Quando o bolsonarismo disputa o voto com as igrejas
As eleições de 2026 expõem uma tensão entre a expansão de uma identidade política cristã conservadora e a retração eleitoral de representantes religiosos tradicionais. Mais que uma oposição entre fé e política, está em disputa a autoridade para traduzir pertencimento religioso em representação parlamentar
“Toda honra e toda glória a Deus. Essa vitória é de Jesus Cristo! Batam palmas para Jesus Cristo!” A declaração de Cleitinho Azevedo, do Republicanos, na celebração de sua vitória para o governo de Minas Gerais, condensa uma linguagem que atravessou a campanha de 2026. Em Divinópolis, o senador agradeceu a Deus e cantou um louvor, apresentando a conquista como realização de uma promessa divina. No mesmo pronunciamento, prometeu governar para quem votou e para quem não votou nele. A legitimidade conferida pelas urnas e a linguagem do testemunho religioso aparecem, assim, reunidas na apresentação pública do futuro governante.

Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro atribuiu à relação entre cristianismo e poder uma dimensão nacional. Em vídeo divulgado durante a campanha, afirmou que um dos primeiros atos de seu eventual governo seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Posteriormente, sua equipe explicou que a expressão designaria uma oração simbólica, associada a agradecimento e proteção. Mesmo sob essa explicação, a declaração reivindica para a identidade cristã um lugar privilegiado na representação da comunidade.
As urnas, entretanto, acrescentaram uma tensão a esse movimento. A expansão de candidaturas e discursos identificados com o cristianismo conservador conviveu com perdas de votos e mandatos de representantes tradicionais das igrejas. O avanço desse campo político não assegurou a continuidade dos parlamentares apresentados como seus representantes institucionais. O problema sociológico consiste em compreender como uma identidade política pode ganhar força em ambientes religiosos enquanto determinadas autoridades eclesiásticas encontram dificuldades para converter sua influência em representação eleitoral.
Em A ciência como vocação, Max Weber analisa o conflito entre ordens de valor que reivindicam orientar a conduta e conferir sentido à existência. A ciência pode esclarecer relações, consequências e contradições; não oferece, contudo, uma demonstração capaz de decidir definitivamente quais valores últimos devem prevalecer. A imagem da “guerra dos deuses” remete a essa tensão constitutiva da modernidade e ultrapassa a descrição de confrontos entre denominações religiosas.
Michael Löwy desenvolve uma apropriação histórico-sociológica dessa perspectiva em A guerra dos deuses: religião e política na América Latina. Seu estudo sobre o cristianismo da libertação evidencia que as tradições religiosas comportam projetos de sociedade concorrentes. A fé pode fundamentar a legitimação da ordem existente e também alimentar movimentos de emancipação. O conflito atravessa igrejas e comunidades: pessoas que compartilham uma referência cristã podem divergir profundamente sobre justiça social, propriedade e autoridade (Löwy, 2000).
Geoffrey Pleyers (2020) retoma essa discussão ao examinar as transformações religiosas que participaram da formação do ambiente político favorável a Jair Bolsonaro. Sua análise relaciona o enfraquecimento de espaços do cristianismo progressista e a expansão de correntes conservadoras à produção de culturas políticas e redes de mobilização. Essa perspectiva permite investigar a eleição de 2026, como desdobramento de processos que antecedem uma campanha específica.
Há, porém, uma questão adicional: os agentes políticos favorecidos por essas redes podem adquirir capacidade de mobilização que excede o controle das instituições religiosas. Igrejas continuam oferecendo sociabilidade, vocabulários morais e espaços de formação de preferências; isso não significa que conservem a mesma autoridade sobre a indicação de candidatos.
Pierre Bourdieu (1971), ao analisar a estrutura do campo religioso, destaca as disputas pela produção e administração dos bens de salvação e pela autoridade legítima sobre os leigos. Sua contribuição ajuda a formular o problema, sem equiparar autoridade espiritual e comando eleitoral. A questão é a conversão entre formas de reconhecimento: em que condições o prestígio religioso se torna apoio político?
E quando outros agentes (parlamentares, influenciadores ou lideranças partidárias) passam a disputar essa mediação?
Neste artigo, a hipótese de uma autonomia relativa da identidade bolsonarista designa a possibilidade de que a preferência política de determinados fiéis se organize por referências que já não dependem exclusivamente da indicação de sua igreja. Trata-se de uma hipótese sobre a recomposição das relações entre autoridade e representação, a ser confrontada com os resultados e com pesquisas sobre os eleitores.
