líder libera essa renúncia: o indivíduo dissolvido na massa sente-se autorizado a fazer o que, sozinho, jamais faria. Theodor Adorno levou a intuição ao estudo do fascismo e observou que o agitador não oferece programa, oferece permissão. O inimigo é sempre próximo: o professor, o artista, o pobre que recebe auxílio, o indígena que reivindica terra. A arma como virtude, a tortura evocada com saudade, a morte de opositores tratada como piada não são desvios de estilo. São o método. 

Há uma ironia no centro desse projeto. Seu principal ideólogo, Olavo de Carvalho, passou décadas denunciando Antonio Gramsci e acusando a esquerda de ter conquistado o país pela cultura. Seus discípulos aprenderam a lição ao contrário. Se a hegemonia se ganha nas trincheiras da sociedade civil, é preciso ocupá-las: canais, grupos de mensagens, púlpitos, conselhos escolares. Ocupar e cercar, até que o adversário não tenha onde falar sem ser atacado. João Cezar de Castro Rocha, em Guerra cultural e retórica do ódio (2021), descreve essa máquina como uma retórica que precisa de um inimigo permanente para existir. A diferença em relação a Gramsci é de finalidade. Para o pensador sardo, a guerra de posição era um projeto de emancipação: elevar o senso comum à consciência crítica. Na versão olavista, o objetivo é o inverso: rebaixar o debate, desqualificar o saber, tornar o dissenso insuportável. 

Essa guerra é travada num território específico. A antropóloga Letícia Cesarino mostra, em O mundo do avesso (2022), que as plataformas digitais recompensam a polarização, o choque e a desconfiança das instituições. Nesse ambiente, a verdade deixa de ser verificável e passa a ser sentida. E as regras que o governam são escritas por empresas sediadas fora do país, que respondem a interesses e legislações estrangeiras. Do ponto de vista do planejamento territorial, trata-se de um espaço público sem soberania: um território ocupado, onde o algoritmo decide o que o brasileiro vê, teme e odeia. A extrema direita não criou esse território, mas foi quem melhor aprendeu a habitá-lo. 

Por que funciona tão bem aqui? Porque encontra um vazio. Não de inteligência, mas de formação. Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) de 2024, 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais, e apenas 10% atingem o nível proficiente, capaz de interpretar e avaliar criticamente um texto. A filosofia só voltou a ser obrigatória no ensino médio em 2008, e a reforma de 2017, a diluiu de novo. Uma geração inteira cresceu sem as ferramentas para perguntar quem diz algo, por que e a quem serve. 

Esse vazio não é acidente. Marilena Chauí lembra que nossa sociedade é estruturalmente vertical, organizada em mando e obediência. Jessé Souza rastreia essa hierarquia até a escravidão, que ensinou o país a naturalizar a desumanização de parte de sua gente. Paulo Freire advertia que a consciência sem formação crítica tende a absorver a visão de mundo do opressor como se fosse sua. O ódio ao pobre, ao negro, ao diferente não nasceu em 2018. Estava adormecido na estrutura, esperando licença. 

Dir-se-á que os mesmos algoritmos alimentam a extrema direita nos Estados Unidos e na Europa. É verdade, mas isso reforça o argumento. Lá, o fenômeno encontra resistência em instituições e numa cultura letrada mais ampla. Aqui, encontra um país em que dois em cada três adultos não chegam a um domínio consolidado da leitura. A diferença não está no vírus, está na imunidade. 

Nada disso autoriza desprezar o eleitor. Pesquisadoras como Esther Solano e Rosana Pinheiro-Machado mostram que muitos chegaram a esse voto por frustrações reais: a insegurança nas periferias, o desemprego, a sensação de abandono. O mecanismo não inventa a dor, ele a sequestra. Transforma o medo do assalto em desejo de extermínio e a raiva contra a corrupção em ódio à democracia. Desprezar esse eleitor seria repetir o erro do próprio projeto: dividir o país entre humanos e bestas. 

No dia 25 desse mês, o país volta às urnas. Mas uma eleição pode derrotar um candidato; não cura uma sociedade. Combater esse projeto exige devolver a filosofia e as humanidades à escola pública como direito, afirmar soberania sobre o espaço digital com regras democráticas para as plataformas e retomar a guerra de posição no seu sentido original: a paciente construção de consciência crítica nos bairros, nas igrejas, nos sindicatos e nas escolas. 

Gramsci escreveu da prisão que a crise se dá quando o velho morre e o novo ainda não consegue nascer. O Brasil vive esse interregno. A pergunta de outubro não é apenas quem governará, mas que humanidade queremos cultivar: a que contém a fera ou a que a solta. 

 

Leonardo Mosimann Estrella é pesquisador, administrador e discente em Ciências Econômicas pela UFSC e mestre e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Socioambiental pela Udesc. 

Leia mais sobre o tema: