POLÍTICA

Participação eleitoral e partidária é maior nas cidades pequenas do Brasil

Pesquisa reúne dados de comparecimento às urnas, filiação partidária e alistamento eleitoral de jovens de 16 e 17 anos para compreender como a intensidade de conexão da população com as instituições da democracia representativa está distribuída no país 

Os vínculos com partidos e eleições são mais intensos nos municípios pequenos e menos urbanizados do Brasil. Esse é um dos principais resultados do Índice de Participação Partidário-eleitoral, o IPar-Eleitoral, criado pelo Observatório Participa (OPar), iniciativa vinculada ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – INCT Participa, que conta com financiamento do CNPq. O estudo revela diferenças territoriais significativas, que ajudam a compreender como a intensidade de conexão da população com as instituições da democracia representativa está distribuída no país. 

Crédito: TSE/Wikimedia Commons

O índice reúne três indicadores: comparecimento às urnas, filiação partidária e alistamento eleitoral de jovens de 16 e 17 anos, para quem o voto é facultativo. Os dados são do Tribunal Superior Eleitoral e se referem a 2024. Para estimar a proporção de jovens alistados, foram utilizadas projeções da população dessa faixa etária a partir do Censo de 2022.  

Os resultados mostraram que as três práticas têm alcances distintos. Na maior parte dos municípios, o comparecimento às urnas fica entre 80% e 90% do eleitorado. Como o custo da abstenção é relativamente baixo e sua justificativa é acessível, a obrigatoriedade do voto não explica o fato de se tratar de uma forma de participação com adesão tão elevada. Por sua vez, a filiação partidária concentra-se entre 10% e 20%, enquanto o alistamento de jovens se situa, em geral, entre 5% e 15% da população estimada de 16 e 17 anos. 

Devemos notar, entretanto, que a abstenção tem crescido no Brasil ao longo das últimas seis eleições presidenciais, isto é, desde 2006. No primeiro turno das eleições deste ano, ela chegou a 21,08% do eleitorado, o que reforça a importância de identificarmos em que medida a adesão eleitoral está relacionada com outras formas de participação política nos municípios. O IPar-Eleitoral contribui para esse diagnóstico.  

Os dados mostraram que municípios com maior comparecimento eleitoral também costumam apresentar mais filiações a partidos e alistamento eleitoral jovem. A tendência de as três práticas caminharem juntas explica cerca de 56% da variação observada entre as cidades. Contudo, há perfis locais distintos que escapam a essa tendência. Assim, em algumas cidades, uma elevada filiação partidária convive com baixo alistamento jovem e, em outras, ocorre o inverso. Isso indica que a mobilização eleitoral de jovens e o vínculo com partidos também seguem dinâmicas próprias, relacionadas a contextos municipais específicos. 

Considerando as três práticas agregadas, o tamanho da população dos municípios é um fator marcante nas variações encontradas: os resultados indicam claramente uma associação entre menor porte e maior participação partidária e eleitoral. No modelo estatístico adotado, cidades com até 5 mil habitantes apresentam, em média, índice estimado 32,15 pontos superior ao de cidades com 100 mil habitantes, utilizadas como categoria de referência. No outro polo, municípios com mais de 500 mil habitantes registraram uma redução de 3,46 pontos. Os mapas ilustram esses contrastes e mostram como eles se traduzem em termos de distribuição regional, dividindo todos os municípios do país em quatro conjuntos que combinam cidades com engajamento partidário eleitoral alto e baixo e uma dessas dimensões sociodemográficas: tamanho da população (população de até 50 mil habitantes ou maior que 50 mil habitantes); e taxa de urbanização alta ou baixa.  

 

Mapa: Tamanho Populacional e Participação Partidário-Eleitoral (Censo 2022)

No Sul, 61% dos municípios combinam população de até 50 mil habitantes e alta participação; no Norte, essa proporção chega a 60%. Inversamente, no Sudeste, predominam cidades de até 50 mil habitantes com baixa participação, que representam 54,5% dos municípios da região. Já no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, não existem cidades com mais de 50 mil habitantes e alta participação. No Norte, sete cidades com população superior a 50 mil habitantes apresentam alto engajamento partidário-eleitoral.

Mapa: Urbanização e Participação Partidário-Eleitoral 

A urbanização apresenta semelhanças com essa distribuição. Municípios com baixa urbanização e alta participação representam 44,9% das cidades do Sul, 43,8% do Nordeste e 42,4% do Norte. Já no Sudeste, 53,3% dos municípios combinam elevada urbanização e menor participação. Assim, porte e urbanização ajudam a identificar onde os vínculos partidários e eleitorais são mais intensos, embora as pequenas cidades também apresentem diferenças expressivas entre si. 

O desenvolvimento socioeconômico acrescenta uma dimensão importante a esse quadro urbano-demográfico. Ao cruzar o IPar com o Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM), que engloba informações sobre educação, saúde e emprego e renda, o levantamento mostra que municípios com melhores indicadores socioeconômicos não são os que têm maior participação. No Norte e no Nordeste, a combinação de baixo IFDM e alto engajamento reúne, respectivamente, 55,6% e 54,6% dos municípios. No Sudeste, 55,4% das cidades combinam alto IFDM e menor participação. O Sul apresenta outro perfil: 50,8% de seus municípios reúnem alto desenvolvimento e alta participação. 

 

Mapa: Desenvolvimento socioeconômico e Participação Partidário-Eleitoral 

 

Esses resultados mostram que a população dos municípios que possuem condições socioeconômicas menos favoráveis pode manter vínculos mais intensos com os partidos e as eleições, enquanto cidades com indicadores mais elevados podem apresentar menor engajamento. É importante destacar, entretanto, que o índice não informa, por si só, a qualidade desse engajamento ou as condições em que ele se estabelece nos municípios.  

Outra forma de entender o comportamento territorial da participação partidário-eleitoral no país é examinar sua distribuição por estados. 

 

Preditores do Engajamento em Modelo Multinível (Censo 2022)

A maior parte dos estados do Norte apresenta associação positiva com o índice, com exceção de Rondônia. No Nordeste, os resultados são heterogêneos. Todos os estados do Sudeste e do Centro-Oeste apresentam estimativas negativas. No Sul, apenas Santa Catarina se destaca com associação positiva. 

As causas que explicariam o conjunto desses resultados precisam ainda ser exploradas. Mas o diagnóstico convida a olhar com mais atenção para a política fora dos grandes centros urbanos. Os dados podem ser úteis para subsidiar ações de mobilização social e promoção da participação política. Os resultados podem ser melhor explorados no hotsite IPar Partidário-Eleitoral, que permite visualizar os dados georreferenciados, comparar cada município com a média nacional e com as demais cidades de seu estado. No site do Observatório Participa/INCT Participa, pode-se encontrar o relatório completo e uma nota técnica contendo os principais achados do estudo, além de outros dados e análises sobre participação social e suas transformações.  

 

Adrian Gurza Lavalle é coordenador do INCT Participa, presidente do Cebrap e professor livre docente da FFLCH/USP. 

Carla Cecília Rodrigues Almeida é professora associada da UEM, coordenadora do SociDem/UEM e membro do Comitê Gestor do INCT Participa. 

Rodrigo Martins é cientista de dados, pesquisador do NDAC/Cebrap e especialista-visitante do INCT Participa. 

Lizandra Serafim é professora do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais da UFPB, coordenadora do NPPD/UFPB e membro do Comitê Gestor do INCT Participa. 

Inácio de Paula e Silva é mestrando em Ciência Política na FFLCH/USP e pesquisador vinculado ao NDAC/Cebrap e ao INCT Participa.

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