A Universal no Rio de Janeiro: continuidade com perda de votos
As candidaturas associadas à Igreja Universal do Reino de Deus, no Rio de Janeiro, oferecem um recorte importante. Danniel Librelon e Tia Ju renovaram seus mandatos estaduais, enquanto Carlos Macedo não assegurou a continuidade. Na disputa federal, Luiz Carlos Gomes conquistou uma cadeira; Rosângela Gomes terminou como suplente. A permanência de representantes conviveu, portanto, com retrações individuais e perdas de mandatos.
Librelon passou de 80.970 votos em 2022, para 57.409 em 2026, redução de 29,10%. Tia Ju recebeu 47.302, contra 63.373 na eleição anterior: perdeu 16.071 votos, ou 25,36%. Carlos Macedo, que obtivera 62.495 em 2022, chegou a 38.397 no quadro de apuração reunido para esta análise, retração de 38,56%. Na disputa federal, Luiz Carlos Gomes foi eleito com 70.331 votos. Rosângela Gomes recebeu 64.975, contra 76.292 em 2022, queda de 14,83%.
Esses resultados permitem distinguir erosão eleitoral e perda de representação. Um candidato pode preservar a cadeira com uma votação menor; outro pode ficar fora mesmo obtendo dezenas de milhares de votos. A ordem interna da chapa e o desempenho do partido ou da federação participam da distribuição das vagas. Também não é possível calcular, a partir desses totais, quantos votos foram produzidos pela indicação religiosa e quantos decorreram do trabalho parlamentar, de alianças municipais ou de outros vínculos.
Ainda assim, a redução simultânea em diferentes candidaturas coloca em discussão a eficácia dessa mediação institucional. O pertencimento à igreja pode continuar influenciando a escolha sem se converter em adesão ao candidato recomendado. Para investigar essa possibilidade, os resultados precisam ser articulados a estudos territoriais, entrevistas e pesquisas individuais sobre orientação pastoral e preferência política.
O caso de Marcelo Crivella amplia a questão. Bispo licenciado da Universal, sobrinho de Edir Macedo, ex-senador e ex-prefeito do Rio, ele reúne vínculos familiares, reconhecimento religioso e uma trajetória política de décadas. Esses recursos, entretanto, não foram suficientes para assegurar uma das duas vagas fluminenses no Senado. Crivella recebeu pouco mais de 500 mil votos, cerca de 3,4%, enquanto os eleitos Carlos Portinho e Carlos Jordy, ambos do PL, ultrapassaram, cada um, a marca de 3,9 milhões de votos.
A distância ganha significado diante de sua projeção histórica: além de ter exercido o mandato de senador, Crivella foi eleito prefeito do Rio em 2016, com aproximadamente 1,7 milhão de votos no segundo turno. Embora disputas de cargos e conjunturas diferentes não permitam uma comparação direta, essa trajetória dimensiona o contraste entre seu reconhecimento público e o desempenho atual. Sua identificação com o bolsonarismo, somada à posição familiar dentro da Universal, não assegurou preferência diante de concorrentes associados mais diretamente a esse campo. O resultado reforça a hipótese de que, em determinados segmentos, a identidade político-ideológica esteja adquirindo maior capacidade de mobilização do que a indicação institucional da igreja, sem demonstrar, por si só, uma transferência de votos entre essas candidaturas.
Otoni de Paula percorreu uma trajetória distinta. Após romper com o bolsonarismo e declarar apoio a Lula, recebeu 19.364 votos e não se reelegeu deputado federal. Em 2022, obtivera 158.507: a perda foi de 139.143 votos, ou 87,78%. A magnitude da retração torna seu caso relevante para investigar os custos eleitorais de mudanças de alinhamento, embora o resultado isolado não permita atribuir toda a queda à ruptura política.
Na outra direção, Alexandre Isquierdo, que incorporou Malafaia ao nome de urna, foi eleito deputado estadual com 83.461 votos, dos quais 50.004 vieram da capital. A associação combina reconhecimento religioso e identificação com uma liderança de atuação política conservadora. Seu resultado sugere examinar como vínculos eclesiásticos e alinhamentos ideológicos podem se reforçar, em vez de presumir que disputem necessariamente entre si.
A erosão de estruturas familiares e denominacionais
A derrota política da estrutura de R. R. Soares ocorreu por meio de quatro filhos que buscavam renovar mandatos. Em São Paulo, David R. R. Soares não se reelegeu deputado federal e Daniel Soares perdeu a cadeira estadual. No Rio de Janeiro, Felipe R. R. Soares terminou como suplente estadual e Marcos R. R. Soares como suplente federal. A projeção do fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus não assegurou a continuidade de seus representantes.
A Assembleia de Deus do Brás também sofreu perdas. Cezinha de Madureira passou de 143.434 votos em 2022, para 60.596 em 2026, queda de 57,75%, sem reeleição. Oseias, Elias e Rogério de Madureira receberam, respectivamente, aproximadamente 42 mil, 32 mil e 31 mil votos, ficando fora das vagas. Em contraste, Alex Madureira, afastado da denominação comandada por Samuel Ferreira, manteve o mandato estadual com aproximadamente 122 mil votos.
Essa combinação é especialmente importante porque envolve candidaturas situadas no próprio campo conservador. A dificuldade eleitoral não se restringiu a lideranças que abandonaram o bolsonarismo. Pode envolver concorrência entre candidatos, divisão de bases e diferentes modos de apresentar-se como representante político do público cristão.
Em Pernambuco, Cleiton Collins recebeu 33.400 votos, contra 50.510 em 2022, redução de 33,87%, e não renovou o mandato estadual. Joel da Harpa passou de 35.938 para 28.919, queda de 19,53%, também sem reeleição. Michele Collins recebeu 31.777 votos na disputa federal, ante 39.296 quatro anos antes, retração de 19,13%, sem conquistar cadeira. Pastor Eurico também não se reelegeu. Na disputa estadual pelo Senado, o pastor Gilvan Costa recebeu 18.179 votos e terminou na oitava posição.
Esses casos mostram limites da conversão do reconhecimento religioso em representação parlamentar, mas não demonstram um desaparecimento da influência religiosa. Sua interpretação exige distinguir a força de uma identidade coletiva da capacidade de um dirigente específico representá-la.
Visibilidade gospel, voto e representação
O levantamento de Cristiano Stefenoni, publicado pela revista Comunhão, acrescenta outra dimensão: a presença de cantores e influenciadores que buscaram converter notoriedade em mandato. No Rio, Cristina Mel recebeu 8.273 votos para deputada federal, contra 23.936 em 2022, redução de 65,44%. Elaine Martins alcançou 14.714 votos para deputada estadual; Gisele Nascimento, 5.453. As três ficaram como suplentes.
Em São Paulo, Davi Sacer recebeu 40.087 votos para deputado federal e não foi eleito. Marcelo Aguiar terminou a disputa estadual com 37.585, abaixo dos 42.898 de 2022. Vanilda Bordieri recebeu 4.480 votos para deputada federal; Noemi Nonato, 2.153 para deputada estadual. Pregadora Vitória Souza alcançou 31.070 votos na disputa federal, também sem conquistar cadeira.
O problema comum a essas candidaturas é a distância entre audiência e base eleitoral. O reconhecimento de uma voz, de uma pregação ou de uma trajetória artística pode produzir atenção e simpatia sem organizar uma preferência parlamentar. A circulação digital também reúne públicos dispersos, enquanto a eleição exige votos concentrados na circunscrição da candidatura.
As exceções são decisivas. Mara Lima foi reeleita deputada estadual no Paraná com 41.133 votos, embora abaixo dos 46.011 de 2022. Marco Feliciano manteve o mandato federal em São Paulo com 122.119 votos, mesmo com queda de 44,64% em relação aos 220.595 da eleição anterior. No Distrito Federal, Julio Cesar Ribeiro, ligado à Universal, foi eleito com 90.092. Na Bahia, Pastor Sargento Isidório alcançou 248.147 votos, contra 77.164 em 2022, crescimento de aproximadamente 221,58%.
No Rio, Henrique Vieira, do PSOL, passou de 53.933 para 77.584 votos, expansão de 43,85%, e foi reeleito deputado federal. Sua identidade evangélica se articula a um projeto progressista, evidenciando a pluralidade política existente no interior do cristianismo. Benedita da Silva, apesar de não conquistar uma vaga no Senado, reuniu mais de três milhões de votos, conforme o material de apuração reunido para esta análise. Kleber Lucas integrou sua chapa como segundo suplente, sem votação nominal própria.
Esses contrapontos impedem transformar a hipótese de autonomia bolsonarista em explicação totalizante. A fé cristã permanece politicamente plural; uma derrota pode coexistir com votação expressiva, e uma reeleição pode encobrir forte retração.
Território, religião e identificação política
O levantamento de Tiago Mali, publicado no UOL, cruzou resultados eleitorais com a distribuição municipal das religiões no Censo de 2022. Nas cidades com proporção de evangélicos acima da média nacional, Flávio Bolsonaro recebeu 52% dos votos válidos, contra 48,8% obtidos por Jair Bolsonaro nesse grupo em 2022. No terço de municípios mais católicos, Lula continuou à frente, mas caiu de 64,9% para 59,4%. Sua vantagem sobre o candidato da família Bolsonaro diminuiu de 35,7 para 24,7 pontos percentuais.
Há duas medidas distintas: Lula perdeu 5,5 pontos percentuais de votação nesse conjunto; a diferença entre os concorrentes diminuiu 11 pontos. O recorte territorial mostra associações relevantes, mas exige cautela. Municípios diferem também quanto à renda, à estrutura econômica, à história regional e às redes partidárias. A distribuição das religiões não oferece, sozinha, uma explicação causal do voto.
Os extremos municipais tornam essa complexidade visível. Em Montauri, apontada como a cidade mais católica do Brasil, Flávio recebeu 935 votos, ou 75,89% dos válidos, e Lula, 187, ou 15,18%. Em Arroio do Padre, apresentada como a mais evangélica, Flávio alcançou 1.976 votos, correspondentes a 82,54%, contra 257 de Lula, ou 10,74%. Ambas ficam no Rio Grande do Sul: a primeira é marcada pela colonização italiana e pela tradição católica; a segunda, pela imigração pomerana e pela presença luterana.
A convergência dos resultados não dissolve as diferenças religiosas. Mostra que pertencimentos confessionais distintos podem se articular a identificações políticas semelhantes. Também ilustra o risco de inferência ecológica: conhecer a votação de uma cidade e sua composição religiosa não permite identificar o voto de cada grupo ou indivíduo.
Sacralização da política e pluralismo democrático
Ricardo Mariano (2011) mostra que as disputas religiosas no Brasil ultrapassam o espaço dos cultos e alcançam a mídia, os partidos e a definição de direitos. Essa perspectiva permite examinar a laicidade como uma relação continuamente disputada na esfera pública. A questão ultrapassa a presença de pessoas religiosas na política e envolve o lugar conferido a suas crenças na organização de uma comunidade composta por cidadãos de diferentes tradições.
A controvérsia em torno de Nossa Senhora Aparecida expôs essa dimensão. A declaração de Flávio sobre entregar o Brasil a Cristo é documentada; a atribuição a ele de uma proposta para retirar da santa o título de padroeira foi associada a um projeto antigo e arquivado do qual não participou. Como observa Fábio Py (2026), a disputa pelos símbolos religiosos da nação mobiliza diferentes concepções de legitimidade e pertencimento. Uma análise crítica precisa distinguir o conteúdo documentado das declarações e a desinformação que circulou em torno delas.
É nesse contexto que a pergunta sobre uma “nova religião” deve ser delimitada. Os resultados eleitorais não demonstram o surgimento de uma religião bolsonarista. A expressão pode nomear, como hipótese interpretativa, práticas de devoção política, narrativas de redenção, lealdades intensas e desqualificação moral dos adversários. Sua utilidade depende de investigar empiricamente esses mecanismos, sem atribuí-los indistintamente a todos os eleitores conservadores.
A categoria de sacralização da política permite precisar o problema: projetos de poder passam a reivindicar uma autoridade transcendente, apresentando disputas históricas como expressão de uma missão. Agradecer por uma vitória e reivindicar a definição religiosa da nação são atos distintos, embora possam participar de um mesmo repertório público. A fé de um governante não determina, por si só, a qualidade democrática de sua atuação; a transformação de uma preferência política em dever sagrado pode dificultar o reconhecimento da legitimidade do dissenso.
O fiel pode permanecer em sua igreja e escolher politicamente por referências que circulam entre templos, redes sociais, famílias e partidos. O resultado é uma possível recomposição das mediações: instituições continuam influentes, mas encontram concorrentes para a tradução eleitoral do pertencimento que ajudam a produzir. A perda de mandatos de representantes tradicionais convive, nesse cenário, com a expansão de uma identidade política que mobiliza os mesmos vocabulários religiosos.
A contribuição da “guerra dos deuses” consiste em tornar inteligíveis esses conflitos de autoridade e valor. A disputa atravessa as próprias comunidades cristãs, confronta projetos conservadores e progressistas e envolve diferentes modos de reivindicar legitimidade para o poder. Seu alcance democrático dependerá de quanto espaço permanecerá para que a divergência seja reconhecida como escolha legítima de cidadãos que compartilham a mesma comunidade política, embora não compartilhem a mesma fé ou o mesmo projeto de sociedade.
Marcio Ferreira é doutorando em Sociologia Política, PPGSP/IUPERJ | UCAM Jornalista e Pesquisador do Grupo de Estudos Religião e Cidades (RE-CID) E-mail: [email protected]
Referências
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